Dólar cai a R$ 4,72, o menor nível desde abril de 2022

Dólar cai a R$ 4,72, o menor nível desde abril de 2022

Queda refletiu o otimismo do mercado com a melhora do rating brasileiro pela Fitch, de BB- para BB

AE

Dólar fechou cotado a R$ 5,68

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O dólar à vista recuou 0,46% em relação ao real nesta quarta-feira, 26, a R$ 4,7282 - a nova mínima do ano no fechamento e o menor nível desde 20 de abril de 2022 (R$ 4,6204). A queda refletiu o otimismo do mercado com a perspectiva de que o aumento de 25 pontos-base nos juros americanos anunciado hoje tenha marcado o fim do ciclo de aperto, além da melhora do rating brasileiro pela Fitch, de BB- para BB.

Essa combinação de fatores manteve a moeda americana em queda em relação ao real ao longo de quase todo o pregão, exceto por uma leve alta no início da sessão, quando tocou a máxima de R$ 4,7554 (+0,07%). Na mínima, recuou até R$ 4,7230 (-0,57%).

A melhora do rating brasileiro pela manhã firmou a divisa americana em queda ante o real, mas foi na etapa vespertina do pregão que o movimento se aprofundou, após a decisão de política monetária do Federal Reserve (Fed). Em linha com o esperado pelo mercado, o banco central americano aumentou os juros em 25 pontos-base, à faixa de 5,25%-5,50%, e não sinalizou um novo aumento iminente nas taxas.

Na coletiva após a decisão, o presidente do Fed, Jerome Powell, optou por não descartar, mas também não cravar, a chance de uma nova alta de juros em setembro - o que animou a ala do mercado que acredita que o aumento de juros hoje tenha marcado o fim do ciclo de aperto. Powell afirmou que as próximas decisões vão depender de dados e considerou que elevar os juros até que a inflação volte à meta seria uma "estratégia errada."

"Ele não traçou um viés de alta, só falou que iria analisar os dados. E, só de não traçar um viés, o mercado entende que não haverá mais subidas de juros, tanto que isso causou uma queda do dólar contra outras moedas fortes", afirma o economista-chefe da Frente Corretora, Fabrizio Velloni, lembrando da baixa de 0,33% anotada pelo índice DXY nesta quarta-feira, a 101,015 pontos.

Para o chefe da tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, a decisão do Fed acabou servindo como um "não-evento" na sessão, uma vez que a alta de 25 pontos-base ficou em linha com o esperado e que as declarações de Powell deram poucas pistas sobre o futuro da política monetária. Isso, combinado à melhora do rating brasileiro, abriu espaço para valorização do real.

"A verdade é que, sem notícias ruins da economia internacional, a tendência é de vermos o dólar escorregando até um nível perto de R$ 4,70", diz Weigt. Para o especialista, a melhora do rating brasileiro pela Fitch pode ter um efeito positivo para os ativos brasileiros, embora ele deva ser limitado, uma vez que o País continua distante do grau de investimento, que é mais atrativo para investidores institucionais.

Velloni, da Frente, afirma que o aumento da nota de crédito soberano do País pode resultar na atração de mais investimentos estrangeiros. Para o analista, o mais provável é que o dólar se mantenha em torno de R$ 4,75 enquanto o mercado aguarda não apenas a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima quarta-feira, 2, mas também a retomada da agenda legislativa a partir de 1º de agosto.

Ibovespa

Mesmo com a elevação da classificação de risco de crédito do Brasil, de BB- para BB, anunciada de manhã pela Fitch, o Ibovespa manteve cautela até a entrevista coletiva do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, quando veio a cereja do bolo - que, não obstante, viria a perder parte do sabor em direção ao fim da tarde, especialmente em Nova York. A princípio, animou os investidores a possibilidade de o Fed manter a taxa de juros de referência dos Estados Unidos no nível a que foi elevada nesta quarta-feira, 26, em 25 pontos-base conforme se esperava - ou seja, os Fed Funds poderiam permanecer na faixa de 5,25% a 5,50% na próxima reunião, em setembro.

Depois do intervalo decidido pelo Fed na reunião de junho - quando vinha de 10 elevações seguidas -, a chance de uma nova pausa no processo de aumento dos custos de crédito na maior economia do globo levou os três índices de ações em Nova York a se alinharem então em alta, nas respectivas máximas da sessão. O que impulsionou também o Ibovespa, que chegou a subir 0,61%, aos 122.746,72 pontos, no melhor momento desta quarta-feira.

Ao fim, o índice da B3 mostrava avanço um pouco mais acomodado, em alta de 0,45%, aos 122.560,38 pontos, no que foi seu quinto ganho diário consecutivo - e agora no maior nível de encerramento desde 9 de agosto de 2021, então aos 123.019,38 pontos. Na abertura, o Ibovespa apontava hoje 122.002,76 e, na mínima do dia, voltou para 121.370,43 pontos. O giro financeiro desta quarta-feira ficou em R$ 21,9 bilhões. Na semana, o Ibovespa sobe 1,95% e, no mês, 3,79% - no ano, o avanço é de 11,69%.

Em Nova York, os índices de referência não sustentaram a recuperação ensaiada no meio da tarde, sem direção única no fechamento do dia: Dow Jones +0,23%, S&P 500 -0,02% e Nasdaq -0,12%. Passado o apetite por risco suscitado por Powell, veio o refluxo do entusiasmo dos investidores com o mesmo Powell: a indicação dada nesta tarde pelo presidente do Federal Reserve para setembro se fez acompanhar de ressalvas, que recolocaram o mercado na defensiva.

Powell apontou que o processo de redução da inflação para a meta de 2% demandará um período de crescimento econômico abaixo do potencial. Segundo ele, alguma perda de fôlego no mercado de trabalho continua a ser o resultado esperado da recente escalada de juros. Ele indicou também que o Fed está preparado para apertar mais a política monetária, caso seja necessário. E se recusou a fornecer um "forward guidance" mais explícito, sob a justificativa de um nível elevado de incertezas.

"A mensagem do presidente do Fed não pôde ser considerada muito 'dovish', ou seja, mais flexível perante a inflação. Nesse cenário, o rumo dos juros na maior economia do mundo seguirá incerto, representando o principal fator de atenção entre investidores ao redor do mundo", observa em nota Rachel de Sá, chefe de economia da Rico Investimentos.

"Powell manteve que, nas próximas reuniões, o esforço para trazer a inflação à meta de 2% ao ano continuará a ser feito, com todos os mecanismos e ações possíveis, e que as pessoas não devem duvidar disso", diz Acilio Marinello, coordenador do MBA Executivo em Digital Finance da Trevisan Escola de Negócios, acrescentando que os dados macroeconômicos é que definirão se os juros americanos serão mantidos ou se ainda subirão.

"Ficou bem claro o sinal de que o Fed continuará a acompanhar os dados e os efeitos do aperto monetário para entregar a meta de inflação de 2%", diz João Piccioni, analista da Empiricus Research.

"O obstáculo para a inflação desacelerar ainda mais é o mercado de trabalho dos EUA, que continua robusto - as folhas de pagamento surpreenderam positivamente por mais de um ano. O bom desempenho do mercado de trabalho seguirá apoiando a renda disponível e o consumo, o principal motor econômico dos Estados Unidos", observa em nota Camila Abdelmalack, economista-chefe da Veedha Investimentos. "Esse contexto é necessário para explicar a razão de o Federal Reserve não fechar a porta para novas elevações", acrescenta.

Nesse contexto de incertezas, as ações de maior peso e liquidez na B3 encerraram o dia sem sinal único, e com variações contidas. Vale ON cedeu 0,35%, enquanto Petrobras ON caiu 0,43% e a PN fechou sem variação. Entre os grandes bancos, o sinal foi majoritariamente positivo (Bradesco PN +1,03%, Itaú PN +0,56%), à exceção da Unit de Santander Brasil (-0,34%), instituição que havia divulgado balanço trimestral antes da abertura desta quarta-feira. Na ponta do Ibovespa, destaque para Méliuz (+8,91%) e Carrefour Brasil (+8,09%), com Ultrapar (-1,81%) e Cogna (-1,74%) no lado oposto.

Juros

Os juros futuros oscilaram entre queda moderada nos vencimentos de curto e médio prazos, enquanto os vértices longos rondaram os ajustes, durante todo o dia, com impactos limitados tanto do comunicado do Federal Reserve seguido da entrevista do presidente da instituição, Jerome Powell, quanto da elevação do rating de crédito do Brasil pela Fitch, de BB- para BB.

Enquanto o texto deixou em aberto os próximos passos da política monetária americana, as indicações de Powell foram lidas como "levemente" dovish. Assim, a curva local acabou espelhando a dos Treasuries - o yield da T-Note de 2 anos caiu mais do que o retorno da de 10 anos. Já a melhora da nota soberana é vista como positiva, mas esperada.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 caiu de 12,63% para 12,61%, ainda no menor nível desde 4/5/2022 (12,51%), e a do DI para janeiro de 2025, de 10,63% para 10,60%. O DI para janeiro de 2027 tinha taxa de 10,15%, de 10,14% ontem. A do DI para janeiro de 2029 estava em 10,56%, de 10,52%.

A decisão de elevar a taxa dos Fed funds em 25 pontos-base, para a faixa de 5,25% e 5,50%, estava precificada e o mercado buscava sinalização sobre se esta seria a última alta do ciclo. Ainda que o comunicado tenha deixado tal possibilidade em aberto e que Powell tenha evitado dar "forward guidance", as apostas em mais uma elevação de juros até dezembro recuaram.

Incluídas as ponderações de praxe, como a de que a inflação ainda segue bem acima da meta de 2% e há "um caminho pela frente" no processo de desinflação, Powell disse que elevar os juros até inflação chegar à meta "seria estratégia errada" e que há sinais de arrefecimento da demanda no mercado de trabalho.

"O comunicado foi neutro, mas Powell novamente mostrou que não quer mais subir os juros. O discurso é de quem quer parar, mas temos de aguardar os próximos dados", disse a economista-chefe da B.Side Investimentos, Helena Veronese.

Tanto nos Treasuries quanto nos DIs, a reação mais visível foi na ponta curta, ainda que no livro-texto as taxas longas no Brasil sejam as mais influenciadas pelo humor externo. Porém, no raciocínio do mercado, se o juro nos EUA não subir mais no curto prazo, haverá melhora do câmbio via diferencial de juros e "menor pressão sobre o BC".

Com o compasso de espera pelo Fed prevalecendo em boa parte do dia, o impacto do anúncio da Fitch acabou sendo limitado, até porque era, em boa medida, esperado após a S&P ter elevado a perspectiva do rating brasileiro. A mudança é vista como positiva, mas os agentes continuam relativamente céticos sobre possibilidade de o Brasil voltar a conquistar o grau de investimento ainda no governo Lula, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse hoje acreditar.


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