Após o recuo das águas, moradores da região das Ilhas de Porto Alegre, no bairro Arquipélago, tentam retomar suas rotinas. O lodo e a lama que tomou conta das ruas, registrado pela reportagem no último domingo, têm diminuído, e as pessoas tentam voltar à normalidade, mas apreensivos com novas cheias.
O pescador Julio Cesar Vasconcellos, de 44 anos, morador da rua Nossa Senhora da Boa Viagem, próximo à Colônia de Pescadores Z5, tenta retomar a pesca diária, mas ainda percebe dificuldades. “Eu pesco mais peixe graúdo, que está difícil de pegar”. Ele afirma que o que mais aparece é o peixe Bagre, mas a pesca é proibida. “Então fica ruim pra nós. Pescador é maltratado”, lamenta. O que mais tem conseguido pescar é peixe Piava, e já conseguiu pegar três peixes Carpa.
Ele ficou duas semanas sem poder pescar por conta da cheia, pois os peixes desceram para baixo. Os problemas se dão não com a água parada, mas com correnteza, porque o peixe se esconde e entra para o banhado. “Peixe não tem força para nadar de conta a correnteza”, diz o pescador. “Os outros peixes vão-se embora, descem a lagoa. Porque ele não vai nadar rio acima, mas ele entra para o remanso”, diz o pescador.
"Poucos estão voltando"
Na semana passada, um de seus vizinhos, chamado Dilon, faleceu de infarto. A situação aconteceu em meio às suas preocupações com a chegada de uma nova cheia. “Ele estava atucanado com a água chegando no portão dele de novo”, acredita Julio. O morador tinha filhos, mas morava sozinho. “Uma semana antes, quando a água estava baixa, ele estava tocando violão ali no portão dele”, relata. Ainda que as águas tenham baixado, a cada cheia, menos moradores têm retornado à Ilha, percebe Julio. “Poucos estão voltando”.
Julio pretende permanecer na Ilha, porque foi onde cresceu e diz que é seu lugar. “Estou cuidando das galinhas do meu pai, os passarinhos, o barco e a rede. É o que eu tenho que fazer, né?”
Nesta quinta-feira, dia 10, a Defesa Civil de Porto Alegre retomou entregas de donativos no bairro Arquipélago. Foram atendidas mais de 350 famílias nas Ilhas do Pavão e das Flores com cestas básicas, kits de limpeza e de higiene. A ação contou com o apoio da subprefeitura, do Exército e da Defesa Civil estadual.