Bolsa fecha em baixa de 0,87%, com ações de commodities e bancos
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Bolsa fecha em baixa de 0,87%, com ações de commodities e bancos

Após uma sucessão de renovações de recordes históricos, dólar fechou em queda nesta quinta-feira, a R$ 4,33

Por
AE

Ibovespa terminou cotado em 115.662,40 pontos

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Após duas sessões em recuperação, o Ibovespa voltou a fechar em terreno negativo nesta quinta-feira, com as ações de commodities, como Petrobras (ON -1,90%) e Vale (-1,75%), em baixa na sessão, apesar do desempenho positivo observado, mais uma vez, nos preços do Brent (+0,99% para abril) e do minério de ferro (+1,00% em Qingdao). Outro segmento de peso que vinha esboçando alguma reação em sessões anteriores, o de bancos, também registrou perdas nesta sessão. Assim, o principal índice da B3 fechou o dia em baixa de 0,87%, a 115.662,40 pontos, tendo oscilado entre mínima de 114.800,64 e máxima de 116.659,69 pontos.

Na semana, o Ibovespa acumula agora alta de 1,66%, praticamente o mesmo desempenho do mês (+1,67%), enquanto, no ano, o índice sobe agora 0,01%. O giro financeiro desta sessão totalizou R$ 21,6 bilhões, após ter chegado ontem a R$ 74,6 bilhões, quando foi muito reforçado pelo vencimento de opções e futuros sobre o índice.

Após uma sessão moderadamente negativa nos mercados da Europa, Nova York chegou a operar sem direção única, mas acabou fechando no vermelho, com os três índices, especialmente S&P 500 e Nasdaq, ainda bem perto das máximas históricas de encerramento renovadas ontem, apesar de certo recrudescimento dos temores em torno do coronavírus, depois de a China ter efetivado mudança na metodologia de diagnóstico e na contagem dos casos no país (em alta).

"A China sempre foi um fator de preocupação em relação à transparência de dados, e isso se aplica agora à situação tanto do ponto de vista da doença como dos efeitos sobre a atividade econômica. O que temos de informação é o que chega deles", diz Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset. Soma-se à incerteza do coronavírus e dos respectivos efeitos sobre a economia global uma agenda doméstica enfraquecida no Brasil, com dados que não têm se mostrado muito inspiradores e um Congresso em lenta retomada, após o recesso.

Tendo chegado a operar na faixa de 112 mil pontos no início da semana, o Ibovespa vem convergindo, entre idas e vindas, para os 115 mil pontos, praticamente conservando o nível do fechamento de 2019, ano em que o Ibovespa acumulou progressão de 31,58%. O padrão para 2020 é de maior volatilidade, o que testará a resiliência dos investidores domésticos, que têm carregado o Ibovespa nos ombros, com os estrangeiros ainda em fluxo negativo. Para Vieira, ainda que o ajuste no Ibovespa se prolongue, o índice permaneceria em "zona de conforto" até os 110 mil pontos.

"A Bolsa ficou mais barata em dólar, mas nem isso atrai o estrangeiro - com Nova York nas máximas -, porque a dúvida entre eles, pelas conversas que temos, é até onde a moeda pode ir por aqui. Não há muita clareza quanto a isso", diz Vieira. Hoje, o Banco Central atuou no câmbio, por meio de operações de swap para ancorar o mercado futuro da moeda, em dia no qual o dólar chegou à marca de R$ 4,3830 na máxima da sessão, em novo pico histórico intradia. Depois da iniciativa do BC, o dólar se acomodou à faixa de R$ 4,33 a R$ 4,34, encerrando aos R$ 4,3339, em baixa de 0,39% na sessão.

"Não vejo o BC entrando forte para derrubar moeda, mas sim uma intervenção pontual como a de hoje, em swap, após o dólar ter andado muito. O dólar forte reflete a economia dos EUA e o apelo dos ativos americanos, enquanto, por aqui, a situação é ainda fraca", avalia Luis Sales, analista da Guide Investimentos. "Assim, o Ibovespa hoje foi o que temos visto recentemente: cautela em meio a um cenário ainda conturbado, no qual a aversão a risco favorece uma realização de lucros em setores à medida que têm algum avanço, como vimos hoje em commodities e bancos", acrescenta.

Dólar

Depois de cinco dias de ganhos e uma sucessão de renovações de recordes históricos, o dólar fechou em queda nesta quinta-feira. O real se descolou de outras moedas emergentes e foi a divisa com melhor desempenho entre seus pares após o Banco Central fazer um leilão extraordinário de US$ 1 bilhão em swap, uma espécie de venda de dólar no mercado futuro. À tarde, o ritmo de queda se reduziu, por conta do exterior negativo, em meio a renovadas preocupações com o coronavírus, mas o dólar à vista acabou fechando em baixa de 0,39%, para R$ 4,3339. No início da noite, o BC anunciou novo leilão de US$ 1 bilhão para esta sexta-feira.

 

 

O dólar abriu o dia em alta e foi a R$ 4,38, embalado pelas declarações ontem à noite dos ministros Paulo Guedes, da Economia, e de Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, que não mostraram maiores preocupações do dólar mais alto no Brasil. "É melhor termos juros a 4% e câmbio a R$ 4,00, do que câmbio a R$ 1,80 e juros de 14%, nas alturas", disse Guedes.

"O câmbio é flutuante, mas quando o mercado começa a ficar disfuncional, cabe ao BC trazer alguma funcionalidade ao mercado, o que foi o que ele fez", disse o presidente e sócio da Mauá Capital, Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC. "A decisão de vender swap foi correta. O câmbio estava em processo de tendência unidirecional."

Por conta dos juros baixos, Figueiredo destaca que aumentou muito a demanda por hedge em real. Por isso, há mais procura por swap do que por moeda no mercado à vista, o que justifica a decisão do BC pelo instrumento. Para o executivo, a tendência pela frente é o dólar se equilibrar mais ao redor de R$ 4,00 do que em R$ 4,50.

Na avaliação do economista-chefe do Banco ABC Brasil, Luis Otávio de Souza Leal, a decisão do BC de ofertar swap "tecnicamente perfeita". "A intervenção teve todo sentido, o BC olhou onde estava disfuncional e era o mercado futuro", disse ele. "A dinâmica dos fluxos de capital no Brasil mudou", destaca. Leal destaca que Guedes vem perseguindo a estratégia de política monetária mais frouxa e política fiscal mais apertada. Neste ambiente, o dólar fica mais alto mesmo. Para ele, o real só vai se valorizar mais se o Produto Interno Bruto (PIB) se acelerar. Por enquanto, os indicadores têm vindo fracos, enquanto a economia americana tem mostrado força, o que contribui para valorizar o dólar no exterior e pressionar ainda mais o câmbio aqui.

Os estrategistas em Nova York do grupo financeiro holandês ING também apontam que o PIB pode fazer o real ter melhor desempenho. Eles projetam o dólar em R$ 4,30 nos próximos 30 dias, em média, e R$ 4,05 nos próximos seis meses. Com o PIB mais forte, a moeda americana pode cair a R$ 3,90 em 12 meses. "Evidências mais fortes de que a que a recuperação da atividade está a caminho são cruciais para apoiar o real daqui para a frente." O risco, observam, é o coronavírus afetar as exportações brasileiras e atrapalhar esta retomada.

Juros

A quinta-feira foi de alta moderada para os juros futuros, que, principalmente nos trechos curto e intermediário, tinham espaço para a recomposição de prêmios após sucessivas quedas nas últimas sessões. A intervenção do Banco Central hoje no segmento de câmbio, que jogou a cotação da moeda para baixo após uma sequência de cinco altas e renovando máximas históricas em termos nominais, foi lida como um sinal de que a autoridade monetária está desconfortável com o atual nível do dólar, o que tende a enfraquecer as chances de retomada, em algum momento, do processo de queda da Selic. O avanço das taxas teve contribuição, ainda, do resultado do setor de serviços levemente acima da mediana das estimativas. Na ponta longa, pesaram a aversão ao risco no exterior com o agravamento das preocupações com o coronavírus e, em menor magnitude, o leilão de títulos prefixados.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou com taxa de 4,260% e 4,255% (regular e estendida), de 4,225% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2022 subiu de 4,791% para 4,83% (regular) e 4,82% (estendida). O DI para janeiro de 2025 encerrou com taxa de 6,08% (regular e estendida), de 6,032% ontem no ajuste. A taxa do DI para janeiro de 2027 passou de 6,391% para 6,44% (regular) e 6,43% (estendida).

A atuação extraordinária do BC pela manhã, ofertando US$ 1 bilhão em contratos de swap tradicional, teve grande influência hoje no desempenho do mercado de juros. A operação foi convocada quando o dólar à vista oscilava perto dos R$ 4,38, reagindo a declarações de ontem do ministro Paulo Guedes, e logo depois de anunciada colocou a moeda em rota de baixa. "Uma vez que o BC atuou no câmbio, se mostrou mais preocupado com o nível da taxa, sugerindo menor chance de cortar juros na medida que o dólar vem respondendo às expectativas com juros", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

Um gestor da mesa de renda fixa de uma instituição em São Paulo vê com naturalidade essa reação da curva à atuação do BC, especialmente após a sequência de baixas nos principais vencimentos, destacando que a correção de hoje foi pequena diante do alívio de prêmios recente. "Normalmente quando o BC intervém no câmbio, o mercado fica mais arisco. E realização é normal, com as taxas basicamente devolvendo apenas a queda de ontem", afirmou.

Na curva a termo, segundo Rostagno, a precificação para a Selic no Copom de março mostra 100% de chance de Selic estável em 4,25% e, para o fim do ano, a curva aponta Selic em 4,75%.

A agenda do dia ajudou a puxar as taxas um pouco para cima, com o volume de serviços prestados em dezembro ligeiramente além do que apontavam as medianas captadas pela pesquisa Projeções Broadcast. Em dezembro, na margem, o volume caiu 0,4%, ante mediana de -0,5%. Ante dezembro de 2018, houve alta de 1,6%, contra mediana de +1,5%.

A ponta longa foi afetada pelo mau humor no exterior, na sequência da disparada de casos diagnosticados de coronavírus e do número de mortes após mudança no método de diagnóstico da doença. A aversão ao risco, traduzida por exemplo no aumento da demanda pelos Treasuries, pesou nos longos, juntamente com alguma pressão do leilão do Tesouro.