A cidade de Porto Alegre é repleta de monumentos históricos em todas as partes, especialmente na área central, que contam a trajetória de importantes personalidades que passaram pela cidade ou têm relação direta com ela. Mas o estado de muitos destes bustos e construções, que deveria simbolizar um caráter de orgulho, homenageando tais figuras, na realidade está próximo do deplorável.
Há marcas visíveis do vandalismo e descuido, representado pelo furto de parte ou a totalidade destas estruturas, e, desta maneira, falta de zelo pela própria História. Localizadas em importantes e bastante visitados logradouros da Capital, peças icônicas a exemplo da carta-poema em bronze do poeta Mário Quintana, dos bustos de Francisco Leonardo Truda, do Barão de Santo Ângelo, todos na Alfândega, sofrem os efeitos do descaso.
O mesmo se pode dizer dos monumentos de homenagens a personalidades como Jaime Pereira da Costa, Licínio Cardoso e Annes Dias, todos na Redenção, de frente para a avenida João Pessoa, e o imponente Monumento a Bento Gonçalves, símbolo da mesma via. A Secretaria Municipal da Cultura (SMC) contabiliza 21 peças vandalizadas guardadas em depósitos, mas o número daquelas que sofrem nas mãos dos vândalos é certamente maior, apontam especialistas.
"É uma situação existente há muitos anos, e a maior parte das notícias há muito tempo fala sobre o vandalismo, roubo, falta de manutenção e conservação, mesmo quando há recentes ações", disse o historiador José Francisco Alves, autor da obra A Escultura Pública de Porto Alegre: História, Contexto e Significado, e um dos maiores autoridades na arte escultural da Capital. Ele apontou ainda recentes investimentos da iniciativa privada, como o Sindicato das Indústrias da Construção Civil do Estado do Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), que captou recursos para promover a restauração do monumento que homenageia Bento Gonçalves.
Degradações sem novidades
Idealizada e construída pelo escultor Antônio Caringi para celebrar o centenário da Revolução Farroupilha no Rio Grande do Sul, em 1935, a enorme estátua tem sido alvo de degradação desde ao menos uma década, comentou Alves. Na base dele, o excesso de pichações dificulta a tarefa de localizar o nome do general, e o monumento em si, apesar de sua importância histórica, pode, inclusive, passar despercebido aos olhos mais desatentos em meio ao trânsito da avenida.
No caso desta estátua, a degradação não é novidade. Em 2017, quase uma tonelada de bronze e baixos-relevos produzidos na Alemanha foram furtados, e a cantaria de granito vandalizada. Dois anos mais tarde, a Prefeitura de Porto Alegre buscou cerca de R$ 500 mil ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), em um fundo para restauração da estátua. No entanto, o projeto não foi selecionado.
Em determinadas ocasiões, o busto em si é levado, como nos casos de Truda; Francisco Caldas Júnior, fundador do Correio do Povo, e ao menos duas das esculturas do Parque Farroupilha. Em outras, como de Licinio Cardoso e de Quintana, esta inclusive recentemente, segundo Alves, as placas sumiram. Somente o Parque da Redenção possui 36 monumentos, marcos e placas, dos quais 12 foram revitalizados em 2014 e outros 20 em 2016, dentro do Projeto Construção Cultural, também do Sinduscon-RS, segundo levantamento da entidade.
Bustos e monumentos são vandalizados em Porto Alegre
Peças furtadas em 2025 ainda não foram encontradas
Procurada, a SMC salientou que mantém os 21 bustos e monumentos, que sofreram vandalismo ou depredação em praças e parques públicos da cidade, "em depósitos apropriados da Divisão de Patrimônio e Memória", e que as peças, "a maioria em bronze, granito e mármore carrara, estão sendo reparadas pelas equipes especializadas da Prefeitura". A Secretaria também reconheceu que "os bustos e esculturas desaparecidos em 2025 no Centro Histórico ainda não foram encontrados".
Três deles foram furtados na Praça da Alfândega: a escultura em homenagem a Caldas Júnior, produzida pelo escultor italiano Luis Sanguin; o monumento em homenagem ao coronel do Exército Antônio Carlos Lopes, feita pelo artista Walter Drechsler; além do busto do jornalista Leonardo Truda, produzido pelo escultor italiano Leone Domenico Lonardi.
Da Praça da Matriz, o busto ainda não localizado foi da homenagem ao professor André Puente, também construída por Caringi. "A Secretaria Municipal da Cultura atua em parceria com a Secretaria Municipal da Segurança no sentido de proteção a bustos, estátuas e monumentos no espaço urbano. A vigilância e monitoramento são rotina e integram a preservação do patrimônio.
A Prefeitura reforça que denúncias de depredação e vandalismo devem ser feitas pelo telefone 153, da Guarda Civil Metropolitana, com funcionamento 24 horas por dia", salientou a SMC, em nota. No final de 2025, o comandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC), coronel Fábio Schmitt, disse à reportagem que provavelmente a escultura furtada já havia sido derretida na ocasião.
Ele apontou que a venda clandestina do material atraía criminosos devido ao valor do bronze, utilizado na produção de itens de consumo como anéis, torneiras, canos, entre outros. Já a Secretaria Municipal de Segurança (SMSeg) apontou que câmeras de monitoramento haviam registrado o furto do busto de Caldas Júnior, realizado em outubro, por dois homens, porém nenhum deles havia sido identificado.
Outro vandalismo recente em esculturas da Capital ocorreu na primeira semana de janeiro, quando o Monumento da Resiliência, inaugurado em outubro de 2025 na Praça Maurício Cardoso, no bairro Moinhos de Vento, foi alvo de um ataque com tinta vermelha. Na ocasião, a Federação Israelita do Rio Grande do Sul (FIRS) repudiou o ocorrido, e informou que um boletim de ocorrência junto à Polícia Civil foi aberto. Segundo a entidade, o monumento simboliza o culto à memória, ao diálogo e à promoção da paz.