Hora após hora, a água fica mais próxima de entrar na casa do reciclador Jonatan Mendes, 29 anos, mas apesar de acompanhar a subida do Guaíba, o morador da Ilha do Pavão, no bairro Arquipélago, não pensa em sair. Acostumado a repetidas enchentes, ele diz que vai esperar por sinais de piora do que ainda acredita ser “apenas mais uma crise” entre tantas já enfrentadas pela comunidade daquela região de Porto Alegre.
“Tá crítico, mas acho que essa enchente é a normal, que a gente tem uma ou duas vezes por ano”, entende. Ele mora com a esposa, de 29 anos, e dois filhos, com 7 e 2 anos, em uma das casas da rua dos Pescadores, na margem da BR 290.
O vento dava aos 9ºC da noite a sensação de ainda mais frio. Sem se importar, o filho mais velho de Mendes trilhava de um lado para outro sobre uma passarela improvisada com caixas plásticas e madeiras. A brincadeira infantil de equilibrar-se sobre as tábuas ganhava em extensão no compasso da subida da água, e já ultrapassava 10 metros de comprimento na noite desta terça-feira, 24.
A estratégia é adotada por Mendes sempre que ocorrem inundações na região. As pranchas e as caixas ficam estrategicamente guardadas para eventuais emergências.
“O jeito de sair e entrar sem molhar os pés”, conta o morador.
A casa da família é mais alta do que a rua, outro fator que dá confiança ao reciclador em passar mais uma noite no local. Mas nem por isso, deixa de acompanhar o avanço do Guaíba.
“Não tenho trabalhado, não teria tranquilidade para sair e deixar minha família. E vou passar a noite espiando a água”.
Para driblar as dificuldades e permanecer na Região das Ilhas, o autônomo Diego Zimerluz, 38, tem uma estratégia um tanto mais elaborada. Após perder cinco vezes todos os pertences, comprou um motorhome. O veículo fica estacionado junto da moradia, na Ilha da Pintada, e nesta semana ele o moveu, apesar de alguns problemas mecânicos, para um ponto onde a água não costuma chegar, na rua do Retorno, próximo da BR 290.
“Minha casa fica do outro lado, onde ainda tá seco, mas já me adiantei. E também fico pronto para ajudar minha mãe, ela já teve que abandonar”, afirma.
Zimerluz levou geladeira, fogão, TV, roupas e colchão no motorhome. Foi o que priorizou de início, mas pretende voltar nesta quarta-feira para buscar mais pertences.
“Vivi a vida toda assim, mas cansa. A gente precisa de ajuda aqui”, clama o morador da Pintada.