O professor Marcio Antônio Souza da Silveira chegou ao Abrigo de Animais de Grande Porte da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), no bairro Lami, no extremo Sul de Porto Alegre, na manhã desta sexta-feira, com o objetivo de levar uma égua de cerca de oito anos, abrigada no local, para seu sítio em Morungava, interior de Gravataí, na região metropolitana. Mas ele se sensibilizou também por uma pequena potranca de oito meses, e, assim, pôs as duas no reboque de sua caminhonete.
Acostumado à lida campeira desde a infância, vivida no município de Santa Maria, Marcio já contava com um cavalo, além de outros animais, como cavalos e porcos, na propriedade de quatro hectares que mantém com sua esposa. O processo desde o conhecimento do espaço até a adoção foi dito pelo adotante como rápido, levando cerca de 15 dias entre a apresentação da documentação e o embarque dos animais.
“Quem sabe a gente não arranja mais espaço e leva mais da próxima vez. Quero indicar também para outros amigos e pessoas conhecidas”, comentou ele. O abrigo, mantido em uma área de 22 hectares na zona rural de Porto Alegre, apresenta uma face relativamente pouco conhecido da empresa pública, mas igualmente importante, o recolhimento e cuidado de animais soltos ou que sofreram maus-tratos.
Já descontando os dois adotados por Marcio, o abrigo da EPTC contava, nesta sexta-feira, com 50 cavalos e éguas, sendo 44 aptos, enquanto os demais, explica a equipe responsável, passam por um processo de quarentena até ficarem prontos para a adoção. Mas muitos chegam debilitados a ponto de não poderem mais deixar o local, como é o caso de “Ceguinho” e “Ceguinha”, macho e fêmea com cerca de 25 anos cada, ou seja, são cavalos idosos, e que estão cegos de ambos os olhos. Ele foi resgatado do Arroio Dilúvio há 13 anos, em condição crítica, sendo considerado o mascote do abrigo, enquanto ela está no local há cerca de seis meses.
A Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) mantém no seu abrigo de animais de grande porte cavalos resgatados das ruas de Porto Alegre
Cada um tem uma cocheira exclusiva, e todos recebem chips de identificação, tratamento e alimentação adequadas. "A rotina do dia é basicamente a mesma de sempre. De manhã lidamos com eles, soltamos no campo, recolocamos nas baias, vamos tratando, vendo o que eles precisam”, comentou o responsável pelo abrigo, Thiago Ferrão. O chefe da Equipe de Fiscalização de Veículos de Tração Animal (EFVTA) da EPTC, Gilberto Machado Fonseca, afirmou que as ocorrências, como denúncias de maus tratos ou avisos de tráfego em locais não-permitidos, sempre são registradas via 156.
“A gente comparece e tenta interceptar estas pessoas, recolhendo os cavalos. Em caso de maus tratos, atestados pelo veterinário, mesmo o proprietário comparecendo, o cavalo não é devolvido, e inclusive ele responde criminalmente”, contou ele. Se isto não for atestado, o animal é disponibilizado para adoção em pouco tempo. Animais recém-chegados ficam em observação por 24 a 48 horas e permanecem em quarentena sanitária. Passado este período, são liberados para interagir com os demais.
Em casos mais graves, a EPTC tem parcerias com hospitais veterinários, como da Ulbra e da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os trâmites para adoção estão disponíveis no site da Prefeitura, mas, em geral, além da garantia de amar incondicionalmente estes gigantes, potenciais adotantes não podem ter processos ou inquéritos policiais relacionados a maus-tratos contra animais, disponibilidade de veterinário e transporte do animal e, no mínimo, dois hectares de área livre na propriedade.
Mesmo depois de ir para casa, o animal é monitorado pela EPTC a cada dois meses, sendo que, se o local estiver a menos de 80 quilômetros da Capital, a equipe vai até lá, e se for mais distante, o adotante é obrigado a comprovar o trato enviando fotos e vídeos. O abrigo foi criado em 2010, a partir de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS).
Tráfego de carroças é proibido na área urbana da Capital
O tráfego de veículos de tração animal é proibido na área urbana de Porto Alegre, conforme lei municipal de 2008, mas permitido no Arquipélago e na área rural. Quem for pego descumprindo a medida responde a uma infração administrativa, com o animal e a carroça recolhidos ao abrigo, sendo que o veículo em si é destruído também no local por empresas atestadas pela Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam). A EPTC discute alterações na legislação para lidar com a reincidência.
De janeiro a junho deste ano, a empresa pública recolheu 126 animais, devolvendo 76 aos proprietários. Após as enchentes de 2024, o desafio do local foi ainda maior. Doze hectares da propriedade alagaram, mas a sede não foi comprometida. Mesmo assim, o abrigo passou a manter 68 animais. Antes das inundações, eram 36. Não apenas equinos foram acolhidos, como também gado, búfalos e inclusive um cervo. Do total, somente nove não foram devolvidos aos donos.
Também devido às enchentes, uma medida da Prefeitura estendeu o prazo para reivindicação dos animais de 15 para 60 dias. Mais informações sobre a adoção podem ser obtidas pelo telefone (51) 3289-4447 ou WhatsApp (51) 99756-0848. O abrigo funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 11h30, e das 13h30 às 17h na rua Crispim Antônio Amado, número 1266, bairro Lami, e é aberto para visitação pública mediante agendamento prévio.