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Enchente no RS reforçou cenário de injustiça ambiental, afirma pesquisadora da Ufrgs

Segundo Lorena Fleury, os mais atingidos fazem parte dos grupos sociais mais vulneráveis na sociedade

Encerramento do seminário Crise Climática e Direitos dos Atingidos: os desafios da reconstrução com justiça socioambiental e participação popular
Encerramento do seminário Crise Climática e Direitos dos Atingidos: os desafios da reconstrução com justiça socioambiental e participação popular Foto : Pedro Piegas

O desastre climático no Rio Grande do Sul, que já completa um ano, atingiu desproporcionalmente grupos vulneráveis mais atravessados na questão de raça, classe e gênero. Quem afirma é Lorena Fleury, professora do Departamento de Sociologia do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS), que pesquisa mudanças climáticas há quase 10 anos, além de conflitos ambientais, projetos de desenvolvimento e estudos sociais.

A fala foi debatida no último dia do seminário Crise Climática e Direitos dos Atingidos, organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens e a Faculdade de Direito da Ufrgs na mesa “Desafios para enfrentar a crise climática: o que fazer?”. O evento trata dos direitos humanos das populações atingidas pelo desastre e os desafios da reconstrução com justiça socioambiental e participação popular.

Lorena cita um artigo científico que foi publicado pelo consórcio de climatologistas World Weather Attribution, com cientistas, meteorologistas, hidrólogos, diferentes áreas, que afirmaram que o evento climático no Estado foi ocasionado e pode ser atribuído às mudanças climáticas, e também ao El Niño e às falhas da gestão pública, principalmente em Porto Alegre.

"Sim, são mudanças climáticas, mas isso não quer dizer que seja natural. Geralmente quando a gente fala que é natural, a gente tá querendo dizer que está dado, é assim porque é, e isso desresponsabiliza, e a gente não pode entrar numa cadeia de desresponsabilização com esses desastres”, diz.

A pesquisadora reforça que um desastre não é natural quando há omissão da gestão pública. “A gente teve um conjunto de falhas de comunicação, a gente teve falhas na gestão no sentido de avisar quando as pessoas deveriam sair, quando não deveriam sair, o que deveriam fazer, como acompanhar os alertas. Nada disse que foi gerido de forma adequada”, afirmou, complementando que essa situação é igualmente produtiva dos desastres.

Os mais prejudicados

Ponto-chave do seminário, Lorena salientou que os mais atingidos pelo desastre no Rio Grande do Sul fazem parte dos grupos sociais mais vulneráveis na sociedade. Ela mostrou um mapa elaborado pelo pelo Observatório das Metrópoles, que registra que as áreas que mais sofreram com as enchentes apresentam uma concentração expressiva de população negra, geralmente acima da média dos municípios, onde também custaram a ter a água retirada. "Os bairros mais atingidos tem desproporcionalmente pessoas negras habitando. A gente consegue identificar um viés de raça muito evidente na forma como as pessoas são atingidas por esse desastre", diz.

O racismo ambiental é a condição das desigualdades serem agravadas em um contexto de desastres climáticos, e os modos como são vivenciados esses eventos são atravessados pelas injustiças ambientais.

Ela ainda afirmou que mulheres foram desproporcionalmente afetadas também, já que são “sobrecarregadas na gestão da da vida cotidiana, e quando essa vida se desestabiliza elas são atingidas e também precisam se reorganizar”, diz Lorena.

Entre ações e práticas necessárias para enfrentar o cenário de emergência climática, ela defende a transversalidade efetiva de políticas climáticas, mecanismos de governança descentralizados, para reforçar a concentração de recursos, e enfrentamento a partir do local, para que se tenha uma visão de futuro desejável em termos de relação sociedade e natureza.

A reitora da Ufrgs, Marcia Barbosa, que marcou presença no evento, afirmou que a universidade busca atuar em todas as escalas com relações às mudanças climáticas, principalmente para as pessoas atingidas e que ainda estão desabrigadas ou em condições de reviver uma catástrofe caso se repita, além de cobrar autoridades.

"A Ufrgs, através da faculdade de Direito, está de olho em onde está sendo empregado o dinheiro, se está sendo eficientemente, o que não está sendo, na verdade, feita essa reconstrução, e na segurança de que as pessoas vão ter que ser protegidas. Se o Estado não está fazendo isso, a universidade vai ajudar denunciando e trazendo os elementos, trazendo as evidências, que é o que a universidade sabe fazer”, diz.

Um relatório, que já está disponível on-line, sobre os impactos das inundações de 2024 no Rio Grande do Sul, foi elaborado pela relatoria especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), a partir de uma visita de trabalho liderada pelo relator especial Javier Palummo, que também participou do seminário. No documento, é evidenciado o cenário de racismo ambiental nas comunidades historicamente marginalizadas, como afrodescendentes, quilombolas e indígenas, foram desproporcionalmente afetadas, revelando a interseção entre desastres socioambientais e injustiças raciais.

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