Dólar cai 0,13% com decisão do Banco Central Europeu
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Dólar cai 0,13% com decisão do Banco Central Europeu

Dúvidas sobre negociações entre EUA e China reduziram ritmo da queda e dólar fecha a R$ 4,05

Por
AE

Ibovespa emendou segundo dia de valorização e terminou quinta-feira aos 104.370,91 pontos

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Uma troca de afagos entre Estados Unidos e China e o pacote de estímulos à economia anunciado pelo Banco Central Europeu (BCE) animaram os mercados acionários nesta quinta-feira. Acompanhando o sinal positivo das bolsas em Nova York, o Ibovespa emendou o segundo dia de valorização e fechou a sessão desta quinta-feira em alta de 0,89%, aos 104.370,91 pontos - maior nível desde 18 de julho (104.716,59 pontos).

O principal índice da B3 foi impulsionado, sobretudo, pelo avanço expressivo de papéis ordinários da Vale (3,63%) e das siderúrgicas, na esteira da alta de 4,90% do minério de ferro no porto de Qingdao, na China. O Índice de Materiais Básicos (IMAT) liderou os ganhos entre os índices setoriais da B3, com valorização de 2,78%, Ainda entre as blue chips, destaque para o avanço dos papéis da Petrobras, a despeito da queda dos preços do petróleo, e da Ambev (+2,43%), após a ABInbev informar que retomou planos de lançar oferta pública de ações na bolsa de Hong Kong.

Investidores já iniciaram os negócios sob o impacto positivo de um tuíte publicado quarta à noite por Donald Trump. No que classificou com um "gesto de boa vontade" para com os chineses, Trump anunciou o adiamento da elevação de tarifas de 25% para 30% sobre US$ 250 bilhões em produtos da China de 1º de outubro para 15 de outubro. O anúncio do presidente americano veio horas depois de o país asiático decidir isentar 16 tipos de produtos dos EUA de tarifas extras por um ano, a partir do dia 17.
Também pela manhã surgiram relatos de que Trump estaria considerando a possibilidade de um acordo provisório com a China - o que levou a aceleração das bolsas americanas e o Ibovespa até à máxima dos 104.618,01 pontos. As informações foram refutadas por uma autoridade da Casa Branca em seguida, o que diminui levemente o ímpeto das bolsas.

"Os mercados estão muito sensíveis a essa questão da guerra comercial, já que pode prejudicar o crescimento da economia americana e global. Esses afagos trouxeram certo alívio, o preço do minério subiu e isso acabou dando força a papéis com peso no Ibovespa", diz Pedro Galdi, analista de investimentos da Mira Asset, acrescentando que o anúncio de estímulos pelo BCE contribuiu para o apetite por risco e serviu como uma amostra do que pode acontecer caso o Federal Reserve (Fed)anuncie uma nova redução dos juros na semana que vem, como esperado pelo mercado. "Se o Fed for agressivo e Trump e os chineses continuarem a mostrar sinais de que querem negociar, há espaço para uma nova rodada de alta do Ibovespa".

O Banco Central Europeu manteve a taxa de refinanciamento em 0%, mas cortou a taxa de depósito, de -0,40% para -0,50%, e anunciou um programa de aquisição mensal de 20 bilhões de euros em ativos a partir de novembro, que será mantido "pelo tempo que for necessário para reforçar o impacto acomodatício das suas taxas de política". O presidente do BCE, Mario Draghi, alertou que o raio de ação da política monetária é limitado e sugeriu que os países que puderem adotem estímulos fiscais - o que refreia as apostas em ações mais agressivas por parte do BCE.

Dólar

O dólar engatou nesta quinta-feira a terceira queda seguida, acompanhando o mercado internacional. O novo pacote de medidas do Banco Central Europeu (BCE) para estimular a atividade econômica da zona do euro ajudou a enfraquecer a moeda americana no exterior e fez a divisa cair a R$ 4,02 aqui na mínima do dia. Mas dúvidas sobre as negociações comerciais entre Estados Unidos e China reduziram o ritmo de desvalorização da moeda americana. O dólar à vista fechou em baixa de 0,13%, a R$ 4,0597, o menor nível em 20 dias.

O noticiário doméstico não teve repercussões no mercado cambial, que desde o início da semana esperava a reunião do BCE. Passado o evento, as expectativas se voltam agora para a reunião do Federal Reserve na semana que vem. Na Europa, o BCE cortou os juros e anunciou outras medidas, como um novo programa bilionário de compras de ativos sem prazo final para acabar.

Para a diretora em Nova York da BK Asset Management, Kathy Lien, o BCE foi "acima e além" do esperado ao anunciar o "amplo" pacote de estímulos. As medidas adicionais apontam que está praticamente garantido um corte de juros pelo Fed na semana que vem, o que tende a enfraquecer o dólar. Os economistas da High Frequency Economics esperam um corte de ao menos 0,25 ponto.

Na parte comercial, notícias de que Donald Trump adiaria a cobrança de tarifas adicionais em produtos chineses foram ofuscadas após a rede de televisão CNBC revelar que fontes da Casa Branca negaram a possibilidade de um acordo prévio entre as duas maiores economias do mundo. Com isso, o dólar aqui foi às máximas do dia, na casa dos R$ 4,07.

A moeda americana encontrou um "piso informal" na casa dos R$ 4,05. Níveis abaixo desse valor rapidamente atraem ordens de compra, segundo operadores. Para o chefe da mesa de câmbio da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, um desdobramento positivo nas negociações comerciais entre China e Estados Unidos pode levar a moeda americana abaixo desse nível. Ao mesmo tempo, ele observa que os juros historicamente baixos aqui, e que devem cair de novo na semana que vem, deixa o país pouco atrativo para o investidor financeiro, o que impede uma queda mais pronunciada do dólar. Outro fator é que as exportações brasileiras estão caindo, por causa da perda de fôlego da economia mundial, o que reduz a entrada de dólares pelo canal comercial.

Taxas de juros

O apetite pelo risco despertado ainda pela manhã desta quinta-feira com as decisões do Banco Central Europeu (BCE), reforçado ao longo do pregão pelos sinais de alívio nas tensões comerciais entre a China e os Estados Unidos, manteve os juros, principalmente os longos, em baixa o dia todo. Tal cenário externo favoreceu ativos de economias emergentes, enfraquecendo o dólar ante o real e reduzindo os prêmios no trecho longo, mas as taxas curtas também cederam. Os números da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS) de julho acima da mediana das estimativas não interferiram na percepção de que o Copom deve cortar a Selic para 5,5% na próxima semana, com espaço para ir a 5% no fim do ano ou até abaixo.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 encerrou a etapa regular em 5,265%, de 5,292% no ajuste de quarta, e a do DI para janeiro de 2021 terminou em 5,34% (mínima), de 5,378%. A taxa do DI para janeiro de 2023 recuou de 6,451% para 6,39% e a do janeiro de 2025 caiu de 7,001% para 6,95%.

Apesar da proximidade da decisão do Copom na semana que vem, o destaque da sessão foram os juros longos, em queda firme diante do contexto internacional favorável. Nos últimos dias, o mercado estava mais cauteloso sobre o quão "dovish" seria a decisão do BCE, que, contudo, não decepcionou. Além do corte de -0,4% para -0,5% na taxa de depósitos, a autoridade monetária anunciou um programa de recompra de títulos de 20 bilhões de euros ao mês a partir de novembro.

"De forma geral, Draghi (Mario Draghi, presidente do BCE) mostrou, mais uma vez, sua grande capacidade de contornar resistências e levar o BCE a continuar fazendo 'o que for necessário' para ajudar a sustentar o crescimento econômico e tentar levar a inflação de volta para a meta", disseram os analistas da MCM.

Na medida em que se acredita que outros bancos centrais irão no mesmo caminho de estímulos à liquidez, há melhora na perspectiva para a economia global, o que é positivo para os emergentes. Especialmente, se China e Estados Unidos chegarem a um consenso em suas relações comerciais, esperança que foi retomada nos últimos dias pela postura mais flexível apresentada por representantes de ambos os governos.

No Brasil, a precificação da curva a termo para a Selic no encontro do Copom dos dias 17 e 18 já aponta chance de 95% de queda de 0,5 ponto porcentual, segundo cálculos do Haitong Banco de Investimento, contra 5% de possibilidade de corte de 0,25 ponto.

A avaliação em relação ao plano de voo do Banco Central não mudou com os indicadores surpreendentemente positivos do varejo e serviços, na medida em que não há convicção de tendência firme de melhora de atividade para os próximos meses. "Os números dão a impressão que economia está retomando, de que há um respiro e num contexto sem pressão inflacionaria. Parece estar se formando um céu de brigadeiro para Copom cortar juros", afirma o estrategista de Mercados da Harrison Investimentos, Renan Sujii, lembrando que algumas instituições já preveem taxa básica de 4,75% no fim do ciclo.