O dólar fechou com alta de mais de 1% frente ao real nesta terça-feira, após a Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado rejeitar o texto principal da reforma trabalhista, demonstrando fragilidade do governo do presidente Michel Temer no Congresso Nacional. A aversão ao risco no exterior diante da queda do petróleo penalizou as moedas de países emergentes e ligadas a commodities e contribuiu para o mau humor.
O relatório da reforma trabalhista foi rejeitado por 10 votos e 9 a favor, um placar que surpreendeu o mercado. Senadores governistas trabalhavam com a expectativa de que o texto pudesse ser aprovado por placar de 11 a 8 ou com vantagem de 12 a 8, conforme o quórum da votação.
Mesmo com a rejeição na CAS, o projeto segue normalmente para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Ainda assim, dúvidas permeiam as próximas votações, uma vez que o mercado estava apostando todas as fichas na reforma trabalhista, que parecia ser a mais fácil de ser aprovada, pontuou o diretor da Ativa Wealth Management, Arnaldo Curvello. "O problema é que o governo sofreu rejeição na reforma que o mercado acreditava que seria a mais fácil de ser aprovada, no local com mais propensão, o Senado, e ainda recebeu voto contra do PSDB", explicou.
Já para o sócio e gestor da Absolute Roberto Serra, a derrota em si não é ruim, mas sim uma série de coisas negativas que o mercado já vem assimilando. "As notícias negativas estão se renovando. O mercado já incorporou o pessimismo e se em algum momento existia alguma expectativa com a reforma da Previdência, já não existe mais. Em relação à trabalhista, ainda existem dúvidas", disse Serra.
Além da questão interna, o mau humor no exterior com a queda de 2% do petróleo contribuiu para o desempenho ruim das moedas emergentes. A commodity tem sido penalizada em meio a preocupações contínuas com os excedentes de oferta no mercado global.
No mercado à vista, o dólar terminou em alta de 1,29%, aos R$ 3,3320, maior valor de fechamento desde 18 de maio, dia em que os mercados reagiram à notícia de delação da JBS. O giro financeiro registrado somou US$ 715,67 milhões. Na mínima ficou em R$ 3,2957 e, na máxima, aos R$ 3,3406, o maior nível desde 19 de maio.
No mercado futuro, às 17h15, o dólar para julho avançava 1,38%, aos R$ 3,3380. O volume financeiro movimentado somava cerca de US$ 16,6 bilhões. Durante o pregão, a divisa oscilou de R$ 3,3040 a R$ 3,3520.
Bovespa
A derrota do governo na votação do texto da reforma trabalhista na CAS do Senado foi uma inesperada surpresa para o mercado de ações, que não se refez do susto até o final do dia. A notícia piorou bruscamente o humor dos investidores, que já não era positivo, devido à influência dos mercados internacionais. Apesar de a rejeição do texto não representar necessariamente o comprometimento da tramitação da reforma, a percepção foi de maior enfraquecimento do presidente Michel Temer, que está em viagem à Rússia para promover o Brasil.
O Índice Bovespa fechou nesta terça-feira, 20, na mínima do dia, aos 60.766,15 pontos, em queda de 2,01%. Com esse resultado, o indicador atingiu seu menor nível desde 2 de janeiro (59.588,70 pontos). Passa, assim, a acumular queda de 3,10% em junho e alta de 0,90% em 2017.
"Normalmente, o mercado reage pontualmente a uma notícia inesperada como essa, mas depois se acomoda em um patamar melhor. Hoje não vimos essa acomodação, o que significa que aqueles que saíram não voltaram", disse Leandro Martins, analista da corretora Nova Futura.
Com a imediata reação dos mercados, o governo buscou minimizar o ocorrido. Da Rússia, o presidente Michel Temer expressou confiança na capacidade do governo de reverter o resultado obtido na CAS. Segundo ele, a vitória do governo no plenário é "certíssima". Para Temer, a derrota é "muito natural", porque os projetos passam por várias comissões. "O plenário vai decidir e lá o governo vai ganhar. É maioria simples", disse.
Já o relator da reforma trabalhista no Senado, Ricardo Ferraço (PSBD-ES), avaliou a votação como uma derrota para o governo. Ele considerou que o resultado pode enfraquecer o apoio à proposta no plenário da Casa. "Na prática, o resultado de hoje significa que o governo não conseguiu articular os senadores para poder aprovar a matéria na CAS. Não muda a tramitação, mas evidentemente é uma derrota política do governo", disse o relator.
Pela manhã, o mercado de ações já era vendedor, mas por influência essencialmente internacional. A forte queda dos preços do petróleo penalizavam as ações da Petrobras, que ao final do dia tiveram perdas de 2,40% (ON) e de 3,50% (PN). Os papéis da Vale também recuavam, em sintonia com os futuros de minério de ferro e com as mineradoras ao redor do mundo. No fechamento, Vale ON e PNA perderam 2,58% e 2,87%, respectivamente. Entre as 59 ações do Ibovespa, apenas Ambev PN fechou em alta, de 1,12%.
Taxas de juros
Os juros futuros fecharam em alta a sessão regular do segmento BM&F da B3, firmada no período da tarde, após a CAS do Senado ter rejeitado o texto da reforma trabalhista. O ambiente externo, nesta terça-feira, 20, também hostil, contribuiu para correção de parte das quedas vistas nas últimas sessões. A agenda trouxe dados da arrecadação e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de maio, mas ficou em segundo plano.
O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2018 fechou com taxa de 9,070%, ante 9,020% no ajuste de segunda-feira, com 259.760 contratos. A taxa do DI para janeiro de 2019 (443.080 contratos) subiu de 8,98% no ajuste de segunda para 9,07%. A taxa do DI para janeiro de 2021 (285.790 contratos) terminou em 10,14%, de 9,99%.
A votação da reforma trabalhista na CAS, uma espécie de termômetro sobre o apoio do governo com relação aos ajustes, gerava expectativa positiva no mercado, que se apegava nas projeções de aprovação do parecer do senador Ricardo Ferraço (PSDB-ES) por um placar favorável de 11 a 8. A rejeição do texto, ainda que por um placar apertado de 10 votos contrários e 9 favoráveis, causou reação imediata, com os juros batendo máximas em sequência.
Tão logo o resultado foi divulgado, houve um esforço do governo para relativizar a derrota e afirmar que o texto será aprovado no plenário, o que, segundo um profissional da área de renda fixa, ajudou a acalmar o mercado. Da Rússia, o presidente Michel Temer disse que a vitória do governo no plenário é "certíssima". O ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira disse que a rejeição do parecer pela CAS "não altera o cronograma". "A reforma vai ser aprovada", garantiu o ministro.
No exterior, o destaque foi a derrocada dos preços do petróleo, para perto do patamar de US$ 45 por barril, que pressionou o dólar no mundo todo, com impacto sobre a curva doméstica. Na meia hora final da sessão, o Ministério do Trabalho informou que o saldo do Caged em maio ficou positivo em 34.253 vagas, bem acima da mediana das estimativas, positiva em 19.187.
O dado não chegou a influenciar os negócios, mas para o ministro Ronaldo Nogueira é um fator positivo. "Podemos constatar que economia volta a dar sinais de recuperação, e a geração de empregos é um indicador que mostra isso", disse.
Dólar sobe e bolsa cai após rejeição da reforma trabalhista e queda do petróleo
Moeda terminou em alta de 1,29%, aos R$ 3,3320, maior valor de fechamento desde 18 de maio