Cidades

Prefeitura de Porto Alegre prepara novo plano cicloviário que poderá reduzir meta de vias para ciclistas

Desafio da Administração é rebater tese de cidade “carrocêntrica”, otimizando construção e manutenção de locais para trânsito de bikes

Ciclovias e desafios dos ciclistas de Porto Alegre
Ciclovias e desafios dos ciclistas de Porto Alegre Foto : Pedro Piegas

A Prefeitura de Porto Alegre trabalha em uma grande revisão do chamado Plano Diretor Cicloviário Integrado (PDCI) de 2009, com a contratação de uma nova consultoria, possivelmente no primeiro semestre de 2026 e um prazo estimado de seis a nove meses, segundo o coordenador de Mobilidade Ativa da Secretaria Municipal de Mobilidade Urbana (SMMU), João Paulo Cardoso Joaquim, acrescentando que a minuta do termo de referência já foi elaborada e tramitada internamente.

Conforme ele, a tendência é que o novo plano traga uma redução na meta de 495 quilômetros de infraestrutura prometida para o trânsito de bicicletas na cidade até 2022, sendo que, neste momento, Porto Alegre conta com 95,9 quilômetros entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas, ou seja, menos de 20% do projeto original. Após contratada, a nova consultoria deverá utilizar dados existentes, pois as vias já estão, mapeadas, em tese, além de dados geoespaciais do sistema BikePOA.

“Talvez a gente não precise de 500 quilômetros para tornar Porto Alegre uma cidade reconhecida pelo transporte cicloviário. Mas pode ser que a consultoria diga que precisa manter a meta. Tenho a sensação de que vai reduzir um pouco, porque já identificamos o que é realmente muito importante para a cidade”, comentou Joaquim. Ele também afirma que a comunidade estará mais no centro do processo de discussões de eventuais novas rotas, e a intenção é não depender tanto de contrapartidas da iniciativa privada.

“Vamos colocar a implantação de ciclovias como uma meta de cidade e reservar o espaço no orçamento para isso”. Outro desafio é rebater a tese de uma cidade “carrocêntrica”, onde as bicicletas são historicamente preteridas em favor dos carros. Na avenida Sertório, por exemplo, houve resistência da comunidade para a implantação da ciclovia, “e não houve como avançar no projeto”, disse Joaquim, ao contrário de locais como a Wenceslau Escobar, onde a obra foi bem aceita e o local é amplamente utilizado pela comunidade.

Em 2024, o geógrafo Douglas Costa Strege, em seu trabalho de conclusão de curso para o Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), analisou as condições de 24 quilômetros de ciclovias em 14 bairros da área central da Capital, utilizando a metodologia do Índice de Avaliação de Qualidade de Infraestruturas Cicloviárias (QualiCiclo). Segundo o estudo, 56% do trecho foi classificado como “insuficiente”, e nenhuma das vias foi classificada como “ótima”.

O aposentado Amauri Silva Velho, morador do bairro Menino Deus, transita de bicicleta frequentemente, mas prefere andar pela calçada em trechos como na avenida Érico Veríssimo. “Está horrível”, resume ele, ao ser questionado sobre a ciclovia nesta via. “É buraco, desnível, cimento derramado, má sinalização, pintura das faixas saindo. Os carros, quando querem, trancam a frente. Não tem como andar nela. Literalmente, acaba estragando a bicicleta. Eu ando devagar e cuido bastante, porém têm muitos ciclistas que andam mais rapidamente e acabam parando de forma brusca quando cruza algum pedestre, provocando acidentes”, acrescentou Velho.

Locais como a ciclovia da avenida Ipiranga, que está com quatro trechos ainda interditados devido à queda dos taludes do arroio Dilúvio entre 2023 e 2024, requer também paciência por parte dos usuários de bicicletas. As mudanças no plano estão mais atreladas à visão da Prefeitura de que há deficiências na estrutura atual, além de que a realidade de 2025 é diferente do que se projetava em 2009.

Por exemplo, algumas malhas funcionam localmente, como na Restinga, zona Norte e área central, mas elas estão “espalhadas, dispersas e não conectadas”. “A gente foi avançando com elas conforme conseguíamos encaixar no orçamento e contrapartidas. Foi uma solicitação do prefeito de que trabalhássemos para corrigir esta aparente deformação, que é a falta de conexão”, salientou o coordenador. No segundo semestre deste ano, a Prefeitura trabalhará na manutenção de 20 quilômetros de “ciclovias importantes”, cuja lista já foi elaborada, com foco na sinalização horizontal e reparos.