A Bovespa chegou a ensaiar uma discreta alta na manhã desta segunda-feira, mas sucumbiu diante da aversão ao risco no mercado internacional e fechou em queda de 1,72%, com o Índice Bovespa em 49.245,53 pontos. A queda acompanhou o movimento negativo das bolsas na Europa e nos Estados Unidos, em meio às dúvidas sobre até que ponto a saída do Reino Unido da União Europeia vai interferir no ritmo da economia global.
A baixa do Índice Bovespa foi puxada principalmente pelas ações do setor bancário, sintonizadas com seus pares internacionais. No segundo pregão após o resultado do plebiscito que aprovou o "sim" ao Brexit por 51,9% dos votos, o índice FTSE 100, da bolsa de Londres, caiu 2,55%, tendo as ações do Barclays (-17,35%) entre os principais destaques. As ações de bancos refletem o temor de fuga de recursos de bancos europeus. As ações do segmento financeiro negociadas no Brasil seguiram a tendência, tendo Bradesco PN (-3,95%), Itaú Unibanco (-3,35%) e Santander Unit (-2,39%) entre os principais destaques.
As ações da Petrobras também foram destaque de baixa, ao acompanhar a desvalorização dos preços do petróleo nas bolsas de Nova York (-2,75%) e Londres (-2,58%). Ao final do pregão, Petrobras ON teve perda de 5,51% e Petrobras PN, de 5,08%. Já a alta de 3,5% do minério de ferro no mercado à vista chinês não foi suficiente para sustentar as ações da Vale em alta. Os papéis chegaram a subir pontualmente, mas se renderam às ordens de venda ainda pela manhã e terminaram o dia em queda de 2,70% (ON) e de 1,72% (PNA).
Assim como aconteceu na sexta-feira, a queda da Bovespa nesta segunda foi considerada "comedida" pelos analistas. Embora as ordens de venda de ações tenham sido comandadas pelos investidores estrangeiros, o volume de negócios continuou baixo. Foram movimentados R$ 5,337 bilhões, contra R$ 6,488 bilhões da média diária de junho.
Para analistas ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, a queda ainda reflete uma correção de preços, uma vez que os mercados vinham operando nos últimos dias animados pela expectativa de que o Brexit não se concretizaria. Entre as ações que compõem o Ibovespa, as maiores altas do dia ficaram com Cosan ON (+2,27%), Raia Drogasil ON (+2,05%) e BB Seguridade ON (+1,95%). Com o resultado de hoje, o Ibovespa passa a acumular alta de 1,60% em junho e de 13,60% em 2016.
Dólar
As preocupações em torno da saída do Reino Unido da União Europeia mantiveram a alta do dólar ante o real nesta segunda-feira, em linha com o movimento do câmbio lá fora. A libra esterlina seguiu em baixa. O dólar à vista no balcão fechou aos R$ 3,3918, em alta de 0,42%, com aumento do volume total de negócios, para US$ 2,734 bilhões, ante US$ 1,667 bilhão na última sexta-feira. No mercado futuro, o dólar para julho encerrou em alta, de 0,50%, aos R$ 3,3970, com giro de US$ 14,306 bilhões.
Como consequência da decisão britânica, as notas de crédito do Reino Unido foram rebaixadas hoje pelas agências Standard & Poor's e Fitch. A S&P cortou o rating de longo prazo do Reino Unido de AAA para AA, e manteve a perspectiva negativa. A alegação é de que o Brexit "irá enfraquecer a previsibilidade, a estabilidade e a efetividade do cenário político no país, afetar a economia e o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), bem como seu equilíbrio fiscal e externo". Já a Fitch reduziu a nota de AA+ para AA, com perspectiva negativa, sob o argumento de que o Brexit prejudicará a economia, finanças e política do Reino Unido.
A valorização do dólar frente o real, porém, foi mais contida que no exterior. Isso devido a ingressos de recursos estrangeiros no mercado doméstico. Pesou também a perspectiva de migração de fluxo para cá decorrente da possibilidade de injeção de liquidez por bancos centrais nos mercados para estimular e garantir a estabilidade da economia. Além disso, o aumento da aposta no adiamento da alta de juros nos EUA para início de 2017 ajudou a conter a desvalorização do real.
Segundo operadores de câmbio, houve um movimento de antecipação da rolagem de contratos cambiais (dólar futuro e FRA de cupom cambial) na sessão, que favoreceu a elevação do volume de negócios em geral e também das taxas no mercado de cupom cambial de curto prazo. A taxa do FRA de cupom de agosto na BM&FBovespa subia a 4,00% no final da tarde de
segunda-feira, ante taxa de 3,75% do fechamento na sexta-feira.
Taxas de juros
A semana começou com queda firme das taxas futuras de juros, ainda sob a percepção de que o Brexit pode ter efeitos positivos para o Brasil, sobretudo a atração de fluxo externo, e também influenciada pela expectativa com a divulgação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI), nesta terça-feira, 28. Ao término da negociação regular na BM&FBovespa nesta segunda-feira, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2017 (197.205 contratos) fechou com taxa de 13,650%, de 13,690% no ajuste de sexta-feira. O DI janeiro de 2018 (225.320 contratos) caiu de 12,64% para 12,53%. O DI janeiro de 2019 (176.970 contratos) encerrou em 12,19%, de 12,39%. O DI janeiro de 2021 fechou em 12,23%, na mínima, ante 12,44%, com 135.700 contratos.
Diante da perspectiva de que a saída do Reino Unido da União Europeia tende a elevar o nível de flexibilização da política monetária dos principais bancos centrais no mundo, de forma a evitar impactos sobre o crescimento, o comportamento da curva espelhou a avaliação de que o Brexit vai abrir oportunidade para aplicação de investidores estrangeiros, ideia que já dava as cartas no mercado na sexta-feira.
Após abrirem levemente pressionados para cima, os juros se descolaram da alta do dólar durante a sessão e se firmaram em baixa, com destaque para o trecho longo da curva, que reflete melhor a percepção de risco do investidor. "Num primeiro momento de aversão ao risco generalizado, os emergentes são colocados todos no mesmo cesto. Depois, há um filtro e alguns emergentes com determinadas características, no caso do Brasil os juros altos, conseguem se beneficiar", disse o economista-chefe da Guide Investimentos, Ignácio Rey.
Quanto ao RTI, a expectativa é grande por se tratar do primeiro documento oficial da gestão Ilan Goldfajn e que deverá orientar os prognósticos sobre a política monetária de curto prazo. Além do relatório, o mercado está ansioso pela entrevista que será concedida pelo presidente do Banco Central às 11 horas.
Dólar fica em R$ 3,39 e Bovespa fecha em baixa de 1,72%
Queda da bolsa brasileira acompanhou movimento negativo na Europa e nos Estados Unidos