Diante de sucessivos eventos climáticos extremos e discussões sobre como proteger os recursos do planeta, ao mesmo tempo que se tenciona o consumo desenfreado, as palavras do ambientalista porto-alegrense José Antônio Lutzenberger, que completaria 100 anos em 17 de dezembro, soam como profecias ao tornarem-se tão atuais. É o que foi destacado no momento de homenagem a ele, considerado um dos pioneiros da formação do movimento ambiental brasileiro, que foi realizada nesta sexta-feira, durante a 14ª edição do Fórum Internacional do Meio Ambiente (FIMA).
A honraria, promovida pela Associação Riograndense de Imprensa (ARI), ocorreu no auditório Ana Terra, da Câmara Municipal de Porto Alegre. Participaram a jornalista Lilian Dreyer, biógrafa do ambientalista, e a filha dele, Lara Lutzenberger, que é bióloga e presidente da Fundação Gaia. Além dos depoimentos, uma placa foi entregue em homenagem aos 100 anos.
No painel “Os Cem Anos de José Lutzenberger: contribuições para o Mundo de Hoje” com a mediação do jornalista Walmaro Paz, ambas destacaram a potência dos seus discursos.
"Ele faleceu há 75 anos, sendo obviamente para todos nós que conhecemos e testemunhamos o brilhantismo dele. Ele deveria estar entre nós hoje ainda. Teria muito a contribuir. O tempo dele é hoje mais do que nunca. As palavras dele, o conhecimento, a postura dele fazem mais falta e são mais necessários do que nunca", disse Lara Lutzenberger.
Ainda que tenha nascido e se criado em tempos diferentes dos que nós vivemos hoje, Lutz conseguiu, de forma assertiva, visualizar o rumo da civilização mundial, e comprometeu-se a alertar a todos que quisessem ouvir sobre isso e da necessidade urgente de nós mudar o estilo de vida, acrescentou a filha. "Em 1926, nós não tínhamos nem a metade da esquizofrenia, do adensamento, da maldade, da falta de confiança que reina hoje em dia na nossa sociedade. Todos os sinais dessa terrível degradação civilizatória eram muito tênues e, mais do que nada, especulativos, e ele já conseguia especular e alertar sobre eles".
Humanidade de volta à natureza
Usando a linguagem do ambientalista, que a influenciou nas suas percepções, a biógrafa de Lutz lembrou que as agressões que a fauna e a flora estão sofrendo são consequências de um modelo de progresso. "Nós estamos chegando num limite absoluto da necessidade de mudar uma concepção de progresso que tem por base hoje, principalmente, o consumo. Que só é saudável uma economia que cresce sem parar, e que é alimentada por um consumo que não para de crescer". Ela acrescenta que não está se encontrando solução aos recursos que estão se esgotando da natureza, e o quanto está produzindo dejetos que não tem para onde ir. Lutz falava há décadas, que esse modelo levaria ao desastre.
Refletindo sobre as alternativas para esse modelo de progresso, foco da pregação de Lutz, a direção envolve colocar o ser humano dentro da natureza. "Que ele deixe de se considerar como aquele que está acima, agora, controla, faz o que bem entende com tudo, todos os sistemas vivos, como se ele fosse um proprietário, um mandatário, um ser afastado que não recebe nenhum influxo na vida, ele só age sobre ela". O modelo defendido por Lutz coloca a humanidade de volta a dentro da natureza, que a leve não apenas a respeitar, mas a interagir e imitar.
A biógrafa lembrou de quando ele abandonou seus privilégios ao trabalhar em uma grande multinacional ao perceber que, para continuar ali, teria que agredir a natureza. Defendendo a chamada tecnologia branda como necessária para restabelecer a saúde planetária, o ambientalista defendia, na época, a ideia da precaução. "Ainda pouco se fala nisso. Não sabemos direito se determinada coisa vai fazer bem ou mal, então, primeiro a gente fica com o pé atrás. Primeiro tem que provar que não faz mal".
Evento segue até sábado
A 14ª edição do fórum, promovido pela ARI, teve início na manhã desta sexta-feira, também no Auditório Ana Terra. Em seu discurso de abertura, o presidente da ARI, José Nunes, destacou a importância do encontro como espaço de reflexão, de confronto de ideias e compromisso com o futuro. Ressaltou, ainda, a importância do enfrentamento da crise ambiental, e que a imprensa tem um papel decisivo nesse cenário.
“Nesta edição, ao tratarmos de saneamento e resíduos, estamos falando diretamente de saúde pública. Não é um tema técnico, distante é um tema que impacta a vida real das pessoas, todos os dias. É água que chega ou não chega. É esgoto tratado ou não tratado. É lixo que tem destino ou que volta em forma de problema”, destacou.
O evento segue até esse sábado. Confira a programação. Com o tema “Saneamento e Resíduos: Saúde e Meio Ambiente”, o fórum tem como objetivo propor uma imersão crítica em problemas estruturais que afetam diretamente a qualidade de vida urbana e o meio ambiente. Participam especialistas de referência, gestores públicos, ativistas e comunicadores para dissecar os desafios do Marco Legal do Saneamento, a gestão de resíduos sólidos e a necessária transição para cidades mais resilientes.
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ARI faz homenagem ao ambientalista porto-alegrense José Antônio Lutzenberger