O caso da professora que foi esfaqueada por adolescentes na Escola Municipal João de Zorzi, em Caxias do Sul, na semana passada, chocou a cidade e o Rio Grande do Sul. A educadora foi encaminhada a um hospital com múltiplos ferimentos, mas não corre risco de vida.
Os adolescentes envolvidos na ação têm entre 13 e 15 anos, e o processo está sob segredo de Justiça. A situação em Caxias do Sul é mais uma das que se somam em um contexto generalizado de violência no ambiente escolar.
O assunto ganhou ainda mais projeção com o sucesso da série "Adolescência". A produção conta a história de Jamie, um menino de 13 anos suspeito de assassinar uma colega também a facadas.
Para o psicólogo e especialista em Psicologia Escolar e Educacional, Adams Friedemann, a violência nas escolas brasileiras, não especificamente da instituição onde ocorreu o ataque em Caxias, é explicada por vários fatores.
Dentre eles estão a ausência muitas vezes de um profissional da psicologia ou do serviço social dentro das escolas para lidar com as problemáticas envolvendo o ambiente. Outra questão bastante relevante é o uso das redes sociais.
A geração atual de adolescentes, destaca o especialista, não tem uma mentalidade onde haja uma separação clara entre o ambiente físico e o digital. Dado o tamanho do alcance das redes sociais e o uso das tecnologias, essa linha vai ficando cada vez mais tênue.
Os adolescentes por vezes utilizam das redes sociais como um meio para praticar ciberbullying e participar de grupos extremistas. Em "Adolescência", por exemplo, o protagonista Jamie é acusado de participar do movimento incel, que prega o ódio contra as mulheres.
Diálogo é crucial, destaca psicólogo
Dentro de casa é o lugar que os adolescentes muitas das vezes utilizam as redes sociais. "Infelizmente é uma ilusão comum de a gente ver e pensar que as nossas crianças e adolescentes estão seguras por estarem em casa", destaca Friedemann.
Neste sentido, o especialista indica que os pais ou responsáveis devem ter conhecimento sobre as ações dos filhos no ambiente virtual e ampará-los. "A gente teve alguns anos atrás inúmeros inúmeros casos, como o jogo da Baleia Azul, que mostraram que de fato a casa, apesar de ainda ser um refúgio de segurança para crianças e adolescentes, ela precisa estar bem aparada por uma família", enfatiza.
Logicamente, os filhos também têm questões que eles não necessariamente querem compartilhar com os pais. O psicólogo indica que haja bastante conversa entre as partes a fim de definir sobre a forma como será feito o monitoramento na internet. "Esse equilíbrio é muito desafiador. O diálogo acaba sendo o fator principal de proteção tanto para as famílias, quanto para as escolas", pontua.
As redes sociais em si, contudo, não devem ser vistas como "vilãs", sinaliza Friedemann. A questão para o especialista é mais sobre o uso delas, que pode ser saudável ou prejudicial.
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Sinais
Os pais ou responsáveis devem estar atentos a alguns sinais clássicos que as crianças ou adolescentes podem apresentar quando algo não está certo. Entre eles há o isolamento social, notas muito baixas, mudanças repentinas de humor e aumento da agressividade. "Existem múltiplos sinais que a gente pode pensar. E ainda assim, até para profissionais já com uma boa capacitação, às vezes pode ser bem difícil identificá-los".
Para um ambiente escolar mais saudável, Friedemann defende um maior investimento em políticas públicas para, dentre outros fatores, efetuar a ampliação do atendimento psicológico e social nas escolas. Além disso, o especialista esclarece que não há uma idade mínima para a família encaminhar uma criança ou adolescente para a psicoterapia, se a família tiver condições financeiras.