Economia

Dólar reflete cautela do investidor e sobe 0,89%, a R$ 3,2922

Deflagração de nova operação da PF na JBS foi o elemento que adicionou incerteza ao quadro político

Deflagração de nova operação da Polícia Federal na JBS foi o elemento que adicionou incerteza ao quadro político
Deflagração de nova operação da Polícia Federal na JBS foi o elemento que adicionou incerteza ao quadro político Foto : Vanderlei Almeida / AFP / CP
O mercado brasileiro de câmbio assumiu postura defensiva nesta sexta-feira diante de um cenário político que se mostra complexo e pouco previsível. A deflagração de uma nova operação da Polícia Federal na JBS foi o elemento novo do dia, que adicionou incerteza ao quadro político. Ao mesmo tempo, cresceu a percepção de que uma vitória do presidente Michel Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dá sobrevida ao governo, mas está longe de garantir a governabilidade que ele precisaria para dar andamento às reformas.

Atentos à possibilidade do surgimento de novos fatos no fim de semana, investidores preferiram evitar riscos, recompondo pequenas posições compradas em dólar. O movimento ganhou força à tarde, com as cotações renovando máximas até os minutos finais de negociação. No fechamento, o dólar à vista negociado no mercado de balcão apontou alta de 0,89%, aos R$ 3,2922, depois de oscilar entre a mínima de R$ 3,2569 (-0,19%) e a máxima de R$ 3,2982 (+1,07%).

Na Operação Tendão de Aquiles, três equipes de policiais federais, cada uma integrada por dois técnicos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), foram mobilizadas para fazer buscas e apreensões autorizadas pela Justiça Federal, além de conduções coercitivas. O objetivo era investigar os lucros que o grupo teria obtido a partir da compra de dólares e venda de ações antes que se tornassem públicos os termos das delações dos irmãos Batista, donos da JBS, que geraram a atual crise política.

No mercado, o temor é de que novas delações sejam fechadas ou que os donos do JBS revelem novas denúncias, como a do jatinho da empresa usado por Michel Temer em 2011, quando era
vice-presidente, que causou desconforto nesta semana.

Entre os desafios do governo para a próxima semana está a reunião que o PSDB realiza na segunda-feira, com o objetivo de decidir se desembarca ou não da base aliada. No Congresso e no próprio governo, a avaliação é a de que uma eventual saída dos tucanos da base de apoio tem potencial para provocar um desembarque em cascata de outras legendas. Com o resultado, o dólar à vista encerra a semana com alta de 1,17% ante o real.

Bovespa

O principal índice da bolsa acelerou as perdas nos últimos momentos do pregão desta sexta-feira, 9, em um movimento de proteção de investidores que estavam pouco dispostos a passar o final de semana comprados diante de indefinições como a do julgamento do TSE sobre a chapa Dilma Rousseff-Michel Temer e do desembarque do PSDB do governo.

O Ibovespa fechou em queda de 0,87%, aos 62.210,55 pontos. Na semana acumula queda de 0,48%. Essa "corrida" levou o volume de negócios para o maior nível na semana, de R$ 7,19 bilhões.

"Investidor não tem medo de crise, tem medo é de escuro, de um quadro de incertezas", ressaltou o estrategista-chefe da Eleven Financial, Adeodato Volpi Neto.

Por mais um dia, o bloco financeiro - dos quatro grandes bancos mais a Cielo - foi responsável por manter o índice no terreno negativo em contraposição clara à Petrobras, Vale e suas correlatas. Neto afirma que o setor bancário continua sendo afetado por uma preocupação, ainda na esfera dos rumores, sobre uma possível delação do ex-ministro Antonio Palocci, que sempre teve relação estreita com empresários e agentes do setor financeiro.

"Não acredito em risco sistêmico, mas, também, não imagino como uma quantidade desse dinheiro vivo que serviu para atos ilícitos não tenha passado por grandes bancos. No caso Zelotes, até o Bradesco já foi citado", afirmou o estrategista.

Para esse profissional, a retração no valor das ações de bancos ainda refletiu hoje a Medida Provisória (MP) editada ontem pelo governo, que permite acordos de leniência e eleva o valor de multas dadas tanto pelo Banco Central quanto pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). "Foi o remédio certo na hora errada", disse Volpi Neto, explicando que as medidas melhoram a qualidade da regulação, mas, no momento de incertezas como o atual, há quem interprete como ajuda aos bancos.

O analista da Ativa Investimentos, Pedro Guilherme, lembra que toda essa crise política afeta diretamente o andamento das reformas, o que contribui para azedar o sentimento dos agentes de mercado. "As reformas estão sendo postergadas e, a cada dia, parece ser mais difícil a negociação para as aprovações", disse.

Nesse contexto, os papéis recuaram. A maior perda do dia ficou com a Unit do Santander (3,41%). Banco do Brasil ON caiu 1,63%, Bradesco ON, 1,60%, e Itaú Unibanco PN, 1,57%. Com as quedas na sessão desta sexta-feira, essas instituições, respectivamente, acumulam perdas nos últimos 30 dias de 10,77%, 13,79%, 13,60% e 8,42%. No acumulado de 2017, as ações do banco estatal - e mais sensível à crise política - já estão no negativo assim como as da instituição espanhola.

Na mão contrária dos bancos, Petrobras seguiu de perto a tendência externa com a alta da cotação do petróleo no mercado internacional e, segundo Guilherme, também refletiam as medidas em prol do aumento de governança anunciadas recentemente. Já as ações de CSN, Gerdau, Vale e Bradespar figuravam entre os maiores ganhos do índice na última hora da sessão de negócios.

Segundo operadores, contribuíram para os desempenhos a devolução de perdas acumuladas neste mês e dados otimistas sobre a continuidade dos estímulos à economia por parte do governo chinês.

Taxas de juros


Os juros futuros fecharam em forte queda ao longo de toda a curva, influenciados pelo resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de maio bastante abaixo da mediana das estimativas. Com isso, o mercado de renda fixa operou numa dinâmica própria, descolado das pressões vistas no câmbio e nas ações em meio às incertezas com o cenário político.

A reação ao IPCA impulsionou o volume de contratos negociados nesta sexta-feira, principalmente nos vencimentos curtos. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para outubro de 2017 (479.800 contratos) recuou de 9,675% para 9,615% e a do DI janeiro de 2018 (304.545 contratos) fechou em 9,165%, de 9,310% no ajuste anterior.

O DI janeiro de 2019 (451.235 contratos) encerrou com taxa de 9,21%, de 9,31% da quinta no ajuste. A taxa do DI janeiro de 2021 (253.635 contratos) caiu de 10,47% para 10,30%.

"O número do IPCA veio muito fraco e tivemos várias instituições casas revisando projeção para a inflação este ano", afirmou o trader do Banco Sicredi Getulio Ost, segundo o qual o dado resgatou a discussão sobre a possibilidade de manutenção do ritmo de cortes da Selic em 1 ponto porcentual, a despeito da forte sinalização do Banco Central em torno da redução do compasso de flexibilização na reunião de julho. "Já tem gente falando em 1 ponto, mas o cenário de apostas ainda é de 0,75 pp. Mas a chance de ser 0,5 ponto se enfraqueceu", afirmou. Ele disse ainda que o mercado já recolocou na curva chance de Selic abaixo de 9% no fim do ano.

O IPCA de maio acelerou a alta para 0,31%, ante 0,14% em abril, ante mediana das expectativas de 0,47%. Na pesquisa do Projeções Broadcast, apenas o piso das estimativas das 51 instituições consultadas, de 0,25%, estava abaixo da taxa efetiva. Além disso, a inflação em 12 meses já caiu abaixo de 4%, passando de 4,08% em abril para 3,60% em maio.

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