Qual a relação entre duas grandes cidades latino-americanas, que vivem desafios em seus centros históricos? Os assessores da Prefeitura de Quito, capital do Equador, Paul Ponces e Pablo Iturralde, também pesquisadores da área de urbanismo, estarão em Porto Alegre nesta quarta-feira, apresentando no 3º Encontro Internacional de Urbanismo em Áreas Centrais, realizado na Usina do Gasômetro, a realidade local.
De acordo com eles, que estão pela primeira vez na cidade, há na capital equatoriana um forte desequilíbrio entre os interesses do setor imobiliário e empresas privadas, “possuidores de muito poder”, em contraste com o poder público, que não consegue executar políticas habitacionais devido a esta “pressão”. "Ultimamente, quem tem governado Quito tem sido o setor privado e as imobiliárias privadas, e elas realmente têm decidido como a cidade se expande”, comentou Ponces.
Apesar das diferenças legislativas e comunitárias, Quito e Porto Alegre têm problemas estruturais bastante semelhantes, afirmaram os especialistas, relacionadas ao esvaziamento de suas áreas centrais. Além de a capital equatoriana estar situada a mais de 2.800 metros de altitude, ela também é longa e estreita, com cerca de 50 quilômetros de comprimento por oito quilômetros de largura, e 70% do trânsito que cruza a cidade de norte a sul é obrigado a passar pelo Centro Histórico, gerando um estresse territorial.
“O desafio para nós não é só transformar o espaço físico, mas os imaginários de progresso que a gente foi construindo ao longo do tempo”, disse Paul. Para eles, o modelo norte-americano de desenvolvimento urbano associa o progresso à ideia de morar nos subúrbios, depender do carro e viver afastado do centro, o que causa um esvaziamento geográfico, mas também cultural.
Ambos elogiaram as iniciativas de Porto Alegre, considerando a capital gaúcha como referência em urbanismo na América Latina. “Temos lá um problema sério com poluição visual e sonora, e aqui podemos ver que há este cuidado”, comentou Iturralde. Para abrandar o problema, reverter a fragmentação e o esvaziamento, Quito, que devido à falta de sintonia entre o público e o privado não possui o ordenamento legal de parcerias público-privadas (PPP) como no Brasil, está desenvolvendo o modelo de Distritos Urbanos Completos, ou microcentralidades.
São intervenções ao redor de estações de metrô e corredores de ônibus para criar áreas com uso misto, unindo moradia, comércio, serviços e conhecimento, e corredores de conexão seguros e acessíveis aos pedestres. “Parte do problema em Quito é que nós não temos equidade territorial. Há uma intervenção territorial, sim, mas necessitamos de uma transformação na função urbana”, comentou Ponces.