Fortalecendo a venda de produtos orgânicos diretamente do produtor do campo ao consumidor, a Feira Ecológica do Bom Fim (FEBF) comemora 34 anos de atuação no maior espaço a céu aberto de comercialização da América Latina, semeando encontro de gerações e promovendo ações socioambientais em Porto Alegre. Para comemorar o aniversário, um evento lotou a avenida José Bonifácio, junto ao Parque da Redenção, na manhã deste sábado, dia 16. A festa contou com shows, como do músico Frank Jorge, de Renato Müller, educador no projeto Fábrica de Gaiteiros; e InDUO, formado por Luizinho Santos (sax) & Bethy Krieger (piano), combinando música instrumental e MPB com a linguagem jazzística. Ainda um Cortejo das Infâncias, caminhada com filhos de agricultores e clientes do espaço, abrindo caminho para a cerimônia principal. Não faltou o “parabéns a você” com bolo.
Dos 34 anos de feira, o agricultor ecologista José Odair Justin já participa 32, junto com sua esposa, Marlene, seus filhos e netos. Morador de Itati, no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, destaca-se pela produção de banana, hortigranjeiros e cana de açúcar. Seu conhecimento da cultura orgânica está passando por gerações – como o caso da sua filha Mariana, de 26 anos. “Os netos estão nos acompanhando, e estamos fazendo a continuidade do trabalho que começamos. Não me arrependi, porque minha família tem saúde e estou levando vida e saúde para as pessoas que estão consumindo nossos alimentos. Me sinto gratificante e feliz por isso”, relata o agricultor.
O que se celebra nesses 34 anos, mas também anualmente, são as relações fortalecidas na feira, afirma Shiva Ruiz Tagle Braga, membro da comissão do evento e feirante desde pequeno. “A feira não se fortalece em cima da comercialização, é uma das etapas que acontecem aqui. O que é forte são as relações, a troca, o vínculo, uma confiança muito estabelecida entre quem produz e quem consome”, diz.
Para Shiva, a feira é um espaço de resistência para dar visibilidade a políticas públicas, que, nas suas palavras, não têm o olhar para a demanda de produzir sem veneno e de preservação das águas e do solo. “Esse ano em especial, a gente vem com um tema muito forte de festejar as gerações que nascem aqui, que vem para para feira dentro das barrigas”, diz.
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Leonardo Castro, também membro da comissão, afirma que a Feira é um local de encontros e da prática da agroecologia.” Tem também um elemento muito forte, que é a justiça social. Aqui se reúne bons ativistas, intelectuais, pessoas de movimentos sociais, com essa dinâmica de diálogo. É um local também para pensar e praticar uma agroecologia profunda”.
Cássio Trogildo, secretário municipal de Governança Cidadã e Desenvolvimento Rural, lembra que Porto Alegre tem oito feiras orgânicas, e defende a presença de mais produtores locais. “Porto Alegre tem as fibras orgânicas mais antigas do país. Hoje nós temos oito feiras orgânicas. A maioria dos produtores são de fora de Porto Alegre, mas nós já temos também uma uma produção orgânica bastante robusta. Temos um desafio de que até 2032, a nossa produção em Porto Alegre seja toda orgânica na nossa zona rural”, afirma, complementando que a pasta está preparando editais para reforço e recomposição das feiras da cidade.
Comer não é um ato isolado, é uma ação política e social, defendeu a nutricionista e bióloga Maria Rita Macedo Cuervo, madrinha do evento. “Toda vez que a gente escolhe aquilo que vai comer, isso tem reflexos sociais, ambientais, econômicos. É muito sério pensar naquilo que a gente come e no que a gente busca comer”, disse.
34 Anos da Feira Ecológica do Bom Fim
A feira ecológica
A Feira Ecológica do Bom Fim surgiu em Porto Alegre em agosto de 1991, marcando a segunda iniciativa do gênero no país com foco na venda de produtos orgânicos diretamente do produtor ao consumidor.
Dois anos após a instalação da Feira dos Agricultores Ecologistas (FAE), idealizada pela Cooperativa Ecológica Coolmeia, a crescente demanda de novos agricultores e agroindústrias em busca de um espaço para comercializar alimentos sem o uso de agrotóxicos e adubos químicos, bem como o aumento do número de consumidores conscientes, resultou na criação da também chamada segunda quadra, espaço independente e viabilizado através de tratativas com o Executivo municipal. Juntas, as duas quadras são o maior espaço de comercialização de orgânicos da América Latina.
O trecho, localizado na Avenida José Bonifácio, entre as ruas Vieira de Castro e Santa Teresinha, germinou em número de expositores e diversidade, contando atualmente com mais de 50 famílias oriundas de Porto Alegre, região Metropolitana, Serra gaúcha, Litoral norte, entre outras localidades do RS. Elas ocupam 96 boxes/bancas, levando diretamente para os consumidores o resultado de sua produção todos os sábados, inclusive feriados, das 7h às 13h. São aproximadamente 300 pessoas atuando na venda direta.
Desde maio de 2019, juntamente com a Feira de Agricultores Ecologistas (FAE), a FEBF não distribui sacolas plásticas. A iniciativa já evitou que mais de 10 milhões de embalagens fossem distribuídas. Em junho de 2019, as feiras ecológicas da Redenção – FEBF e FAE – foram reconhecidas pela Lei Estadual nº 15.296 como de relevante interesse cultural do Estado do Rio Grande do Sul.