Cidades

Alagamentos intensificam vulnerabilidade de famílias no bairro Ipê, em Guaíba

Moradores da rua Três foram resgatados pela Defesa Civil, enquanto outros, mesmo ilhados, querem permanecer para proteger suas casas

Moradores do bairro Ipê, em Guaíba, sofrem com alagamentos dentro de suas casas | Pablo dos Santos Fernandes mostra partes da sua casa alagada
Moradores do bairro Ipê, em Guaíba, sofrem com alagamentos dentro de suas casas | Pablo dos Santos Fernandes mostra partes da sua casa alagada Foto : Camila Cunha

O aumento do nível do Guaíba e o vento que represa a água traz aflição para as famílias do bairro Ipê, um dos mais afetados pelos alagamentos no município de Guaíba. Na rua Três, as pessoas que vivem em situação de vulnerabilidade relatam os transtornos intensificados pelos alagamentos, que já permanecem há duas semanas. A água é suja e com a presença de uma espécie de minhocas, trazendo riscos a moradores que precisam caminhar pela água com chinelos de dedo, ou até mesmo pés descalços.

Carla Simone, moradora da rua, já está fora de casa faz mais de duas semanas, abrigada na casa da sua filha. “Não tenho como ficar. Com criança, como vou ficar dentro d’água?”, questiona. Ela relata que a água recuou, mas voltou a subir novamente nos últimos dias. Essa água está quase entrando dentro da casa de Gildo Pacheco da Silva, que mora mais à frente. “Se vou sair de casa e abandonar, acabam invadindo e roubando o que tem dentro. Eu já não tenho quase nada”, diz.

Maria Terezinha Machado, também moradora dali, está com água dentro da sua casa, e foi se refugiar no bairro Cohab no sábado. Ela aguarda resultado do programa Compra Assistida. É um relato repetido por muitos moradores da região. “É um absurdo essas casas que querem dar para nós. A Caixa não faz nada, e nós estamos aqui”, diz. Maria Vianna, que foi resgatada no domingo pela Defesa Civil no colo, completa: “Nosso problema é que já deram as casas, mas as casas não saem. Todos estão passando de novo pela mesma coisa. A prefeitura diz que não é com eles, passa pra Caixa, mas a Caixa não libera nada”.

A moradora Mariana Marques dos Santos conversa com a reportagem pela pequena janela da sua casa. Ilhada há duas semanas, ela conta que seu banheiro e quarto estão todos alagados, já que estão na parte mais baixa da casa. "Não temos para onde ir, e a gente não está recebendo nenhuma ajuda", diz. Ela tem três filhos – de 3, 6 e 10 anos.

“Na porta, ontem, até entrou, mas já estão em partes mais baixas, no banheiro, na cozinha”, diz Pablo dos Santos Fernandes, apontando para quase abaixo do joelho, onde a água está. Perguntado se pretende continuar em casa, ele responde:

“Pretensão ninguém tem. Mas se abrir mão daqui, o que mais tem é quem vem roubar as nossas coisas, os eletrodomésticos. A gente não está aqui porque quer, mas porque precisa segurar o que a gente tem. Foi muito tempo para conseguir. Não é simplesmente abrir mão para alguém chegar e levar o que temos e compramos com crediário. Porque pobre sempre parcela tudo”, diz.

De acordo com a Defesa Civil, um abrigo provisório com capacidade para 100 pessoas já acolheu oito pessoas de três famílias, todas residentes da rua Três. Mais de 50 pessoas, de nove famílias, saíram por espontânea vontade do bairro. Também foram resgatados 23 cães e 11 gatos foram resgatados e devolvidos às suas famílias. A orientação do órgão é de que os moradores de regiões ribeirinhas que se protejam e entrem em contato com a Defesa Civil pelo 199 se a água estiver se aproximando da sua residência.

Nesta segunda-feira, dia 30, a prefeitura de Guaíba acionou o Sistema de Comando de Incidentes, com o objetivo de traçar estratégias preventivas diante da previsão de elevação do nível do Guaíba. A força-tarefa envolve também a Brigada Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros, Corsan, CEEE Equatorial, Ministério Público e vereadores do município.

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