A passagem do diplomata português Aristides de Sousa Mendes por Porto Alegre, entre 1924 e 1926, ganhou um novo capítulo nesta semana com a visita do presidente da Câmara Municipal de Carregal do Sal - equivalente ao cargo de prefeito - Paulo Catalino Ferraz. O chefe do município natal do diplomata quer transformar o legado de Sousa Mendes em um movimento internacional, para conectar cidades que fizeram parte de sua trajetória, ampliando a mensagem de altruísmo deixada pelo cônsul.
Ferraz, que participou de diversas agendas na Capital, também visitou no Correio do Povo e destacou que o objetivo não é apenas resgatar fatos históricos, mas construir uma rede que perpetue valores difundidos pelo diplomata. “É a história mais bonita que conheço. O que distingue a história não é apenas o número de pessoas salvas, mas o altruísmo de Sousa Mendes que, mesmo tendo vários filhos, sabendo que teria repercussão, desobedeceu às ordens de António Salazar (então ditador de Portugal)”, afirmou.
Cônsul em Bordeaux, na França, durante a Segunda Guerra Mundial, Sousa Mendes concedeu vistos a cerca de 30 mil refugiados que fugiam do nazismo - um terço deles judeus -, salvando milhares de vidas e gerando mais de 750 mil descendentes. Por essa ousadia humanitária, foi punido pelo regime português. Em Israel, recebeu o título de Justo entre as Nações e dá nome a uma praça em Jerusalém.
A força desse legado inspirou a trajetória do próprio Ferraz. Médico de formação, ele conta que decidiu entrar na política após ver o museu de Carregal do Sal, dedicado ao cônsul, se deteriorar. “Sentia a necessidade de ajudar de alguma forma, por isso entrei na política, para que eu mesmo pudesse agir. Mas a história não termina com a restauração do museu, pois a riqueza material está lá, mas a história vai muito além”, contou.
Depois de ser eleito vereador e se tornar presidente da câmara municipal, agora Ferraz lidera o esforço para internacionalizar a memória de Sousa Mendes. Segundo ele, essa mobilização exige mais que ações institucionais. “Nesse movimento, é importante que todos se envolvam, não só a parte política, mas toda a sociedade. Cada pessoa que conhece essa história precisa aprender com isso”, comentou.
Em suas viagens, relata encontrar com frequência descendentes e sobreviventes que foram salvos graças aos vistos assinados pelo diplomata. Essa convivência é o que reforça a determinação do prefeito em estabelecer uma rede de cidades comprometidas em manter viva sua mensagem. “Um dos vetores do nosso trabalho é estabelecer um processo de internacionalização. Criar em cada cidade que ele passou o movimento de contar a história de Sousa Mendes e passar a mensagem de altruísmo deixada por ele”, explicou.
A Capital gaúcha está entre as principais cidades dessa futura cadeia internacional. Na sua visita desta semana, participou de reuniões políticas, de uma homenagem na Câmara de Vereadores e da exibição especial do filme português “O Cônsul de Bordéus”, que narra a trajetória do diplomata durante a Segunda Guerra Mundial.
Nos próximos meses, estão previstas outras homenagens em Porto Alegre, para fortalecer a mensagem do diplomata. Ferraz projeta, inclusive, trazer uma exposição sobre Sousa Mendes, que também poderá ser levada às cidades que farão parte do movimento de internacionalização proposto pelo prefeito.
Correio do Povo acompanhou trajetória de Sousa Mendes
O Correio do Povo acompanhou ativamente a trajetória do diplomata na Capital, e publicou em 16 de junho de 2009 uma reportagem especial sobre sua história, com depoimentos de descendentes e personalidades afins ao cônsul. Desde 1924 até fevereiro de 1926, em seu retorno a Portugal, Mendes teve suas conferências, principalmente realizadas na sede da Associação Comercial dos Varejistas de Porto Alegre, registradas pelo jornal, com a presença de notáveis da sociedade gaúcha da época, como o major Alberto Bins. “’Devotado amigo da República’, como se dizia, simpatia e admiração eram sentimentos comumente associados à pessoa do cônsul”, escreveu o Correio do Povo em 2009.