O trecho 1 da Orla do Guaíba, mais atingido pela enchente de 2024 em Porto Alegre, começa a receber obras a partir desta quinta-feira, 22. A recuperação começa no Parque Moacyr Scliar, e contempla o trecho de 1,3 mil metros de extensão, do Cais Mauá até a Rótula das Cuias. Ainda, serão realizadas a demolição dos bares, vestiários e lojas e a construção de novo espaço para a Guarda Municipal.
A empresa contratada para as frentes de trabalho é a Ducatti Engenharia. O investimento dessa fase atual é de R$ 1,8 milhões, e a conclusão dos trabalhos nesta fase está prevista para até o final do ano. O total da obra contempla cerca de 12 milhões de reais, e o cronograma se estende pelo período de 12 meses, ou seja, deve ser concluído em junho de 2026. De acordo com a Secretaria de Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade (Smamus), as frentes de trabalho visam recuperar os estragos e tornar o espaço mais resistente aos impactos de possíveis novos eventos climáticos externos.
O início das obras contou com a presença do prefeito Sebastião Melo nesta manhã. “Estamos reconstruindo a orla com mais resistência, qualidade e cuidado com as pessoas. A enchente de 2024 deixou marcas profundas, mas também nos trouxe a responsabilidade de entregar uma cidade mais preparada para o futuro”, ele disse.
O secretário da Smamus, Germano Bremm, disse ao Correio do Povo que a primeira etapa da obra consiste na reforma completa das duas áreas utilizadas por pequenos comerciantes de bebidas e alimentos (ambulantes), e a demolição das estruturas ainda remanescentes dos bares que foram duramente afetados pela enchente. Segundo o secretário, a população poderá continuar frequentando a Orla. “A recuperação acontece em etapas, primeiro na parte dos ambulantes, depois na sequência a bares, efetivamente, e no reforço da infraestrutura.
A reconstrução dos bares e banheiros deve começar apenas na segunda etapa. Os banheiros, todos situados no térreo, foram inativados desde a enchente. “A gente, alternativamente, está dispondo banheiros químicos, de forma provisória, até que finalize efetivamente as obras. Isso vai ter que ser alternativa da população”, diz Bremm. “Conforme as obras vão evoluindo, naturalmente vai prosseguir a recuperação e a gente vai abrindo esses banheiros à população”, explica.
Edemir Simonetti, fundador do restaurante POA 360 Gastrobar, na Usina do Gasômetro, espera poder reconstruir seu outro negócio, o Baruno, localizado na parte térrea do trecho 1 da Orla que fechou logo no início da enchente. “Vamos recuperar toda a estrutura de vidro, internamente todos os balcões, elétrica, hidráulica, ar condicionado, exaustão, tudo que ficou destruído, a estrutura física para que a gente volte a investir na compra de móveis e equipamentos”. O investimento será de 300 milhões de reais.
Proprietários relatam prejuízos com a demora do início da obra
"Na verdade, é uma reparação, não é nada de melhoria, é um conserto. É o mínimo necessário para que o lugar consiga funcionar direito. Consigo enxergar como reparação está sendo feita e, ainda por cima, com 1 ano de atraso", afirma Felipe Boni, um dos proprietários do Aquabar da Orla.
Localizado próximo à parte da Rótula das Cuias, o quiosque fica na parte superior, na altura da via. Apesar do espaço não ter sido afetado pela água, ela destruiu as estruturas da parte de baixo e, consequentemente, os banheiros. O proprietário relata que o quiosque operou sem banheiro durante todo o ano passado, e teve a instalação elétrica constantemente roubada. "As instalações ficavam todas na parte de baixo, que literalmente estava em escombros, assim as caixas de luz eram muito fácil de acessar e roubar”, relata.
Ele afirma que a instalação dos banheiros químicos também custaram a chegar. Por consequência, a falta de estrutura espantava os consumidores. "Todas as operações que estavam naquele trecho foram prejudicadas nesse sentido", diz. "[A demora da obra] impactou muito tanto nos nossos negócios como na experiência das pessoas que vão à Orla para ter o seu momento de lazer. Foi prejudicial para todo mundo", conclui.
Jackson Aschidamini, sócio-proprietário do Jardim de Creta, bar número 3 do trecho 1, relata que a demora nas obras e a ausência de banheiros também traz prejuízos para o estabelecimento. “A gente está trabalhando sem a parte de baixo há bastante tempo, o que impacta para os quiosques. O pessoal começa a não ir mais para a Orla por conta dos banheiros, e no final de semana é muito complicado usar banheiro químico”, relata.
Ele lembra que a obra devolverá apenas a estrutura, e preocupa-se com o futuro do bar. “Os permissionários vão ter que recolocar tudo de novo. Todo o mobiliário, todos os freezers, toda a parte interna que a água levou. No momento, não tenho esse recurso para colocar novamente tudo no bar”, diz.
Bremm reforça que o município está atuando em diversas frentes desde a enchente, mas que teve outras prioridades antes da recuperação da Orla. “Nós vivemos a maior tragédia da história do Porto Alegre, Rio Grande do Sul e do Brasil, e tivemos prejuízo de pouco mais de 12 bilhões de reais. É um valor muito significativo. O município está atuando em diversas frentes, mas priorizou atender as unidades básicas de saúde, a recuperação das escolas, os laudos para as famílias acessarem o direito à moradia, e também está atuando nas áreas de lazer que foram afetadas e que são extremamente relevantes para a autoestima do Porto Alegrense, para devolver esse astral que a gente vivia antes da enchente à cidade”.
Em relação aos proprietários que tiveram parte térrea de seus estabelecimentos afetados, Bremm diz que propôs solução com contêineres enquanto as obras não começavam. “A gente deu a alternativa sempre da implantação de contêineres. Como especificamente aqueles bares, todos os proprietários têm as estruturas acima dos quiosques, por opção, entenderam que não queriam botar contêiner alternativamente até que efetivamente se tenha as obras. Mas, é importante lembrar, ali é uma estrutura de orla, onde quem eventualmente se implantar ali tem que refletir que fica fora do sistema de proteção, ou seja, é sujeito à subida das águas e vai ter que, infelizmente, conviver com isso”, diz.
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Segunda etapa
A segunda etapa deve iniciar em setembro, com a reconstrução dos bares e banheiros. Ela contempla as paredes internas, que receberão blocos de concreto mais resistentes aos impactos da água, revestimentos no piso e teto, além de melhorias nas esquadrias, instalações elétricas e climatização. Os vestiários foram reprojetados para aumentar o número de sanitários tanto femininos quanto masculinos. Além disso, serão instaladas novas redes elétricas, sistemas de climatização e dispositivos de segurança antifurto. Essa fase está orçada em R$ 4 milhões, e deve estar concluída no primeiro semestre de 2026.
Terceira etapa
A terceira etapa prevê a construção de estruturas para reforçar a proteção contra enchentes como gabiões de contenção (gaiolas metálicas preenchidas com pedras) nas áreas de deques de madeira e metálicos e colchão reno (gabião em forma de colchão) no terreno próximo ao restaurante 360 para recuperar a área onde aconteciam os resgates em maio passado. Os taludes também serão recuperados e reforçados.
A pista de skate do trecho já está totalmente recuperada, informa o secretário. O trabalho envolveu a retirada de toda a resina que sofreu danos com as cheias e colocação de três camadas novas, tratamento de todas as fissuras e juntas de dilatação, pintura e manutenção de todos os guarda-corpos da pista e colocação de novas placas de orientação. O investimento foi de R$ 781mil, recursos oriundos de Termo de Aquisição de Solo Criado por Contrapartida (TASCC) da empresa Cyrela.
A revitalização do Trecho 3 também inclui a reforma completa dos bares e banheiros, recuperação dos chuveiros e taludes, pavimentação de trechos danificados, recuperação da iluminação, pavimentação de trechos danificados e plantio de novas espécies nativas do Viveiro Municipal. A previsão é de que a reestruturação seja concluída no segundo semestre de 2025. O valor total da obra é de R$ 5,2 milhões, também oriundo de Termo de Solo Criado por Contrapartida.