Dólar fecha a R$ 5,38 com atrito entre Poderes após ação de Bolsonaro no radar

Dólar fecha a R$ 5,38 com atrito entre Poderes após ação de Bolsonaro no radar

Em agosto, a moeda norte-americana acumula valorização de 3,30%

AE

O dólar à vista até abriu em queda, alinhado ao movimento externo de enfraquecimento da moeda americana

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As tensões político-institucionais domésticas, com o novo embate entre o presidente da República, Jair Bolsonaro, e o Supremo Tribunal Federal, impediram que o real se beneficiasse mais amplamente da onda global de enfraquecimento global da moeda americana no pregão desta segunda-feira dia marcado por forte apetite por ativos de risco lá fora. A avaliação das mesas de operação é que a postura de Bolsonaro - que entrou, na sexta-feira, com pedido de impeachment do ministro Alexandre de Moraes, do STF - turva o horizonte e aumenta o prêmio de risco exigido pelos investidores para carregar ativos locais.

Teme-se que o aumento do estresse no campo político prejudique a tramitação da PEC dos Precatórios, essencial para resolver imbróglio em torno do cumprimento do teto de gastos, e leve Bolsonaro a novas investidas populistas, em meio à convocação para manifestações no 7 de setembro.

O dólar à vista até abriu em queda, alinhado ao movimento externo de enfraquecimento da moeda americana, e desceu até a mínima R$ 5,3460 (-0,72%). Mas o apetite por real durou pouco e, logo em seguida, investidores optaram por realizar lucros e recompor posições defensivas - o que não apenas fez o dólar trocar de sinal como correr até a máxima de R$ 5,4022 (+0,32%).

Pela manhã, em entrevista a uma rádio do interior de São Paulo, Bolsonaro voltou a levantar suspeitas sobre a lisura das urnas eletrônicas. O presidente também desafiou governadores a zerar o ICMS sobre botijão de gás e disse que pode criar o chamado vale gás. Em resposta aos ataques de Bolsonaro ao STF e à legitimidade das eleições, governadores de 20 Estados e do Distrito Federal, aprovaram nesta segunda-feira no fim da manhã a criação de uma frente para a defesa da democracia.

Passado o momento de maior estresse, a moeda norte-americana operou ao redor da estabilidade ao longo da tarde, alternando entre pequenas altas e baixas, em meio a um ambiente de liquidez reduzida. O giro com o contrato de dólar futuro para setembro foi reduzido, de apenas US$ 11 bilhões, o que mostra falta de apetite para os negócios.

No fim do dia, o dólar à vista era negociado a R$ 5,3820 (-0,05%). Em agosto, a moeda americana acumula valorização de 3,30%.

Para o especialista em câmbio da Valor Investimentos, Rafael Ramos, o embate entre os Poderes, que se acentuou com o pedido de impeachment de Moraes, provoca um desconforto cada vez maior dos investidores com o cenário político. "Isso acaba poluindo os mercados e traz aversão ao risco. Esta tende a ser uma semana de forte volatilidade no câmbio", afirma.

Alvo do pedido de impeachment por parte de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes autorizou, nesta segunda-feira à tarde, que a Polícia Federal colha novos depoimentos no bojo da investigação de suposta interferência do presidente da República na PF.

Já o ministro da Economia, Paulo Guedes, tentou jogar panos quentes e disse que espera uma moderação dos "excessos" de ambas as partes, para garantir a recuperação econômica. "Muito tem se falado do déficit, sobre a possibilidade de descontrole fiscal, mas os fundamentos continuam indicando que estamos fazendo trabalho certo", disse.

"A dificuldade de encontrar um texto de consenso para reforma do IR e as implicações da PEC dos Precatórios, que continua sendo lida como uma mudança de regime fiscal, foram mais preponderantes para a moeda (além dos juros e bolsa)", afirma, em relatório, a economista-chefe da Armor Capital, Andrea Damico, ressaltando que, em um contexto de queda de popularidade de Bolsonaro, crescem as pressões por "benesses eleitorais" como o aumento do Bolsa Família, o vale gás, a isenção de tributos para o diesel e o Refis.

Lá fora, o DXY - que mede o desempenho da moeda americana frente a seis divisas fortes - renovou mínimas na etapa vespertina, negociado abaixo da linha dos 93 mil pontos. O dólar também perdia força em relação a moedas emergentes e de países exportadores de commodities, à exceção do peso argentino.

Entre os indicadores externos, destaque para o resultado aquém do esperado do índice de gerente de Compras (PMI, na sigla em inglês) nos EUA em agosto, apontando perda de fôlego da indústria e do setor de serviços. Investidores aguardam a fala do presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Jerome Powell, no Simpósio de Jackson Hole (EUA), na sexta-feira, 27, para calibrar as apostas em relação ao início da redução dos estímulos monetários.

Juros

Os juros futuros fecharam a segunda-feira em alta, apesar da busca por risco nos mercados internacionais. Houve ganho de inclinação na curva com os novos capítulos da crise político-institucional desde a noite da sexta-feira. As taxas de médio e longo prazos voltaram nesta segunda à tendência de alta considerada natural diante do agravamento das tensões entre o Executivo e o STF e provocações de Jair Bolsonaro aos governadores. Na agenda, a pesquisa Focus mostrou nova deterioração das estimativas para inflação e crescimento.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023, o mais negociado, fechou em 8,49%, de 8,41% no ajuste de sexta-feira, e a do DI para janeiro de 2025 subiu de 9,565% para 9,74%. O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxa de 10,19%, de 10,004%.

O economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Camargo Rosa, lembrou que lá fora o dia foi tranquilo, com o dólar em queda e juros dos Treasuries em alta mostrando que não houve busca por segurança. O petróleo e parte das commodities agrícolas também subiram. "O que pesa são mesmo as nossas questões domésticas colocando as reformas e o fiscal em risco", explicou o economista.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, segue tentando colocar panos quentes, mas admitiu que a atitude do presidente da República dificulta o restabelecimento do diálogo e garantiu que não admitirá nenhum tipo de retrocesso no Estado de Direito. Na leitura dos analistas, a aprovação do ex-ministro da Justiça André Mendonça, indicado por Bolsonaro, para uma vaga no STF, por exemplo, já subiu no telhado, o que pode provocar nova ofensiva do presidente. Em outra frente, liderados por João Doria, governadores já se mobilizam para a realização de uma reunião com os chefes dos três Poderes em defesa da democracia.

"Cada declaração de um lado e de outro põe mais lenha na fogueira e quem sofre é a economia", disse Camargo Rosa, destacando os números da pesquisa Focus, que mostra um cenário estagflacionário das estimativas. Enquanto as medianas para o IPCA 2021 e 2022 subiram para 7,11% e 3,93%, acima das metas de inflação, a projeção de PIB para este e o próximo ano caíram a 5,28% e 2,00%.

Para André Perfeito, economista-chefe da Necton Investimentos, mais do que altas ao longo de toda a curva, o que realmente impressiona é a esticada em relação ao mês anterior. "Está evidente que o mercado mudou de vez o tom com Brasília, mas mesmo depois de tanta alta o mercado segue nervoso sem saber qual o patamar que equilibra seus receios com a piora do cenário", comentou, lembrando ainda que nesta segunda, em São Paulo, Doria afastou o coronel Aleksander Lacerda após o policial militar convocar seus comandados à manifestação bolsonarista do dia 7 de setembro.

Bolsa

Com dólar chegando a atingir R$ 5,40 na máxima do dia, o Ibovespa mais uma vez não conseguiu aproveitar a carona do exterior, com o refluxo da aversão global a risco levando S&P 500 e Nasdaq a novas máximas históricas intradia - pico renovado também no fechamento para o índice de tecnologia -, em sessão positiva desde cedo nos mercados da Europa e da Ásia.

Refletindo fatores internos, associados ainda à perspectiva para o fiscal em meio ao acirramento de crise política e institucional, o índice de referência da B3 caiu 0,49%, a 117.471,67 pontos, entre mínima de 117.062,04 e máxima de 118.445,18, saindo de abertura a 118.052,54 pontos nesta segunda-feira. No ano, acumula agora perda de 1,30%, cedendo 3,55% em agosto. O giro financeiro ficou em R$ 30,8 bilhões na sessão.

"Os mercados lá fora estiveram animados, com alta desde a sessão da Ásia, após o governo chinês informar não ter havido novos casos de coronavírus no país. Entre as commodities, grande destaque para a recuperação dos preços do petróleo. O evento mais aguardado da semana virá na sexta-feira, com o encontro anual de Jackson Hole, do Federal Reserve", diz Bruno Madruga, head de renda variável da Monte Bravo Investimentos.

Na China, foi a primeira vez desde julho que não houve nenhum caso local de covid-19, "o que mostra uma possível estabilidade no surto da doença", diz Túlio Nunes, especialista de finanças da Toro Investimentos, chamando atenção também, no país, para "avanços nas aprovações de abertura econômica, após polêmicas no que tange à regulação".

Nesta segunda, com alta acima de 5% para o Brent e o WTI, o desempenho positivo de Petrobras (ON +3,35%, PN +1,58%), assim como das ações de grandes bancos (Santander +1,34%, Itaú PN +1,07%), contribuiu para que uma correção mais forte no Ibovespa fosse evitada na contramão do exterior. Na ponta negativa do Ibovespa, destaque para queda de 6,08% em Lojas Americanas, à frente de Americanas ON (-4,25%) e de Eneva (-4,21%). Na face oposta, Embraer subiu 5,28%, CVC, 4,39%, e PetroRio, 3,61%.

Aqui, o enfraquecimento político do governo mantém o mercado na defensiva quanto ao fiscal, em meio a uma reforma de IR polêmica - com votação remarcada para esta semana na Câmara, após adiamentos - e formação, hoje, de uma frente de governadores contra ameaças percebidas à democracia.

"Investidores locais mantêm o foco na crise de confiança instalada pelo presidente Jair Bolsonaro e por temores de piora das contas públicas com as eleições no ano que vem", observa em nota a equipe de análise da Terra Investimentos.

"A taxa de câmbio está precificando muito mais o risco político, o risco fiscal. Se esses riscos forem atenuados, o que não é muito visível nesse momento, a taxa de câmbio tenderia a valorizar um pouco, mas por enquanto o cenário ainda está em fase mais difícil. Estamos num ponto de inflexão, um 'turning point' no cenário econômico: aquele cenário que era de expectativa por crescimento maior, principalmente no quarto trimestre, ainda existe, mas está perdendo intensidade", diz Nicola Tingas, economista-chefe da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).

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