Numa sessão bastante tensa nesta sexta-feira, o dólar voltou a disparar ante o real e atingiu o maior valor em quase 12 anos. As preocupações com a economia brasileira e com a crise política se somaram ao firme avanço do dólar no exterior, em meio à avaliação do Fed (banco central americano) está próximo de elevar sua taxa de juros. No pior momento do dia, o dólar chegou a se aproximar dos R$ 3,28, para depois encerrar em patamar um pouco menor, aos R$ 3,26, com alta de 3,36% no balcão. Este é o maior valor para a moeda desde 2 de abril de 2003. Fontes do governo se movimentaram após o encerramento dos negócios à vista, citando inclusive "claro exagero" na alta. Isso impactou a moeda para abril, que subia um pouco menos no final da tarde (+2,34%, aos R$ 3,2605).
Pela manhã, as tensões internas, amplificadas pelo retorno das manifestações em várias cidades do País, já abriam espaço para a busca de dólares. No exterior, a moeda americana também subia ante várias divisas, com investidores se posicionando antes da reunião do Fed, na próxima semana. A leitura era de que o banco central americano tende a dar sinais de que a alta de juros está próxima.
O movimento foi intensificado no início da tarde, após indícios de que o governo vê parte da alta do dólar como especulação e que não queimará reservas para conter o avanço. Em meio à leitura de que o BC não entrará nos negócios, o dólar chegou a se aproximar dos R$ 3,28, para depois se acomodar, em patamares mais baixos. Na máxima, a moeda de balcão marcou R$ 3,27 (+3,96%). Mais cedo, havia marcado a mínima de R$ 3,18 (+0,89%).
A pressão foi tão forte que, no meio da tarde, o dólar para janeiro de 2016 era precificado acima dos R$ 3,53. Os contratos futuros de dólar para prazos mais distantes não são líquidos na BM&FBovespa, mas operadores precificam a moeda com base na variação para abril, da curva de DI e da curva de cupom cambial. Com isso, players que tentassem fechar negócios nesta tarde no mercado de opções cambiais, por exemplo, encontrariam cotações próximas dos R$ 3,53 somadas ao spread dos bancos.
No mercado à vista de Forex (câmbio internacional), o real era a moeda que acumulava a maior perda de valor, em 2015, ante o dólar. Durante a tarde, o avanço acumulado este ano do dólar ante o real neste mercado estava acima de 22% - bem mais que os cerca de 15% que a divisa dos EUA tinha acumulado ante a coroa dinamarquesa (segunda que mais perdeu no ano até agora).
Pouco depois do fechamento da moeda de balcão, fontes do governo disseram que o BC tem procurado mostrar que o ajuste no câmbio tem que se dar de maneira suave e que a instituição vê claro exagero na alta do dólar no Brasil. A autoridade monetária avalia que o movimento do dólar hoje reflete olhar de curto prazo, devido à reunião do Federal Reserve na próxima semana. As declarações levaram o dólar para abril a desacelerar a alta, mas a moeda se fortaleceu novamente com comentários, de outra fonte da equipe econômica, de que o governo não vai intervir no câmbio.
As taxas dos contratos futuros de juros acompanharam hoje a disparada do dólar e subiram de forma consistente. Do meio da tarde para frente, as taxas futuras desaceleraram, com os agentes reconhecendo os exageros vistos mais cedo e também diante da possibilidade limitada de um choque de juros diante da situação da atividade.
Ainda assim, as notícias - depois desmentidas - de que Petrobras adiaria a divulgação de seu balanço auditado, a não atuação direta do Banco Central no câmbio e as tensões sobre as manifestações contra e a favor do governo Dilma Rousseff acabaram pesando. Ao término da negociação regular na BM&FBovespa, o DI para julho de 2015 marcava 13,17%, de 13,13% no ajuste anterior.
A crise política voltou a justificar o nervosismo na Bovespa nesta sexta-feira. Com os receios de que o País possa até perder o grau de investimento, o movimento vendedor ganhou força por causa de duas informações. A primeira de que Joaquim Levy, ministro da Fazenda, teria ameaçado se demitir na quinta-feira se não fosse aprovado no Senado o veto da presidente Dilma Rousseff à prorrogação até 2042 dos subsídios sobre a energia elétrica para grandes empresas do Nordeste. O governo venceu o embate no Senado e Levy teria negado a possibilidade de demissão. A outra, depois negada, foi a de que a Petrobras conversava com credores para adiar seis meses a divulgação de seu balanço auditado.
Os papéis chegaram a aliviar as perdas exibidas mais cedo, com a ON caindo 1,57% e a PN, 2,35%. No pior momento do dia, o Ibovespa chegou a perder pontualmente o patamar de 48 mil pontos, recuperado mais tarde quando o noticiário se esvaziou. O Ibovespa terminou em baixa de 0,58%, aos 48.595,81 pontos. Na mínima, marcou 47.905 pontos (-2%) e, na máxima, registrou 48.858 pontos (-0,05%). Pela segunda semana consecutiva terminou com perdas, de 2,77%. No mês, já cai 5,79% e, no ano, 2,82%. O giro financeiro totalizou R$ 7,358 bilhões.
Dólar dispara para R$ 3,26
Com a alta, este é o maior valor para a moeda desde de abril de 2003