Dólar sobe a R$ 4,08 e Ibovespa cai 0,83%, mas segue semana em alta
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Dólar sobe a R$ 4,08 e Ibovespa cai 0,83%, mas segue semana em alta

Moeda americana chegou a cair para R$ 4,04 durante manhã, mas fechou em alta de 0,66%

Por
AE

Após manhã de instabilidade, índice fechou aos 103.501,18 pontos

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Depois de uma manhã de instabilidade, em que alternou pequenas altas e baixas, o Ibovespa perdeu força ao longo da tarde e trabalhou em terreno negativo na segunda etapa de negócios desta sexta-feira. Com renovação sucessiva de mínimas na reta final do pregão, o índice fechou aos 103.501,18 pontos, em queda de 0,83%. Apesar do tombo desta sexta-feira, o Ibovespa encerrou a semana em alta de 0,55% e já acumula ganhos de 2,34% em setembro, em meio à diminuição dos temores de desaceleração mais forte da economia global, após sinais de trégua na guerra comercial sino-americana.

Operadores atribuíram a fraqueza do índice no fim do dia a um movimento típico de realização de lucros e à cautela diante da expectativa por uma agenda carregada na próxima semana, que se inicia com vencimento de opções de ações na segunda-feira da próxima semana. A liquidez foi reduzida - R$ 14,6 bilhões -, o que pode ter potencializado os efeitos das vendas, sobretudo de ações da Petrobras, que fecharam perto das mínimas.

Segundo o gerente da mesa de renda variável da H. Commcor, Ariovaldo Ferreira, com a ausência de gatilhos para novas rodadas de alta, investidores preferiram não arriscar. "Parece que houve um movimento claro de zeragem de posições. O dólar deu uma piorada e o Ibovespa parece que sentiu. Tem também gente já se preparando para o vencimento de opões na segunda-feira", diz Ferreira, ressaltando que, a despeito da melhora no ambiente externo e do bom andamento das reformas no Congresso, não há sinais de uma retomada mais forte do crescimento doméstico.

Um experiente operador de renda variável observa que, embora a expectativa de redução dos juros aqui e nos Estados Unidos já esteja em boa parte incorporada aos preços, não se pode descartar a possibilidade de movimentos mais abruptos nos dias anteriores a eventos relevantes. Além disso, há sempre a preocupação de que o presidente americano, Donald Trump, retome os ataques a China, com a disparada de tuítes durante o fim de semana.

Depois de o Banco Central Europeu (BCE) anunciar na quinta corte da taxa de depósitos e um pacote de compra de ativos, cresceu a expectativa de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) decida, na próxima quarta-feira, por mais uma redução dos Fed funds, com apostas majoritárias em corte de 0,25 ponto porcentual. Por aqui, o mercado é quase unânime na visão de que o Copom, que anuncia sua decisão também no dia 18, reduza a taxa Selic mais uma vez em 0,50 ponto porcentual, para 5,50% ao ano.

A perda de fôlego do índice veio na esteira de uma queda mais forte das ações da Petrobras no fim do dia, em meio a perdas do petróleo e a ajustes técnicos para o vencimento de opções. A ação PN da petroleira recuou 0,67% e a ON, 0,57%. Também pesaram sobre o índice a queda forte do setor elétrico, com perdas superiores a 3% das ações da Eletrobras, e de varejistas. O Índice de Consumo (Icon) fechou com retração de 1,14%. No lado positivo, a ação da Vale terminou em leve alta, em meio a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou a retomada das operações da usina de níquel Onça Puma, com sede em Ourilândia do Norte (PA). No bloco financeiro, a ação PN do Bradesco caiu 1,30%, ao passo que a PN do Itaú subiu 1,36%.

Dólar

O dólar chegou a cair para R$ 4,04 na manhã desta sexta-feira, mas o tom de cautela prevaleceu à tarde antes de uma agenda agitada na semana que vem, com reuniões de política monetária de nove bancos centrais ao redor do mundo, incluindo Estados Unidos, Inglaterra, Japão e Brasil. Operadores ressaltam ainda que o alerta emitido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) sobre os riscos de descumprimento da meta fiscal deste ano, publicado pelo Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, nesta tarde, também não repercutiu bem nas mesas de câmbio, em meio às dúvidas sobre como o governo vai conseguir arrecadar mais com o presidente Jair Bolsonaro vetando a volta da CPMF. O dólar à vista fechou em alta de 0,66%, a R$ 4,0865.

Na semana, o dólar acumulou alta de 0,16% no mercado à vista, mas no mês recua 1,35%. Após o Banco Central Europeu (BCE) anunciar um pacote de estímulos mais forte que o esperado pelo mercado, e ainda alertar para a necessidade de estímulos fiscais, aumentou a expectativa nas mesas de operação sobre o que os banqueiros centrais podem definir e sinalizar na próxima semana.

"O Federal Reserve deve cortar os juros em 0,25 pontos na semana que vem, mas os bons indicadores e a redução dos riscos podem tornar o BC americano menos 'dovish'", avaliam os estrategistas do banco inglês Barclays. O Bank of America Merrill Lynch também espera um corte de 0,25 ponto e ressalta que um dos maiores termômetros do que vem pela frente é o gráfico de pontos, que reúne as previsões de todos os dirigentes para as taxas de juros e pode sinalizar se haverá cortes mais ou menos intensos nos próximos meses.

"Com a incerteza, os investidores querem passar o final de semana confortáveis, ou seja, comprados em dólar", disse o responsável pela a área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem. Ele ressalta que a moeda americana ganhou força na tarde desta sexta no mercado internacional, o que também pressionou as cotações aqui. O dólar operava misto ante emergentes no final da tarde, subindo na Turquia e Indonésia e caindo na Argentina e Rússia.

A sinalização de avanços nas conversas comerciais entre os Estados Unidos e China ajudou o dólar a bater nas mínimas da semana, R$ 4,02. Mas a avaliação dos estrategistas do banco americano Citi é que, apesar da relativa calmaria desta semana, os principais riscos persistem no cenário mundial e podem pressionar ainda mais as moedas de emergentes. O Citi não vê chance de um acordo comercial final entre as duas maiores economias do mundo antes das eleições presidenciais americanas de novembro de 2020.

Em outras frentes, o processo de saída do Reino Unido da União Europeia, o Brexit, está longe de acabar, ressaltam os estrategistas do Citi. Nos bancos centrais, os estímulos monetários podem ajudar, mas os governos podem precisar de mais medidas, sobretudo fiscais. Outra frente de preocupação para o Citi é a China, com medidas de estímulo para a atividade que são positivas, mas não devem reduzir o temor de desaceleração da economia.

Taxas de juros

Os juros futuros de médio e longo prazos ampliaram à tarde o viés de alta com que haviam encerrado a manhã desta sexta-feira, enquanto as taxas curtas, que operavam perto da estabilidade, passaram a subir, todas renovando máximas na última hora da sessão regular. O movimento se deu em linha com a piora dos demais ativos, em especial o dólar, que se firmou em terreno positivo, em meio ainda a um alerta feito pelo Tribunal de Contas da União (TCU) ao governo para o risco de descumprimento da meta fiscal neste ano. A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 5,38%, de 5,338% quinta no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 6,391% para 6,49%. A taxa do DI para janeiro de 2025 encerrou em 7,07%, de 6,951%.

A sexta-feira se desenrolava sem grandes destaques até o meio da tarde, com as taxas oscilando entre a estabilidade e um viés de alta determinado pelo cenário externo, onde os juros dos Treasuries tinham avanço consistente, mas com a liquidez dos DIs limitada pelo compasso de espera pelos eventos da próxima semana. Os investidores evitaram montar grandes posições antes das decisões de política monetária no Brasil e nos Estados Unidos na quarta-feira.

Porém, na reta final da sessão regular, houve um sprint em toda a curva termo, atribuído ao aumento da pressão no câmbio e ao desconforto com a área fiscal, após a notícia publicada pelo Broadcast sobre o alerta do TCU. A corte chama a atenção para o risco de descumprimento da meta que permite déficit de até R$ 139 bilhões neste ano.

A maior preocupação é com os recursos que estão previstos para entrar nos cofres do governo a partir de dois leilões de concessão de áreas de petróleo já programados para o fim do ano, cuja outorga, de R$ 8,35 bilhões, já está contabilizada no Orçamento, mas o dinheiro ainda não entrou nas contas. O maior problema, segundo o TCU, é que o ingresso destes recursos está previsto para 27 de dezembro, apenas quatro dias antes do término do exercício. Ou seja, se o dinheiro não entrar no caixa, a equipe econômica não terá tempo para reagir e compensar a frustração nas receitas.

Para Jefferson Lima, gerente da Mesa de Juros da CM Capital Markets, o aviso potencializa o viés negativo trazido pela discussão em torno da flexibilização do teto dos gastos e as preocupações com um possível shutdown da administração. "Com a frustração da volta da CPMF, a área econômica precisa encontrar outra forma para liberar recursos. A máquina pública está praticamente parada, vivendo de doses homeopáticas de recursos que são liberados pela Economia", disse, lembrando que, embora Guedes e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, sejam contra a flexibilização do teto, "o lobby a favor está aumentando".

Com a política fiscal asfixiada, resta a política monetária como a tábua de salvação para acelerar o crescimento, o que faz o mercado acreditar que a Selic possa cair a 5% ou até menos. Grandes instituições, como o Bradesco, já projetam juro básico abaixo de 5% no fim do ciclo. Nesta quinta foi a vez do Santander de informar que reviu sua estimativa de 5,25% para 4,50% no fim de 2019.