Dólar sobe, encosta em R$ 4,22, mas fecha a R$ 4,21
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Dólar sobe, encosta em R$ 4,22, mas fecha a R$ 4,21

Tendo o coronavírus como catalisador das preocupações globais, Ibovespa encerrou o dia com 115.384,84 pontos

Por
AE

A moeda americana fechou em alta de 0,62%

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O dólar mostrou força frente ao real durante toda a sessão desta quarta, dia em que o Federal Reserve (Fed) manteve a faixa de flutuação dos fed funds, com os investidores atentos ao pronunciamento do presidente da instituição, Jerome Powell, que apontou em discurso não estar confortável com a inflação sistematicamente abaixo da meta.

Muito embora tenha chegado a bater, na máxima intraday, em R$ 4,2253 em linha com o avanço no exterior pela expectativa dos investidores sobre o rumo da política monetária nos Estados Unidos, quase ao final da sessão, o ritmo de alta arrefeceu. A divisa americana fechou em alta de 0,62%, cotada a R$ 4,2193 no nível mais alto desde 29 de novembro passado, quando havia ido a R$ 4,2407. Entre as principais moedas de países exportadores de commodities, hoje, o real foi das que mais se depreciou.

No contexto da fala de Powell, o dólar se enfraqueceu levemente ante outras moedas principais. "A sinalização de preocupação de Powell com inflação abaixo da meta sinaliza possibilidade de corte um pouco mais à frente e isso faz com que o mercado ajuste a curva de apostas", ressaltou Alexandre Almeida, analista econômico da CM Capital. O dirigente afirmou ainda que há riscos às perspectivas econômicas, inclusive pelo coronavírus, e que o Fed está pronto para agir, caso o quadro mude de modo substancial.

A despeito da suavização, fatores internos também contribuem para pressionar o real para baixo. José Faria Junior, diretor da Wagner Investimentos, ressalta que, com o Fed mantendo suas taxas ao mesmo tempo em que aumentam as chances de o Comitê de Política Monetária (Copom) fazer dois cortes de 0,25 ponto porcentual na Selic, o diferencial de juros reduz ainda mais, o que é ponto para a depreciação do real. Aliado a isso, comenta, as quedas recentes da cotação das commodities também contribuem para pressionar a moeda americana em relação ao real.

Ainda que não haja consenso sobre quantas vezes mais o Copom deve reduzir a taxa básica, a perspectiva de continuidade do processo de afrouxamento monetário para além de fevereiro já pesa nos negócios do mercado de câmbio, observa um operador. "As reticências foram abertas nos últimos dias para os próximos passos dos juros por aqui", diz.

Ibovespa

Com perda de força das ações em Nova York, o Ibovespa acentuou o ajuste negativo na hora final de negócios e fechou o dia não distante da mínima da sessão, tendo o coronavírus ainda como catalisador das preocupações globais. O principal índice da B3 encerrou em baixa de 0,94%, a 115.384,84 pontos, oscilando entre mínima de 115.163,75 e máxima de 117.171,28 pontos. Na semana, acumula agora perda de 2,53% e retorna a terreno negativo no acumulado do mês (-0,23%). O giro financeiro totalizou R$ 20,0 bilhões.

Em Nova York, os três índices mantinham ganhos em torno de 0,5% durante a maior parte da entrevista coletiva do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, mas passaram a neutralizar o avanço perto do fim da fala do dirigente e encerraram o dia em torno da estabilidade. Powell afirmou que o surto internacional do coronavírus é uma "questão muito séria" e terá "impactos na economia da China" no curto prazo. E que a doença, além de prejudicar a economia do país asiático, poderá também afetar o nível de atividade global.

Após ter conseguido recuperar ontem parte da perda de 3,29% da primeira sessão da semana, o Ibovespa caía moderadamente ao longo da maior parte da sessão desta quarta-feira, mas acentuou o movimento de realização por volta das 17h20, indo às mínimas do dia. Na ausência de catalisadores domésticos que pudessem sustentá-lo, o Ibovespa se inclinou a novo ajuste negativo.

"Os primeiros balanços da temporada, de Cielo e Santander, não confirmaram aquela euforia do fim do ano passado. Então, com o coronavírus ainda inspirando cautela, o mercado aproveita para realizar (lucros)", diz Luiz Roberto Monteiro, operador da mesa institucional da Renascença. "O mercado está olhando um pouco mais para dentro, esperando balanços ou indicadores domésticos que deem um impulso adicional. Assim, o que sobra por enquanto é alguma notícia corporativa que dê direção para um papel ou outro, e o coronavírus", acrescenta.

Tendo retomado a linha de 117 mil pontos nos primeiros 15 minutos da sessão, para então mudar de direção e iniciar declínio até mínima parcial pouco depois das 12h, o Ibovespa conseguiu se firmar nos 116 mil pontos à tarde, enquanto o mercado, aqui e no exterior, aguardava a decisão de política monetária do Fed e, particularmente, a percepção de Powell sobre o momento econômico em meio ao coronavírus.

Por aqui, o mercado de ações se manteve descolado de Wall Street durante a maior parte da entrevista de Powell, com as ações de bancos, em particular, acentuando um pouco as perdas do dia após o comunicado do Fed e durante a fala de seu presidente, em dia de balanço em linha com o esperado para o Santander Brasil.

Na coletiva, Powell disse haver alguns sinais de que o crescimento global esteja se estabilizando. "Se houver mudança estrutural em perspectivas, estamos prontos para responder", observou o presidente do Fed, mencionando entre as incertezas sobre o cenário econômico "as relacionadas ao coronavírus". "O objetivo é manter a taxa dos Fed Funds na faixa (atual), mas ajustaremos se preciso", disse o presidente do Fed.

Juros

O recuo dos juros futuros de médio e longo prazos, visto na maior parte do dia, perdeu força a partir dos minutos finais da sessão regular da B3 e as taxas fecharam perto da estabilidade, alinhando-se às da ponta curta, que já oscilavam ao redor dos ajustes mais cedo. A postura mais cautelosa dos investidores acompanhou a piora no câmbio, na medida em que o dólar voltava a ser negociado na casa dos R$ 4,22 durante à tarde, em meio ainda às preocupações com os impactos econômicos da disseminação do coronavírus. Os curtos, por sua vez, pouco se mexeram, dado que as apostas para o Copom são consideradas bem ajustadas para um novo corte na taxa na reunião da próxima semana.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 4,340% a etapa regular e em 4,345% a estendida, de 4,335% ontem no ajuste. A do DI para janeiro de 2023 terminou em 5,49% (regular) e 5,45% (estendida), de 5,502% ontem. O DI para janeiro de 2025 fechou com taxas de 6,18% e 6,17% (regular e estendida), de 6,211% ontem, e a do DI para janeiro de 2027 terminou com taxas de 6,58% (regular) e 6,60% (estendida), de 6,601% ontem.

Com o Copom da semana que vem no radar, o mercado passou o dia na expectativa pela reunião de política monetária do Federal Reserve e de olho no noticiário sobre o surto de coronavírus. A decisão do Fed, de manter os juros entre 1,5% e 1,75%, era amplamente esperada e não influenciou diretamente os negócios com juros por aqui.

Com relação ao coronavírus, os investidores tentaram manter o sangue-frio ao longo do dia, mas à tarde o noticiário elevou as incertezas, justificando, em parte, a postura mais defensiva. O diretor geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciou que um comitê da entidade vai se reunir amanhã para decidir se o coronavírus é uma emergência internacional. No balanço mais recente, são mais de 6 mil casos confirmados em 17 países, com 132 mortes, todas na China.

Do ponto de vista econômico, a questão é saber o quanto o surto pode provocar de desaceleração global, num contexto de estimativas já pessimistas. O presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, afirmou, em entrevista coletiva ao término da reunião do colegiado, que esta é uma "questão muito séria" e terá "impactos na economia da China" no curto prazo. Segundo ele, além de prejudicar a economia do país asiático, a doença poderá também afetar talvez o nível de atividade global.

Internamente, as expectativas de inflação ancoradas abaixo das metas e a inflação corrente desacelerando mais rapidamente que o previsto neste começo do ano sustentam as apostas em torno de mais uma queda de 25 pontos-base da Selic no próximo Copom. Segundo o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno, a curva projeta queda de 20 pontos-base na taxa no Copom de fevereiro, o que indica 80% de chance de Selic a 4,25%. Para o Copom de março, a curva precifica redução de 7 pontos-base, ou 28% de possibilidade de mais um corte.