Ao completarem a maioridade, os adolescentes que vivem em acolhimento institucional precisam partir sozinhos para a vida autônoma. Preparados ou não, este é o caminho desenhado para quem foi afastado dos vínculos biológicos e que não foi adotado por uma família. Angustiada com essa triste realidade, a juíza Nathalia Alonso, sabendo que isso aconteceria em breve na Comarca de Panambi, onde jurisdiciona, pensou no que poderia fazer para auxiliar esses jovens na nova jornada. A magistrada procurou a administração pública e, juntos, idealizaram um projeto que ganhou o apoio de empresários, escolas e instituições locais. E o resultado foi uma união de esforços para auxiliar esses adolescentes em um recomeço de vida.
Recomeçar, aliás, é o nome dado ao programa, que hoje é lei municipal. "A ideia surgiu quando me deparei com o meu primeiro desacolhimento, em setembro de 2024. Era uma jovem que já estava encaminhada, com emprego e lugar para morar. Me bateu aquela preocupação: e o próximo", questionou a Juíza. A situação do próximo, no caso, era diferente; ele não tinha para onde ir. "Eles trabalham, mas não é um dinheiro que dê para se sustentar na vida adulta. Quando chegar o dia do aniversário deles, vão ter que ser desacolhidos. Começou a me dar uma inquietação muito grande de como poder ajudar", lembra ela.
A juíza começou a pesquisar sobre o assunto. Há localidades que dispõem de repúblicas para esses jovens, mas a Comarca não tem demanda suficiente para manter a estrutura. Ela procurou o Município. "A Prefeitura é muito atuante, conversei com eles. Temos esta demanda e temos que pensar o que fazer, em como ajudar", propôs. Assim, nasceu o programa Recomeçar, instituído pela Lei Municipal n° 5.754, de 21/05/25. O objetivo é oferecer uma oportunidade de desenvolvimento pessoal e profissional aos jovens que atingem a maioridade civil e deixam de ser atendidos pelo serviço de acolhimento institucional. O benefício tem dois anos de duração e promove a inclusão social e autonomia.
"O município de Panambi tem uma cultura de voluntariado muito forte. Isso foi confirmado na primeira experiência de desacolhimento que tivemos. Em apenas duas semanas, o apartamento destinado à moradia do jovem estava totalmente mobiliado", ressalta a Procuradora do Município, Susana Noschang. "E isso foi possível devido à colaboração da comunidade. Antes mesmo dele sair da casa de passagem, já contava com trabalho garantido em uma das empresas do nosso município. Toda essa rede de apoio é fundamental e imprescindível para o sucesso do programa, que tem como objetivo final promover a autonomia, a dignidade, a inclusão social do jovem desacolhido nessa fase de transição para a vida adulta. Para o Poder Executivo é uma alegria tornar viável essa iniciativa", acrescenta.
O drama do desacolhimento
A Associação de Voluntários-Casa de Passagem Panambi (AVOCAP) é a associação de voluntários responsável pela única casa de acolhimento do município. A presidente da entidade, Solange Molz, conhece o drama enfrentado pelos adolescentes que completam 18 anos de idade. "A importância deste projeto, para esses jovens, é oportunizar segurança para que possam recomeçar. Durante a estadia deles na casa, quando já estão em condições, vamos fazendo os encaminhamentos ao mercado de trabalho. Mas eles saem, aos 18 anos, e não têm como se manter. Então, o projeto traz segurança para que eles possam ter autonomia, para que possam fazer a vida deles com segurança e tranquilidade", avalia Solange. "Além disso, o apoio. Quando o jovem está na casa de acolhimento, ele tem incentivo e apoio. No momento em que ele sai, perde; não tem estrutura, família, pessoas que vão lhe dando orientação. Então, ele terá mais dois anos para contar com esse apoio da assistência social do município para ter trilhar um caminho de prosperidade", celebra a Presidente da AVOCAP.