A plataforma POA Clima, da Prefeitura de Porto Alegre, foi lançada em um evento especial durante o South Summit Brazil, mas, por estar em versão beta, ainda não tem todas as funcionalidades publicadas, de acordo com a administração. Ela traz, em tese, a previsão do tempo para o dia atual e os quatro seguintes, além de eventuais avisos e alertas emitidos pela Defesa Civil Municipal, a partir das orientações de demais órgãos de monitoramento, como as defesas civis Estadual e Nacional.
Conforme abordado pelo Correio do Povo em reportagem recente, a população em geral demonstra certo descrédito pelos avisos, o que motivou o órgão estadual a planejar modificações na forma como eles serão expostos à população. O desafio é, portanto, fazer com que esta realidade não aconteça em Porto Alegre.
“Temos muitas informações interessantes, obviamente algumas mais para algum profissional da área, ou para quem está fazendo planejamento urbano e de políticas públicas, mas, de maneira geral, a população tem interesse em saber destas informações. A procura por dados de informação quanto ao clima tem crescido. Acho que um jeito de facilitar é o que estamos fazendo agora”, disse o arquiteto da Coordenação de Gerenciamento de Projetos de Ação e Adaptação Climática do Escritório de Reconstrução da Prefeitura, Alexandre Dal Pizzol, que participou do projeto.
O vencedor da licitação para a construção da página, porém não apenas ela, mas outros serviços relacionados à operação da Sala de Situação municipal, foi o consórcio Catavento e Arvut Monitoramentos Hidrometeorológicos, cujo contrato, assinado no final de janeiro, e com prazo de vigência de um ano, é de R$ 1,3 milhão. Observando o site, é possível ver a divisão da Capital em 17 regiões, baseadas nas subprefeituras, e marcações do tipo de risco que há naquele local. Ao lado, a previsão climática, com condição do tempo, volume de chuva prevista no sistema nowcasting, ou clima a curtíssimo prazo, temperaturas mínima e máxima, umidade relativa do ar e velocidade do vento.
Na prática, ainda não foi possível ver a ferramenta de avisos em ação, pois Porto Alegre não registrou clima adverso nos últimos dias. A plataforma única concentradora de informações é defendida por Dal Pizzol. “Se o cidadão tiver de acessar quatro ou cinco plataformas, cada uma para acessar uma informação, não vai ter uma boa efetividade. Evidentemente, já há a previsão do tempo no celular, porém queremos trazer uma informação um pouco mais qualificada para o território de Porto Alegre”, diz o servidor, informando ainda que, “nos próximos meses”, a intenção é juntar tudo em uma mesma plataforma.
Ela, por ora, tem clara inspiração, inclusive no seu layout, no site da Sala de Situação do governo do Estado, que também traz imagens de satélite e outras informações, porém que deverá ser substituído por outra página. A própria Defesa Civil Estadual também participou da última edição do South Summit, e nela, informou preparar a implantação e operação de 130 novas estações de monitoramento hidrometeorológico de missão crítica também de nowcasting, além de outras medidas dentro do Plano Rio Grande.
Na semana passada, o Ministério da Agricultura e o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) anunciaram ainda no RS 98 estações meteorológicas atualizadas para “monitorar e prevenir eventos extremos”, sendo que o Estado será o primeiro a ter a totalidade delas com este perfil. De qualquer forma, outras capitais brasileiras têm projetos mais avançados e robustos, como Florianópolis, cuja previsão do tempo oficial é fornecida pelo Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina (Epagri/Ciram).
O órgão do governo estadual, além da observação meteorológica, também faz análises específicas voltadas ao setor agrícola local e inclusive monitoramento da costa catarinense. Já Curitiba, outro exemplo na região Sul, não tem serviço próprio, e o clima é monitorado em parte pelo Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), vinculado ao governo paranaense. Mais algumas capitais de seus Estados com serviços próprios de alertas incluem São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Salvador e Belo Horizonte.
Essa não é a regra, no entanto. Um levantamento realizado pela Confederação Nacional de Municípios (CNM) em 2024 com 3.560 cidades mostrou que 57,2% delas não possuíam nenhum sistema de alerta ou alarme para desastres relacionados ao clima, como temporais, vendavais, movimentos de massa e inundações. Nas palavras da entidade, isto “evidencia uma lacuna significativa na preparação local para eventos extremos, que vêm se tornando cada vez mais frequentes e intensos”. No Rio Grande do Sul, Estado devastado pelas enchentes no ano passado, o percentual foi ainda maior, de 58,8%.
Na média nacional, 43,7% dos municípios que informaram possuir áreas de riscos de desastres não possuíam pessoal, cargo ou responsável pelo monitoramento diário em tempo real destes locais. “A grande maioria dos municípios não está preparada para eventos extremos”, resume o estudo da CNM, justificando isto pela falta de recursos financeiros nas cidades. “Com isso a emissão de avisos e alertas de ocorrência de eventos extremos climáticos fica comprometida, potencializando a vulnerabilidade da população local”.
Em 2024, o Brasil registrou 251 mortes pelas chuvas intensas, sendo o quarto ano mais letal em três décadas, e 70% dos óbitos foram no Rio Grande do Sul, de acordo com a agência de notícias Deutsche Welle (DW), que compilou os dados junto ao Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ainda no ano passado, o órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) relatou ter emitido 3.620 alertas de desastres, o maior número desde o início destas atividades, em 2011, e 1.690 ocorrências de eventos relacionados a desastres.