Mais de 48 horas depois do temporal do final de tarde do último domingo, que atingiu a zona Sul de Porto Alegre e municípios do entorno, famílias seguiam com a reconstrução das casas, enquanto árvores e postes continuavam bloqueando vias, como o beco 3941, junto a estrada Retiro da Ponta Grossa. Outras já haviam sido liberadas, como a própria estrada, a partir da rua Aldo Alves da Silva. Alguns pontos estavam com vazamentos de água. Na segunda-feira, coletivos da linha 171 - Ponta Grossa não conseguiam passar, prejudicando moradores.
A maior reclamação de quem vive no local foi relacionada à energia elétrica. No próprio beco 3941, os postes de luz seguiam no chão, da mesma forma que logo após o temporal. Trafegar de carro é impossível. Segundo eles, técnicos da CEEE Grupo Equatorial disseram que não levantariam as estruturas. “Justificam que é um condomínio particular. Mas todo mundo paga a conta de luz certinho”, conta o pedreiro Rogério Ceresa, que vive no local há cerca de dois anos, e precisou levar os itens na geladeira para a casa da irmã, que mora próxima.
O vizinho Ademir Martinho, professor aposentado, também se dizia indignado. “Isto aqui está um perigo. Não tem como você ligar uma luz, fazer um café da manhã. Eu tenho dores nas costas e imagina levantar um poste destes? É uma sacanagem o que estão fazendo conosco”, disparou ele, também mostrando as faturas pagas.
Na noite de segunda, os moradores fizeram um protesto contra a falta de energia, bloqueando a estrada em frente. Diante do que classificaram como “inércia” da CEEE Grupo Equatorial, resolveram arregaçar as mangas e se arriscar.
Eles próprios cavaram os buracos dos postes e retirariam os mesmos da via. O trabalho começou hoje pela manhã. Já na rua Firmino José da Silva, moradores instalaram telhas e árvores eram retiradas dos pátios, de onde estavam caídas. A estagiária de Pedagogia Cássia Silva estava com o marido, o caminhoneiro Gabriel Silva, e a filha do casal, Yasmin, 1 ano e 9 meses. Segundo ela, a companhia de energia passou pelo local, fez alguns consertos pontuais, mas a luz voltou a cair na madrugada. “Acho que falta um pouco de empatia da parte deles. Um pinheiro caiu e entortou toda a grade de uma casa. É muito complicado”, comentou ela.
Procurada, a CEEE Grupo Equatorial disse que as equipes seguiam atuando no rescaldo do temporal, com alguns pontos críticos, sobretudo na Ponta Grossa. A previsão para retomar o pleno fornecimento, conforme a empresa, era até hoje. Já na área do beco 3941, a companhia disse que ligaria o painel da comunidade, mas que “os postes clandestinos não serão objeto do serviço emergencial”. Quem também circulou pelas áreas afetadas hoje foi o secretário-adjunto da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (SMSUrb), Vitorino Baseggio. Segundo ele, até o dia de hoje, 80% das situações estavam resolvidas.
Bassegio disse ainda estimar que todas as áreas da Capital deverão estar recuperadas até o meio-dia de hoje. “Estamos priorizando o atendimento a algumas casas, como, por exemplo, uma onde havia um cadeirante. Doamos lonas para recuperação de telhados, o Dmae segue atuando nos rompimentos de tubulação, tivemos problemas em uma comunidade da Restinga, então acredito que a situação está bem encaminhada”, afirmou ele, reconhecendo que a Prefeitura tem um passivo de podas de árvores, cujo trabalho poderia reduzir o prejuízo em caso de queda.
“Hoje a situação está bem melhor. Em alguns casos, especialmente em regiões mais vulneráveis, temos procurado fazer a busca ativa em locais em que não temos conhecimento”. Em Barra do Ribeiro, o trabalho também foi de recuperação. Ontem, a Prefeitura iniciou a distribuição de telhas, enquanto outras que haviam comprado instalaram em suas residências. A área mais afetada foi a localidade de Serrinha, distante da sede municipal. Conforme a Administração, por volta de 300 residências foram vitimadas pelo temporal.
Já em Guaíba, o coordenador da Defesa Civil Municipal, Anderson Gawlinski, disse que, além das casas, plantações foram prejudicadas e mais de cem residências tiveram o telhado destruído. As áreas mais atingidas foram o Alto Mathias e a Estrada do Petim, também no interior. “Estamos entregando lonas e roupas para as pessoas que precisam, além da aquisição emergencial de telhas. O trabalho não para”, comentou ele, Um cão e galinhas morreram devido ao granizo. Ambos os municípios decretaram situação de emergência.