Cidades

Revolução Farroupilha a caminho do bicentenário

Por Alcy Cheuiche, autor de “A Guerra dos Farrapos”, “Viamão - A Trincheira Farroupilha” e “O Alvorecer da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e a Revolução Farroupilha”

Pórtico monumental, que marcava entrada da Exposição do Centenário Farroupilha, iluminava as noites nos Campos da Redenção
Pórtico monumental, que marcava entrada da Exposição do Centenário Farroupilha, iluminava as noites nos Campos da Redenção Foto : Photo Becker / CP Memória

Na noite de 20 de setembro de 1935, foram acesas 28 mil lâmpadas elétricas no recém-inaugurado Parque Farroupilha, enquanto toda a cidade de Porto Alegre tinha apenas 4 mil. Disseram os admiradores de Getúlio Vargas, José Antônio Flores da Cunha e Alberto Bins, os governantes federal, estadual e municipal, que a capital gaúcha devia estar sendo enxergada até da lua. Enquanto seus adversários políticos diziam que a obra tinha quebrado o Banco do Rio Grande do Sul, fundado há apenas sete anos.

Veja o especial dos 190 anos da Revolução Farroupilha

A verdade é que o sonho maluco de Flores da Cunha: trazer o mundo para o Rio Grande do Sul tinha se tornado realidade. No antigo Parque da Redenção, no mesmo lugar então chamado Campo da Várzea onde revolucionários e porto-alegrenses se uniram para a tomada pacífica da capital da Província de São Pedro, erguia-se uma Exposição Internacional capaz de rivalizar com a realizada em Paris, no ano de 1889, para comemorar o Centenário da Revolução Francesa.

Projeto de dois arquitetos de vanguarda, o francês Alfred Agache e o brasileiro Christiano Gelbert, de Santa Catarina, a obra era de fato monumental. Olhando-se do ângulo de quem estivesse próximo à Escola Militar, situava-se o impressionante Pórtico de Entrada, com duas torres de vinte e um metros de altura, correspondentes a edifícios de sete andares. Elas davam acesso a quatro avenidas principais onde se erguiam dezenas de pavilhões: da indústria, do comércio, da agricultura e pecuária gaúchas e de outros sete Estados do Brasil, além das Exposições Internacionais. Cada um deles com formas geométricas inusitadas, destacando-se os do Rio Grande do Sul e de São Paulo, em estilo e grandiosidade.

Outras atrações eram o cassino com salão de baile, o lago artificial, o auditório e a concha acústica. Frente ao pórtico de entrada, alguns meses depois, foi instalada a estátua equestre de Bento Gonçalves, de autoria de Antonio Caringi, hoje se deteriorando ali próxima ao Colégio Júlio de Castilhos, como relatado a semana passada pelo Correio do Povo.

Por que Getúlio Vargas concordou com Flores da Cunha para liberar verbas astronômicas do Banco do Brasil para o Banco do Rio Grande do Sul? Porque, desde 1934, eleito pela Assembleia Constituinte, ele se tornara Presidente da República de fato e de direito. Mas, fora em Porto Alegre que começara a Revolução de 3 de outubro de 1930, com apoio inusitado de chimangos e maragatos unindo-se ao chamado: Rio Grande, de pé pelo Brasil! Em 1932, foram também do Rio Grande do Sul que partiram para São Paulo alguns dos mais aguerridos regimentos do Exército e da Brigada Militar, que ajudaram a sufocar a revolução financiada pelos barões do café. A Constituição de 1934 trouxera conquistas pregadas há muito tempo por Joaquim Francisco de Assis Brasil, como o voto secreto e o voto feminino. Além de outras que mudaram a fisionomia política do Brasil, como a criação do Ministério do Trabalho, a prioridade dada ao ensino público, a regulamentação das profissões, a criação dos sindicatos, a prioridade à Bandeira e ao Hino Nacional nas comemorações oficiais.

Hoje se sabe que a Revolução Farroupilha foi responsável pela instalação da primeira República em solo brasileiro que durou quase dez anos. Que ela nunca foi separatista, porque soube se aliar a outros movimentos republicanos, como o da Bahia, cujos sabinos foram os responsáveis pela libertação de Bento Gonçalves da Fortaleza do Mar, em Salvador, e de sua volta ao Rio Grande do Sul, em 1837. Do apoio dado à proclamação da República Catarinense, em Laguna, no ano de 1839, com apoio dos Lanceiros Negros, por terra, e de Giuseppe Garibaldi e seus marujos italianos e brasileiros, por mar. E que, principalmente, na sua Constituição, votada em Alegrete, em 1842, está estampada a frase tantas vezes repetida por Bento Gonçalves e publicada no jornal O Povo, fundado por Luigi Rossetti, o famoso jornalista que morreu em combate na defesa de Viamão: Faremos a união com todas as Províncias que adotarem o sistema republicano para formar a República Federativa do Brasil.

O que somos hoje? Súditos de um Império ou cidadãos e cidadãs de uma República Federativa? Se realmente perdemos a Revolução Farroupilha, como é possível que a Bandeira do Estado do Rio Grande do Sul seja a mesma da República Rio-Grandense? Como se explica que a Assembleia Provincial, cujos deputados tomaram posse a 20 de abril de 1835, cinco meses antes do 20 se setembro, tentando atingir os objetivos de liberdade, igualdade e humanidade por meio legais, tinha entre os seus eleitos farroupilhas como Bento Gonçalves, Padre Chagas, Domingos José de Almeida? Que seja Piratini o nome do nosso Palácio do Governo e Farroupilha de nossa Assembleia Legislativa?

Em 1835, não existia Poder Judiciário no Rio Grande do Sul, a não ser para pequenas causas. Criá-lo foi também uma bandeira dos farroupilhas, pois sem ele ao lado dos Poderes Executivo e Legislativo não poderia existir uma verdadeira democracia.

Assim sendo, ao trilharmos o caminho que nos levará ao Bicentenário da Revolução Farroupilha, vamos lutar para que ela seja cada vez mais reconhecida como uma vitória do Brasil pela soberania popular, acima de tudo, o que a palavra grega demokratia significa.

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