O dólar fechou em queda ante o real nesta quarta-feira, pelo segundo dia consecutivo no mercado à vista, após a sinalização do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) de que pode levar algum tempo para aumentar os juros nos Estados Unidos. A expectativa em torno do banco central norte-americano prevaleceu sobre o turbulento noticiário político brasileiro, que incluiu hoje a delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, na qual foi citado o presidente em exercício Michel Temer (PMDB) e outros 20 políticos.
A moeda no mercado à vista terminou em baixa de 0,25%, aos R$ 3,4714 no balcão. O giro financeiro somou US$ 1,908 bilhão, ajudado pela alta volatilidade no dia, de 1,49% entre a mínima e a máxima intraday. O dólar futuro para julho fechou com recuo de 0,19%, cotado em R$ 3,4895, com giro financeiro de US$ 15,668 bilhões.
Em entrevista coletiva, a presidente do BC norte-americano, Janet Yellen, ajudou a fortalecer as impressões do mercado ao ressaltar que "vamos continuar a monitorar a inflação atual e esperar progresso em direção à meta (de 2% ao ano)". Os comentários, que incluíram ainda preocupações com o Brexit, foram proferidos após o Fed anunciar a manutenção das taxas dos Fed Funds entre 0,25% e 0,50% e da taxa de redesconto em 1,00%.
Antes de acelerar a queda em reação ao Fed, entretanto, o dólar chegou a subir pontualmente à tarde. A alta momentânea foi decorrente das citações do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado em delação premiada homologada pelo STF. De acordo com o delator, 20 políticos teriam recebido propinas no esquema de corrupção na subsidiária da Petrobras e também o presidente em exercício Michel Temer teria pedido ao delator doações para a campanha de Gabriel Chalita (PMDB) à Prefeitura de São Paulo em 2012.
Segundo a delação de Sergio Machado, todos os políticos citados por ele "sabiam" do funcionamento do esquema de corrupção capitaneado por ele na estatal e "embora a palavra propina não fosse dita, esses políticos sabiam, ao procurarem o depoente, que não obteriam dele doação com recursos do próprio, enquanto pessoa física, nem da Transpetro, e sim de empresas que tinham relacionamento contratual com a Transpetro".
Mais cedo, a divisa norte-americana também mostrou tendência de queda, em meio à entrevista do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, sobre a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do teto de gastos, apresentada hoje aos líderes do Congresso.
Bovespa
Em um dia marcado pela volatilidade, a Bovespa alternou altas e baixas e terminou esta quarta-feira com ganho de 0,55%, aos 48.914,74 pontos. O cenário político voltou a trazer alguma preocupação aos investidores, mas o principal foco de atenções foi mesmo o Fed e a fala "dovish" (suave) de Janet Yellen. A bolsa brasileira movimentou R$ 15,364 bilhões, inflados pelos R$ 3,774 bilhões do exercício de opções sobre o Ibovespa.
O discurso suave da presidente do Fed teve efeito positivo, mas limitado nos mercados de renda variável. A Bovespa acelerou os ganhos, mas esbarrou na virada das bolsas americanas para o terreno negativo, no final dos negócios. A alta do Ibovespa foi sustentada principalmente pelas ações dos setores de mineração, siderurgia, metalurgia e petróleo, que recuperaram parte das perdas recentes, mesmo em meio à queda das commodities. Petrobras ON e PN avançaram 1,53% e 2,53%, respectivamente. Vale ON (+2,53%) e Vale PNA (+3,22%) também se destacaram.
O cenário político doméstico foi forte fator de volatilidade para o mercado de ações, mas teve efeito bastante pontual. A notícia sobre a homologação da delação premiada de Sergio Machado, incluindo o nome do presidente em exercício Michel Temer, chegou a derrubar a Bovespa para o terreno negativo após as 14h. O Ibovespa chegou a tocar a mínima de 48.324 pontos (-0,67%), até que os investidores assimilaram que a notícia não continha novidades em relação ao que já havia sido revelado em gravações.
Com o resultado de hoje, o Ibovespa passa a contabilizar alta de 0,92% em junho e de 12,84% em 2016.
Taxas de juros
Os juros futuros encerraram a sessão regular desta quarta-feira na BM&FBovespa com viés de alta, a despeito da sinalização do Fed de que deve esperar mais para elevar os juros nos EUA e da apresentação, bem recebida, da PEC que propõe um teto balizado pela inflação para o limite dos gastos do governo por 20 anos. Operadores nas mesas de renda fixa afirmaram que, apesar do noticiário justificar alívio nas taxas, o investidor optou por uma postura mais cautelosa em meio às incertezas do quadro político e antes do leilão de títulos prefixados amanhã.
Ao término da negociação regular, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2017 projetou 13,745%, de 13,740% no ajuste de ontem, com 112.495 contratos. O DI janeiro de 2018 (192.495 contratos) encerrou em 12,72%, de 12,69% no ajuste anterior. Com 154.720 contratos, o DI para janeiro de 2019 fechou em 12,58%, de 12,52%. O DI janeiro de 2021 (177.170 contratos) fechou em 12,67%, de 12,63%.
Após uma manhã sem definição de tendência, as taxas passaram a cair de forma discreta depois da divulgação dos detalhes da PEC e da entrevista de Meirelles, para explicar as medidas, no início da tarde. "A PEC foi bem recebida entre os economistas, tanto na forma, quanto na maneira como Meirelles conduziu as negociações e pelo fato de Temer não ter cedido às pressões para reduzir o prazo. Mas o mercado não reagiu tanto e foi resistente em promover um rali", disse o estrategista da Icap Brasil, Juliano Ferreira.
Após a entrevista de Meirelles, as taxas tiveram uma guinada para cima com a informação da delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado envolvendo Temer. Na sequência, minutos antes da divulgação da decisão do Fed, o mercado iniciou a devolução de parte do estresse, com a releitura de que se tratava de uma notícia velha.
Quanto ao Fed, a leitura é de que os sinais são "dovish", principalmente em função da revisão para baixo nas projeções para juro feitas pelo BC norte-americano. Para 2017, a mediana em março era de 1,875% e a de agora ficou em 1,625%. O mercado destacou ainda que, em março, apenas um dirigente esperava uma única elevação de juros este ano e agora são seis membros.
Dólar cai após sinais de manutenção de juros nos EUA
Moeda americana fechou o dia aos R$ 3,47