Com exterior, dólar fecha em R$ 5,31, com alta de 0,39%

Com exterior, dólar fecha em R$ 5,31, com alta de 0,39%

Bolsa terminou a quinta-feira em baixa de 2,43% e atingiu o menor nível desde 13 de julho

AE

No agregado, o índice da B3 cede agora 2,38% na semana e vira para o negativo no mês

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O câmbio passou boa parte do tempo ao largo do nervosismo que tomou conta dos demais mercados na tarde desta quinta-feira, à medida que as bolsas americanas pioravam, após o partido democrata barrar nova proposta dos republicanos. A sinalização, segundo o New York Times, é a de que um acordo para um novo pacote fiscal está cada vez mais distante. Nesse ambiente, o dólar firmou alta no exterior e, no mercado doméstico, passou a subir na reta final dos negócios, mas em ritmo moderado, em sessão marcada pelo crescimento maior que o esperado nas vendas no varejo e várias captações de empresas, com Embraer, Suzano e PetroRio emitindo no exterior e a varejista de produtos para animais de estimação Petz no mercado de ações.

No noticiário doméstico, profissionais das mesas de câmbio destacam que incertezas sobre as contas fiscais e do compromisso do governo com a agenda liberal, em meio às discussões sobre interferência do Planalto no preço do arroz, estão entre os fatores monitorados pelas mesas de câmbio nesta quinta.

Após cair para a mínima diária de R$ 5,26 nos negócios da manhã, o dólar à vista fechou em R$ 5,3188, com alta de 0,39%. No mercado futuro, o dólar com liquidação para outubro era negociado em alta de 0,19%, em R$ 5,3210 às 17 horas.

De acordo com o CEO da BGC Liquidez, Erminio Lucci, após chegar perto dos R$ 5,60 em meados de agosto, a volatilidade do câmbio caiu nos últimos dias e o dólar tem se estabilizado na casa dos R$ 5,30. "O câmbio já precificou muita notícia ruim", diz ele, citando entre os fatores o baixo crescimento este ano, o aumento de gastos com o auxílio emergencial e o fiscal deteriorado este ano e em 2021.

Para o real se fortalecer, seria preciso, por exemplo, a melhora dos indicadores da economia mundial e doméstica, assumindo que o governo mantenha seu compromisso fiscal, ressalta.

"Ao sinalizar que vai investigar o reajuste no preço do arroz, automaticamente, o mercado questiona sobre a agenda liberal", ressalta a economista-chefe do Banco Ourinvest, Fernanda Consorte, sobre uma eventual interferência de Jair Bolsonaro no preço do alimento. "Começa a se materializar uma pegada protecionista, que ganhou coro com o presidente Bolsonaro tomando gosto por medidas populistas por causa da melhora que teve na sua popularidade devido ao pagamento do auxílio emergencial."

De acordo com Fernanda, qualquer mínimo sinal que represente um risco à agenda liberal do governo, considerando a atual situação fiscal do País, tende a pesar no mercado. Apesar de o dólar ter cedido nas últimas semanas, ela lembra que o dólar em um patamar de R$ 5,30 é "bem alto".

Em meio às incertezas domésticas, a moeda brasileira apresenta um dos piores desempenhos entre as divisas de países emergentes desde o início de junho, destacam os estrategistas de moedas do banco americano Citi. Mesmo com as condições globais em trajetória de melhora, com os preços das commodities no nível mais alto desde março deste ano - quando a pandemia chacoalhou os mercados - e um dólar mais fraco, pesa a preocupação com a questão fiscal no Brasil. O Citi estima o câmbio em R$ 5,40 no curto prazo, até três meses. Para o médio prazo, de seis meses a um ano, espera cotação de R$ 5,35.

Ibovespa

Comportadas pela manhã, as perdas do Ibovespa se acentuaram a partir do meio da tarde, levando o índice abaixo dos 99 mil no ponto inferior do dia, a 98.686,55, e também no fechamento, superando queda também aguda em Nova Iorque, com o Nasdaq mais uma vez à frente, em ajuste superior a 2% na mínima desta quinta-feira. Além das preocupações em torno de nova operação policial na Petrobras, que contribuía desde cedo para ajuste nas ações da empresa, a aversão a risco se intensificou em Nova Iorque, com a percepção de que o impasse entre democratas e republicanos no Congresso dos EUA impedirá novos estímulos fiscais ainda este ano - a proposta de US$ 300 bilhões apresentada pelos republicanos foi rejeitada pelos rivais.

Assim, ponderando questões externas e internas, como o significado da enorme oferta de LTN pelo Tesouro, o Ibovespa fechou em baixa de 2,43%, aos 98.834,59 pontos, no menor nível desde 13 de julho (98.697,06 pontos), saindo de máxima na sessão desta quinta-feira a 101.536,48, com abertura a 101.291,31 pontos.

Após ter oscilado apenas mil pontos, em variação apertada entre a mínima e a máxima na primeira metade dos negócios, o índice devolveu ao fim 2,4 mil pontos ante o fechamento precedente, que havia sido de recuperação frente à terça-feira, em movimentos em certo momento quase simétricos - ao final, uma perda mais aguda, de 2,43%, sucedendo ganho de 1,24% e baixa de 1,18% no início da semana.

No agregado, o índice da B3 cede agora 2,38% na semana e vira para o negativo no mês, em perda de 0,54% em setembro - no ano, cede agora 14,54%. Foi o primeiro fechamento abaixo dos 100 mil neste mês de setembro, após a marca ter sido perdida duas vezes em encerramentos de agosto, nos dias 31 (99.369,15) e 17 (99.595,41), na sequência da reconquista dos seis dígitos, pela primeira vez desde o início de março, no fechamento de 10 de julho, então aos 100.031,83 pontos. O giro financeiro desta quinta ficou em R$ 26,1 bilhões.

"Está faltando dinheiro novo - tem muita gente comprada e o estrangeiro não está vindo. Se não houver um 'driver' diferente, continuaremos neste patamar lateral, entre 98,5 e 103 mil pontos", diz Márcio Gomes, analista da Necton, referindo-se ao fluxo negativo dos estrangeiros no ano, incluídas aí operações de IPO e follow on. "Quando as coisas parecem melhorar um pouco, vem uma notícia negativa, estimulando a aversão a risco e a volatilidade. O momento é de seletividade, de garimpo mesmo, para se procurar uma oportunidade fora do radar. As blue chips, que são as queridinhas da grande massa, estão em correção", acrescenta o analista.

Neste contexto, o Ibovespa começou a acentuar perdas pouco antes das 15h30, renovando desde então mínimas abaixo dos 100 mil pontos, em paralelo ao aprofundamento da queda em Petrobras (PN -2,68% e ON -3,78% no fechamento), assim como em Vale ON (-2,45%) e no setor de bancos (Bradesco PN -3,29%), o de maior peso na composição do índice e que permanece contido por uma perspectiva de redução dos spreads e de aumento em provisões ante inadimplentes. Na ponta negativa do Ibovespa, Localiza caiu 5,38% e Lojas Renner, 4,42%. No lado oposto, Pão de Açúcar subiu 14,80% e BRF, 3,72%.

Pela manhã, a Polícia Federal esteve na sede da Petrobras, no centro do Rio, cumprindo mandados de busca e apreensão no âmbito da Operação Lava Jato. A 74ª fase da Lava Jato, chamada Sovrapprezzo, investiga esquema de prováveis fraudes em operações de câmbio comercial contratadas ao Banco Paulista. A Petrobras informou que apura internamente possíveis ilícitos e que colabora nas investigações.

No quadro mais amplo, "o que também chamou bastante atenção hoje entre os investidores foi a oferta recorde de LTN (pelo Tesouro), que mostra a necessidade de financiamento do governo em vista da precária situação fiscal", observa Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora. Ele acrescenta que, com a queda desta quinta-feira, "acompanhando o movimento de correção das bolsas americanas e das commodities", o Ibovespa "retornou para a base inferior da congestão entre 99 e 103 mil pontos". "Enquanto não romper um desses extremos, o índice ficará travado no curtíssimo prazo", conclui o analista da Clear.

Juros

Os juros já tinham alta firme pela manhã em meio ao leilão histórico do Tesouro e avançaram ainda mais à tarde, por conta da maior aversão ao risco nos mercados internacionais. Na ponta longa, fecharam com aumento em torno de 20 pontos-base, com a curva acentuando a inclinação em relação à primeira etapa.

A oferta de quase 45 milhões de títulos prefixados no leilão, absorvida parcialmente, respondeu por boa parte da pressão nas taxas, também num dia de indicadores locais acima do esperado, o que juntamente com a piora da percepção de risco fiscal, endossa a ideia de que o ciclo de queda da Selic chegou ao fim.

Numa sessão de volume robusto, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 fechou em 2,84%, de 2,793% no ajuste anterior, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 4,004% para 4,11%. A taxa do DI para janeiro de 2025 terminou em 5,97%, de 5,794% na quarta, e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 6,743% para 6,95%.

O leilão do Tesouro foi o maior da história em termos de risco (DV01), de R$ 6,95 bilhões, considerando LTN e NTN-F, segundo a Renascença DTVM.

A instituição turbinou não somente a oferta de LTN, de 30,5 milhões na semana passada para 43 milhões nesta quinta-feira, como também quintuplicou a de NTN-F, de 300 mil para 1,5 milhão. O lote de LTN foi integralmente absorvido apenas nos prazos mais curtos, de 1/4/2021 (20 milhões) e 1/10/2022 (3 milhões), sendo que no papel para 1/1/2024 vendeu 16,663 milhões dos 20 milhões ofertados. O lote de NTN-F foi vendido integralmente.

Passado o leilão, ao contrário do que normalmente ocorre em razão do desmonte de posições de proteção, não houve alívio. Ao contrário, as taxas subiram ainda mais, com as longas renovando máximas, alinhadas à deterioração do humor externo.

Para o sócio-gestor da LAIC-HFM, Vitor Carvalho, a conjunção de política fiscal e monetária está fazendo estragos na curva de juros, uma vez que a Selic muito baixa a mantém muito empinada. "O Tesouro vai ter dificuldade para rolar a dívida, e tem vencimento grande no ano que vem", afirmou.

Ao mesmo tempo, ainda que os DIs guardem algum prêmio para a Selic já a partir de 2020, nos Departamentos Econômicos a avaliação é de que a taxa básica deve permanecer no atual piso histórico por um período prolongado. E, para o economista-chefe do BNP Paribas Brasil, Gustavo Arruda, um dos motivos é justamente o fiscal, citando que um aperto monetário poderá elevar o custo da dívida que deverá fechar este ano em 93% do PIB e em 98% no ano que vem. "Não podemos nos dar ao luxo de acelerar o juro", disse, em entrevista coletiva trimestral online da instituição.


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