Belas, imponentes e exóticas, as palmeiras espalhadas por avenidas de Porto Alegre impressionam por sua robustez e por trazer um pouco mais de beleza e leveza ao cenário urbano. Convenientemente, elas não estão ali por acaso, tendo sido plantadas há várias décadas na esteira de eventos comemorativos ocorridos na Capital. Os exemplares postos na cidade são, em sua maioria, de palmeiras-da-Califórnia, cujo nome científico é Washingtonia robusta.
Segundo o pesquisador Ricardo Calovi, em sua dissertação de Mestrado no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), defendida em 2009, desde o final do século XIX e até os anos 1930, havia os jerivás (Syagrus romanzoffiana), espécies nativas do Rio Grande do Sul, plantadas em vias como a avenida Farrapos, na zona Norte, e, décadas mais tarde, na Antônio de Carvalho, na zona Leste. Mas por uma opção paisagística, logo houve a opção pela Washingtonia robusta.
Os primeiros 288 exemplares foram plantados em 1935, inicialmente em quatro avenidas: Sepúlveda, Getúlio Vargas, General Flores da Cunha (hoje avenida Independência) e Osvaldo Aranha, de forma a celebrar a realização da Exposição do Centenário Farroupilha, ocorrida no Parque Farroupilha no mesmo ano. Entre 1939 e 1943, foram aproximadamente mais 630, em avenidas como Protásio Alves, João Pessoa, Piratini e nos Recantos Solar e Europeu do Parque Farroupilha.
Ainda conforme Calovi, as informações sobre estes plantios na Capital são limitadas, pois, em março de 1970, houve um incêndio na Divisão de Praças e Jardins da Prefeitura. Ao todo, somando os dois períodos, cerca de mil exemplares das palmeiras-da-Califórnia foram plantados. É citada também pelo estudo a importância da figura do engenheiro agrônomo Guilherme Gaudenzi, da mesma Divisão, que havia redigido textos sugerindo o uso de palmeiras em obras comemorativas.
As palmeiras-da-califórnia na avenida João Pessoa e na ponte sobre o Arroio Dilúvio constituem um caso curioso da arborização urbana de Porto Alegre
Estas árvores medem, em média, 30 metros de altura, sendo menores do que as chamadas palmeiras imperiais (Roystonea oleracea), com até 40 metros, e que, por sua vez, são mais frequentemente utilizadas em projetos de arborização. No entanto, conforme Calovi, as palmeiras-da-Califórnia, nativas dos Estados Unidos e México, são melhor adaptadas ao clima subtropical de Porto Alegre, podem viver por mais de 200 anos e, pela característica de suas raízes alargadas, têm maior resistência aos ventos fortes e intempéries naturais.
Plantio teve doses de “sacanagem”, diz especialista
Segundo o biólogo Flávio Barcelos Oliveira, ex-gerente de Arborização Pública e Urbana da Prefeitura de Porto Alegre e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Arborização Urbana (Sbau), há ao menos uma curiosidade envolvendo o plantio em uma das áreas mais icônicas: a ponte da João Pessoa com a Ipiranga, perto do Hospital Ernesto Dornelles e sobre o Arroio Dilúvio. Funcionários da Divisão, motivados por não serem permitidos fazerem uma pausa para o lanche da tarde, ao contrário do chefe do grupo, resolveram utilizar o tempo que seria livre para plantar as palmeiras na estrutura.
“Quando o engenheiro responsável, Rui Baddo Krug, chegou para ver o serviço, o chefe, seu subordinado, justificou que havia sido uma ‘sacanagem’ dos funcionários, e se ofereceu para removê-las, mas o Dr. Rui achou muito bonito e pediu para que elas fossem mantidas”, contou Flávio, que pretende escrever um livro de memórias. As palmeiras-da-Califórnia foram plantadas em Porto Alegre em diferentes arranjos.
Nas avenidas, por exemplo, lado a lado, com a função de “conectar os bairros ao Centro”, ou, no caso da Sepúlveda, na direção do portão do Cais do Porto, disse Flávio. Na Praça Comendador Souza Gomes, no bairro Tristeza, e no Recanto Europeu, estão dispostas em formato circular ou radial. As palmeiras mais antigas de Porto Alegre muito provavelmente estão plantadas na zona Norte, na Travessa São José, na área do do Shopping DC Navegantes, antiga Fábrica Renner, supõe o biólogo. Já Calovi acrescentou em sua dissertação não ter identificado a data de plantio destes exemplares.
No entanto, de qualquer maneira, elas podem não ser a Washingtonia robusta, mas sim a Washingtonia filifera, cuja maior diferença é no formato do tronco. Enquanto a primeira tem uma base mais larga do que o caule, a segunda possui uma espessura mais uniforme em toda sua extensão. Bem preservadas, elas compõem hoje uma parte importante da história da Capital. “Elas também são bastante resistente às enchentes e, sem dúvida, estas árvores não foram afetadas pelas inundações de 2024”, salientou Oliveira.