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Marco na Justiça gaúcha: jurada surda participa de julgamento pela primeira vez

Atuação inédita ocorreu na 4ª Vara do Júri de Porto Alegre, especializada em feminicídios, com apoio de intérpretes de Libras

Participação inédita de jurada surda aconteceu no júri desta terça-feira, na 4ª Vara do Júri da Capital, e contou com intérpretes de Libras (E)
Participação inédita de jurada surda aconteceu no júri desta terça-feira, na 4ª Vara do Júri da Capital, e contou com intérpretes de Libras (E) Foto : Juliano Verardi/TJRS/CP

O julgamento desta terça-feira,12, na 4ª Vara do Júri de Porto Alegre, marcou um momento inédito na história da Justiça gaúcha: pela primeira vez, uma pessoa surda integrou o Conselho de Sentença em um júri popular no Rio Grande do Sul.

A jurada, professora de 45 anos, recebeu a convocação em casa e decidiu aceitar de imediato. Para ela, a participação é um direito que deve ser garantido a todos. “A pessoa surda tem a possibilidade de estar em qualquer ambiente, assim como qualquer outra pessoa”, afirmou.

No início da sessão, o nervosismo deu lugar à confiança graças ao trabalho de três intérpretes de Libras — Luciana Côrte Real, Maria Aparecida da Silva e Ariadne Panziera — que asseguraram a compreensão plena de todas as etapas do julgamento. “É uma grande responsabilidade, não se trata apenas de julgar, mas de entender o contexto, manter a neutralidade e ter discernimento. Qualquer pessoa da sociedade pode participar e tem esse direito”, destacou.

A preparação para a inclusão envolveu a juíza Cristiane Busatto Zardo e a equipe da 4ª Vara do Júri, com apoio da Corregedoria-Geral da Justiça, do Núcleo de Inclusão, Acessibilidade e Diversidade (NIAD) e da Comissão Permanente de Acessibilidade e Inclusão (CPAI). A magistrada elogiou o desempenho da jurada, destacando a responsabilidade e tranquilidade com que exerceu a função.

Segundo o juiz-corregedor Bruno Massing de Oliveira, coordenador da CPAI, a convocação chegou à comissão antes do início dos trabalhos de agosto. “Ela foi sorteada no júri de hoje, não houve recusa das partes, e compôs o Conselho. O trabalho da magistrada e de sua equipe garantiu que a jurada participasse efetivamente, com intérpretes de Libras. Foi um ato de grande inclusão”, disse.

A chefe do NIAD, Ane Py Machado, ressaltou o simbolismo da participação. Para ela, o momento representa um marco na efetivação da cidadania e da igualdade previstas na Constituição e na Lei Brasileira de Inclusão. “Além de garantir acessibilidade e representatividade, essa medida rompe barreiras comunicacionais e combate preconceitos. Mostra que a diversidade enriquece as decisões coletivas e fortalece a legitimidade do Tribunal do Júri como expressão da pluralidade social”, afirmou.

O caso estabelece um precedente importante para a participação de pessoas com deficiência auditiva no sistema de justiça e reforça o compromisso do Judiciário gaúcho com a inclusão.

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O caso julgado foi uma tentativa de feminicídio qualificado. Segundo a acusação, em 2020, o réu — julgado à revelia por estar foragido — teria ateado fogo na ex-companheira. A vítima sobreviveu ao ataque, mas já faleceu. Ao final, ele foi condenado a oito anos de prisão em regime inicial fechado.

Durante a sessão, a jurada recebeu o material do processo impresso e contou com interpretação simultânea em Libras. As intérpretes se revezaram para garantir o acesso pleno às informações. Luciana Côrte Real, que já é uma intérprete experiente, considerou o momento especial. "É uma experiência nova e muito importante, que reforça o papel da inclusão no Judiciário". Ela contou que a jurada "achou muito interessante e ficou surpresa com todo o cuidado e sensibilidade da Justiça para garantir sua plena participação".

A intérprete Maria Aparecida ficou emocionada: "não tenho como descrever. Foi um desafio diferente para mim, mas que achei maravilhoso. Um júri com inclusão, isso é muito importante para nós". Ariadne, que também é Policial Penal, completou: "Estou muito honrada de estar presenciando mais uma inclusão dentro de um espaço próprio da comunidade".

A Magistrada e as intérpretes de Libras Maria Aparecida (E), Ariadne e Luciana, que atuaram no júri | Foto: Juliano Verardi/TJRS/CP