A Fundação Thiago de Moraes Gonzaga completa 30 anos nesta quarta-feira, consolidada como uma das principais referências na promoção da segurança no trânsito. Criada a partir de uma tragédia familiar, a entidade transformou o luto em mobilização social e, ao longo de três décadas, impactou milhares de pessoas com ações de conscientização e prevenção.
A origem da fundação remonta à madrugada de 20 de maio de 1995. Na data, o jovem Thiago, que havia completado 18 anos uma semana antes, morreu em decorrência de um acidente. Ao voltar de uma festa, o carro em que estava de carona chocou-se contra um contêiner colocado irregularmente em uma avenida de Porto Alegre.
Segundo a coordenadora institucional da entidade, Larissa Gonzaga, irmã de Thiago, aquele momento marcou profundamente a família. “Minha mãe só pensava em ‘vida urgente, vida urgente’. Não era possível que jovens na flor da idade perdessem a vida daquela maneira”, relembra.
Um ano depois, exatamente na mesma data, nascia o programa Vida Urgente, lançado no Bar Opinião, em Porto Alegre, dando início ao trabalho da fundação. Desde então, a atuação da entidade se expandiu e se adaptou às transformações da sociedade e da legislação.
Se no início as ações eram majoritariamente presenciais e focadas em abordagens diretas, hoje o trabalho envolve também projetos educativos, políticas públicas e acolhimento a famílias vítimas da violência no trânsito.
Entre as iniciativas, destacam-se ações em escolas, com teatro itinerante e experiências em realidade virtual, além de projetos como o Caminho Seguro, voltado à redução de velocidade em áreas escolares, e grupos de apoio a pais enlutados, que hoje também ocorrem de forma virtual, alcançando pessoas de diferentes regiões e até do exterior.
Ao longo desses 30 anos, mais de 20 mil voluntários já passaram pelo programa Vida Urgente. Para Larissa, embora não seja possível mensurar o impacto em números, os retornos recebidos dão a dimensão do alcance da iniciativa. “Não tem como colocar na ponta do lápis, porque não existe uma métrica para isso. Mas recebemos muitos retornos e dá para ter uma ideia de que muitas vidas foram preservadas com as ações do programa Vida Urgente”, afirma.
Entre os momentos marcantes da trajetória, ela destaca o projeto Madrugada Viva, realizado ainda nos anos 1990, quando voluntários percorriam bares e festas alertando jovens sobre os riscos de dirigir após consumir álcool, antes mesmo da criação do Código de Trânsito Brasileiro e da Lei Seca.
Monumentos recebem cintos de segurança para marcar a data
Para marcar as três décadas de atuação, a fundação promove, desde o último fim de semana, uma intervenção urbana que chamou a atenção de moradores de Porto Alegre. Estátuas e monumentos da Capital amanheceram com cintos de segurança, em uma ação simbólica que integra a campanha “O que é urgente pra você?”.
O Laçador, a cantora Elis Regina e o líder Zumbi dos Palmares foram alguns dos monumentos escolhidos. A iniciativa, idealizada pela própria equipe da fundação, buscou reforçar a importância do uso do cinto, especialmente no banco traseiro, condição em que Thiago estava no momento do acidente.
“Foi uma forma de chamar atenção para uma pauta que segue urgente. Passaram-se 30 anos e ainda tem gente que não usa cinto, principalmente atrás”, destaca Larissa.
A intervenção em andamento também já teve episódios curiosos. O cinto colocado na estátua de Elis Regina chegou a ser retirado poucas horas depois, mas acabou sendo devolvido posteriormente, após a identificação da ação como parte da campanha da fundação.
Apesar dos avanços na legislação e na conscientização, Larissa destaca que os desafios permanecem. A fundação segue atuando na incidência política, com participação em debates nacionais e defesa de projetos como a redução da velocidade máxima em vias urbanas.
Para a coordenadora, manter uma organização ativa por três décadas já é, por si só, um marco. “Só quem trabalha em uma ONG sabe o quanto é difícil sobreviver a 30 anos, lutando para conseguir recursos para manter os projetos em pé”, afirma.
No período de aniversário, além da intervenção na Capital, o momento também será celebrado de forma interna, com os participantes dos grupos de apoio mantidos pela instituição.