Economia

Dólar sobe 1% e fecha em R$ 3,73 com cenário exterior ruim

Dia foi de pressão no real que terminou a quarta-feira perto das máximas

Dólar sobe 1% e fecha em R$ 3,73 com cenário exterior ruim
Dólar sobe 1% e fecha em R$ 3,73 com cenário exterior ruim Foto : Paulo J. Richards / AFP / CP Memória
A quatro dias da eleição, o cenário externo seguiu ditando o ritmo das oscilações no mercado doméstico de câmbio e o dólar à vista fechou no maior patamar dos últimos oito pregões, a R$ 3,7382, em alta de 1%, nesta quarta-feira.

O noticiário político continuou no radar das mesas de operação e causou pela manhã certo mal estar entre os agentes o aumento da rejeição de Jair Bolsonaro (PSL) na última pesquisa do Ibope, mas com as bolsas em Nova Iorque em forte queda e a moeda americana em alta perante a maior parte das divisas dos países emergentes, o dia foi de pressão no real, que terminou a quarta-feira perto das máximas.

A sessão desta quarta foi a segunda consecutiva em que o mercado externo mais avesso ao risco acabou ofuscando o otimismo do mercado com a possível vitória de Bolsonaro. Com o aumento da aversão ao risco, investidores estrangeiros buscaram proteção no dólar e agentes domésticos, como tesourarias e exportadores, buscaram recompor posições compradas, destacam especialistas em câmbio.

Uma executiva com mais de 30 anos de experiência no mercado financeiro disse que os agentes vinham nas últimas semanas reduzindo suas posições compradas, mas não chegaram a zerar, à espera da eleição, e nesta sexta recompuseram parte delas, por conta do clima de maior cautela lá fora.

O fato novo desta quarta-feira no mercado internacional foi a tensão gerada pelo envio de pacotes suspeitos a lideranças democratas, como Barack Obama e Hillary Clinton, a duas semanas das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos.

Além disso, persistem preocupações com a situação orçamentária da Itália, que corre o risco de ser rebaixada por mais agências de classificação de risco, e indicadores recentes da zona do euro também ajudam, e preocupações com o crescimento da economia mundial, à medida que grandes empresas americanas divulgam resultados trimestrais, alguns abaixo do esperado, ressalta em relatório o estrategista de câmbio do Saxo Bank, Michael O'Neill.

"O cenário externo não está nada animador", destaca o operador da Advanced Corretora, Alessandro Faganello, que lembra ainda das recentes críticas de Donald Trump à estratégia de elevação dos juros do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA).

Ele prevê que se nada de mais grave acontecer no cenário externo e o cenário eleitoral seguir como o mercado espera, com vitória de Bolsonaro, boa equipe econômica e detalhamento de agenda de reformas nas próximas semanas, o dólar pode terminar o ano na casa dos R$ 3,70 a R$ 3,80.

Bovespa

A forte migração dos investidores de ativos de risco para os mais conservadores derrubou as bolsas de valores de todo o mundo e não poupou o mercado brasileiro nesta quarta-feira. O Índice Bovespa chegou a ensaiar uma alta pela manhã, mas logo sucumbiu à onda vendedora vinda do exterior, terminando o dia aos 83.063,56 pontos, em queda de 2,62%.

Os índices acionários de Nova York conduziram as sucessivas mínimas do Ibovespa na última hora de negócios, à medida que investidores aumentaram seus posicionamentos de cautela ante uma série de incertezas que estão no radar. O ato terrorista cometido contra lideranças democratas, como Barack Obama e Bill e Hillary Clinton, duas semanas antes das eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, elevou o clima de tensão que já se instalava por outras questões, como a política monetária dos Estados Unidos e o ritmo de crescimento da economia global.

Entre as 65 ações do Ibovespa, apenas 4 terminaram em alta, a maioria de empresas exportadoras, beneficiadas pela alta de 1% do dólar. Suzano ON subiu 2,46% e foi o maior ganho do índice. Por outro lado, empresas sensíveis ao risco internacional foram as que mais sofreram. Vale ON, por exemplo, tombou 4,09%, diante das quedas superiores a 5% registradas à tarde pelo índice de metais da bolsa de Nova York.

Para Marcio Cardoso, sócio-diretor da Easynvest, há grandes dúvidas sobre as perspectivas para a economia mundial e não se sabe qual o impacto para países emergentes. Ao mesmo tempo, diz, o mercado não sabe quais serão os primeiros passos do novo governo, que ao que as pesquisas indicam será de Jair Bolsonaro (PSL).

"Há muitas dúvidas e desafios para 2019. Lá fora temos briga comercial, crises na Europa, Brexit. Por aqui, não saberemos quais medidas serão tomadas e que apoio o novo governo terá no Congresso. Se o novo governo conseguir endereçar as medidas necessárias, é possível que o mercado brasileiro consiga avançar, apesar das questões externas", disse.

Taxas de juros

Os juros futuros voltaram a fechar com taxas longas em alta, refletindo o aumento da aversão ao risco no exterior que continuou estimulando um movimento de realização de lucros neste trecho da curva. Os contratos de curto prazo encerraram com taxas perto da estabilidade, na falta de agenda ou noticiário nesta quarta-feira capazes de alterar as apostas para a Selic nos próximos meses. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 encerrou em 7,40%, de 7,393% no ajuste de terça-feira, e a do DI para janeiro de 2021 avançou de 8,293% para 8,36%.

A taxa do DI para janeiro de 2023 encerrou na máxima de 9,57% (9,423% no ajuste anterior, assim como também fechou na máxima o DI para janeiro de 2025, a 10,15%, de 9,972%. Aos fatores que na terça já pesavam sobre os ativos globais - crise fiscal na Itália, preocupações geopolíticas com as relações entre Estados Unidos e Arábia e receios sobre o crescimento global - na quarta somou-se a tensão gerada pelo envio de envios de pacotes suspeitos a lideranças democratas, como Barack Obama e Bill e Hillary Clinton, e endereços como a Casa Branca e a sede da CNN.

O presidente Donald Trump afirmou que o seu governo não poupará esforços para levar à Justiça as pessoas por trás dos aparelhos e pacotes suspeitos. Internamente, trouxe algum desconforto a pesquisa Ibope divulgada na terça, que mostrou redução da vantagem do candidato do PSL, Jair Bolsonaro, ante Fernando Haddad (PT), na corrida presidencial, além do aumento da rejeição a Bolsonaro e queda da rejeição a Haddad. "A pesquisa não deu razões para mais otimismo, como vínhamos vendo nas outras", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

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