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Navio russo parte do Porto do Rio Grande para expedição na Antártica

O objetivo da viagem que começou nesta sexta-feira com mais de 60 pesquisadores de vários países é estudar os efeitos das mudanças climáticas

O navio russo Akademik Tryoshnikov irá levar cientistas para passar perto da costa da Antártica para estudos
O navio russo Akademik Tryoshnikov irá levar cientistas para passar perto da costa da Antártica para estudos Foto : Angélica Silveira / Especial CP

Partiu nesta sexta-feira do Porto do Rio Grande, o navio quebra gelo russo Akademik Tryoshnikov. A expedição conta com 57 pesquisadores, sendo a grande maioria de brasileiros, mas também de outros países como Índia e China . A viagem tem aproximadamente 21 mil quilômetros. O embarque começou na manhã desta sexta-feira. Alguns dos pesquisadores levaram familiares para as despedidas.

A expedição que irá durar pouco mais de dois meses é liderada pelo pesquisador Jefferson Cardia Simões, do Centro Polar Climático (CPC), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). A Expedição Internacional de Circum- Navegação Costeira Antártica, prevê chegar o mais perto possível do continente. Ele explica que já houveram outras expedições ao redor, mas não tão perto. Entre os objetivos científicos estão estudar os efeitos que a Antártica tem no clima. " Ao longo da rota serão feitos vários estudos oceanográficos tanto químico, biológico, geológico, por exemplo, medindo as características do local. As duas regiões polares mostram os indícios mais rápidos das mudanças climáticas", justifica.

O professor destaca que está sendo observado um rápido aumento da temperatura atmosférica, há o aquecimento global, que na Antártica é amplificado. "Estamos vendo diminuição da salinidade, pois mais água de derretimento de geleira e o pior de todos o aumento da acidez do Oceano, porque o dióxido de carbono( CO2), além de antecipar o efeito estufa, ele também é absorvido pelo oceano", relata.

A expedição pretende coletar o máximo de dados para verificar como a biodiversidade está respondendo a essas rápidas mudanças no clima e quais os cenários para o futuro. "Temos um problema sério no Brasil que muitas vezes é olhar muito para o norte e não entender que Porto Alegre é mais perto da Antártica que Roraima, por exemplo, que a dimensão da Antártica é enorme, que o clima de lá afeta nosso dia a dia", destaca.

Ele confirma que as enchentes que ocorreram no mês de maio estavam ligadas à questão da Antártica. "Tivemos bloqueios pela onda enorme de calor ao norte do Brasil e os 700 mm de água ficaram em nossas cabeças uma semana, o que mostra o sistema conectado. A Amazônia não é mais importante que a Antártica e vice-versa", observa.

Ao longo da travessia será feita parada em diferentes estações oceanográficas que medirão características físicas, temperaturas e coleta amostra de água em diferentes profundidades, até 600m, 800 m.

Outro objetivo da viagem é conferir a estabilidade do manto de gelo da Antártica. "Por enquanto ele não é o maior contribuidor para o aumento no nível do mar. Os cenários do painel governamental da ONU sobre mudanças do clima indicam um aumento no nível do mar em até 1,2 m nos próximos 80 anos. Só que temos uma hipótese que parte desse manto de gelo são estáveis dinamicamente. Estamos em massas de gelo que flutuam e ali que se rompem icebergs", confirma.

A expedição tem um custo de 6 milhões de Euros, que está sendo custeado por uma fundação suíça a Fondation Albedo la Cryosphere, que coleta recursos de empresas, ONgs, governamentais também para pesquisa.

O navio é preparado para dois meses de viagem. Segundo o diretor do Instituto de Pesquisa Ártica e Antártica Russa, localizado em São Petersburgo, que é proprietário do navio, Aleksander Marakov, essa missão não era a ideia inicial, mas passou a se tornar uma missão dos países do Brics. O navio tem comida a bordo, cozinheiros russos, mas duas refeições por semana devem ser com comida brasileira. O professor da Ufrgs destaca que haverá paradas e ao redor de oito estações antárticas, de países como China, Rússia e Índia, para coletar amostras, apoiar e ser apoiada por estações.

Para o professor, o diferencial da pesquisa é o avanço na estabilidade da Antártica e no provimento de dados para modelo do clima meteorológico, "A questão da mudança do clima é uma ação de diplomacia da ciência. O conceito de diplomacia da ciência é fazer com cooperação internacional para investigar, tópicos, temas de interesse mútuo e é claro de recursos", observa

A pesquisa vai focar em 16 geleiras que têm comportamento similar a aquelas chamadas de juízo final, que são exatamente as sujeitas à instabilidade e haverá levantamentos detalhados que estão em terra.

A reitora da Ufrgs, Márcia Barbosa contou que a interação entre a pesquisa da universidade e a Rússia começou há mais de ano. "A ciência é mais importante por meio dela se consegue resolver os problemas do planeta. Acho que é um começo de uma parceria neste tema. Isto é importante neste momento de mudanças climáticas que vivemos no Estado", destaca.

Após uma visitação no navio, ocorreu uma solenidade com a presença também do reitor da Furg Danilo Giroldo, do Comandante Do 5° Distrito Naval vice-almirante Augusto José Da Silva Fonseca Jr, do Consul Geral Da Índia no Brasil Hansraj Singh Verma, do Cônsul Honorário da Rússia no Rio Grande do Sul Jacinto Zabolotsky , e do Diretor da Faurgs Odir Dellagostin, onde foi inaugurada oficialmente a expedição.