Economia

Dólar sobe pelo quinto pregão seguido e fecha a R$ 5,42

Moeda norte-americana já acumula alta de 3,57% em julho

Moeda norte-americana fechou com alta de R$ 0,069 (+1,3%) nesta terça-feira
Moeda norte-americana fechou com alta de R$ 0,069 (+1,3%) nesta terça-feira Foto : Marcos Santos / USP Imagens / CP

O dólar moderou o ritmo de alta na segunda etapa de negócios na esteira da melhora do humor dos mercados acionários em Nova York após a divulgação da ata do Federal Reserve. Após superar o teto de R$ 5,45 pela manhã e correr até a máxima de R$ 5,4624, a moeda passou a maior parte da tarde rodando entre R$ 5,41 e R$ 5,43. No fim do dia, subia 0,60%, cotada a R$ 5,4219 - maior valor de fechamento desde 27 de janeiro. Foi a quinta sessão consecutiva de valorização do dólar, que já acumula alta de 3,57% em julho.

Mais uma vez, o temor de recessão global, em meio ao aperto monetário nos países desenvolvidos para combater a inflação, derrubou os preços das commodities e levou a uma rodada de valorização da moeda americana. Referência do desempenho do dólar frente a pares fortes, o índice DXY superou os 107 pontos, no maior nível em 20 anos. O euro apanhou mais uma vez em razão de indicadores fracos de atividade na zona do euro, enquanto a libra sofreu com a crise política no governo Boris Johnson, que enfrenta debandada de ministros. As cotações do petróleo caíram novamente, com o tipo Brent, referência para Petrobras, fechando em baixa de 2,02%, a US$ 100,69 o barril. Os preços futuros do cobre, termômetro das expectativas de crescimento, tocaram hoje os menores níveis desde novembro de 2020.

Por aqui, as atenções seguem voltadas à tramitação da PEC dos Benefícios (ou Kamikaze) na Câmara. Votação em comissão especial da Casa foi adiada na madrugada desta quarta-feira por pedido de vista da oposição. Os debates devem ser retomados amanhã e a previsão é que o texto chegue ao plenário da Câmara ainda nesta semana. Apesar de desconforto do mercado com o aumento do chamado do risco fiscal, o real não apresentou as piores perdas de entre seus pares emergentes, papel que coube ao peso colombiano, seguido pelo rand sul-africano e o peso chileno, todos em baixa superior a 1% frente ao dólar.

Em sua ata, o Fed se mostrou disposto a agir rapidamente e pôr a política monetária em campo restritivo, em meio ao "risco significativo" de que a inflação elevada possa se tornar "arraigada". Dirigentes do BC americano veem alta da taxa básica - hoje já faixa entre 1,50% e 1,75% - em 50 pontos ou 75 pontos como "apropriada" no encontro deste mês. Depois de o presidente do Fed, Jerome Powell, admitir que o controle da inflação envolverá "alguma dor", sobreveio na ata a avaliação de que o aperto monetário pode reduzir o crescimento da atividade "por um tempo". O staff do Fed cortou as projeções de crescimento para 2022 e 2023. A previsão é que a conversão do índice de preços de gastos com consumo (PCE) para a meta de 2% ocorra apenas em 2024. Não houve menção, contudo, à possibilidade de recessão, o que pode ajudar a explicar a resposta dos mercados acionários em Nova York.

"A ata foi agressiva. O Fed admite risco de menos crescimento com aperto maior da política monetária. O contexto é de mais valorização do dólar no mundo", afirma o economista-chefe da JF Trust, Eduardo Velho, que vê a alta das bolsas em Nova York após a ata do Fed como um movimento pontual de alívio. "Com esse ambiente de taxas de juros mais altas no mundo e perda de força das commodities, ativos de risco e moedas emergentes tendem a sofrer".

As taxas dos Treasuries apresentaram alta expressiva hoje e registraram máximas ao longo da tarde, na esteira da divulgação da ata do Fed. O retorno da T-note de 10 anos chegou a tocar 2,93% na máxima e encerrou o dia abaixo da taxa da T-note de 2 anos, que chegou ao nível de 2,95%. A inversão da curva de juros americana é vista como prenúncio de recessão.

"Essa ata mostrou que o Fed está comprometido com o controle da inflação. Existe um movimento de valorização do dólar frente a todas as moedas", afirma o economista Bruno Mori, planejador financeiro pela Planejar. "Aqui o risco fiscal e político voltou a ser um tema do mercado e está fazendo preço".

Em relatório, a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado afirma que a PEC dos Benefícios - que libera gastos de R$ 41,2 bilhões extrateto - fragiliza ainda mais o teto dos gastos e reduz a confiança no compromisso com a disciplina fiscal. A PEC eleva o valor do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 mensais e amplia o vale-gás, além de criar o bolsa caminhoneiro, no valor de R$ 1 mil, e um auxílio para taxistas.

Velho, da JF Trust, chama a atenção para o fato de que as benesses sociais e a redução do ICMS neste ano trazem um legado pesado para o próximo governo. É duvidoso que o próximo presidente consiga diminuir os gastos com o Auxílio Brasil, avalia, ao passo que o aumento do ICMS sobre combustíveis tende a pressionar a inflação em 2023.

"O mercado vê que está sendo contratada uma pressão política enorme para o próximo presidente. Inflação vai ser ainda alta e terá demanda por gastos", afirma o economista. "É um quadro totalmente diferente do primeiro mandato de Lula. Está mais parecido com 2001 e 2019, que foram anos de correções importantes no mercado americano."

Ibovespa

Em dia de apreciação global do dólar, que o colocou desde cedo mais perto do limiar de R$ 5,50, a R$ 5,4624 na máxima da sessão, o Ibovespa manteve o sinal negativo, abaixo dos 98 mil pontos, até a aguardada divulgação, no meio da tarde, da ata da mais recente reunião de política monetária do Federal Reserve. Aí, apesar da indecisão vista em primeiro momento, o jogo virou, com o Ibovespa se alinhando ao avanço, ainda que leve, em Nova York. Ao fim, o índice da B3 mostrava alta de 0,43%, aos 98.718,98 pontos, vindo de perdas moderadas, em torno de 0,3%, nas duas sessões anteriores.

A porta deixada aberta pelo Fed para novo aumento de até 0,75 ponto nos juros de referência dos EUA na próxima reunião do comitê monetário, o Fomc, a princípio chegou a melindrar os mercados, mas a ata acabou deixando impressão favorável, com a avaliação de que o consumo se manteve forte no segundo trimestre, movendo o PIB americano para cima no intervalo. Ainda assim, a referência da B3 permanece nessas últimas seis sessões abaixo dos 100 mil pontos, mesmo se forem consideradas as máximas intradiárias em cinco delas - no melhor momento de hoje, atingiu os 99.141,21 pontos, saindo de mínima a 97.423,43 e de abertura aos 98.293,68 pontos.

Desde o último 15 de junho, então aos 102,8 mil pontos, o índice só conseguiu fechar nos seis dígitos nos dias 27 (100,7 mil) e 28 (100,5 mil). A cautela tem se refletido também na redução do giro financeiro: nesta quarta-feira, foi de apenas R$ 22,1 bilhões. Na semana, o Ibovespa cede 0,24%, mas vira para o positivo no mês (+0,18%), ainda recuando 5,82% no ano. Hoje, o índice foi favorecido pelo desempenho de Vale (ON +0,94%) e de parte da siderurgia, com destaque para Gerdau PN (+2,07%) e Gerdau Metalúrgica (+1,94%), em dia ruim para Petrobras (ON -1,51%, PN -1,28%) e bancos (Itaú PN -0,92%, Santander -1,01%, BB ON -0,64%).

Na ponta positiva do Ibovespa, como ontem, o destaque ficou com as ações de varejo (Via +13,24%, Americanas ON +11,77%), setor ainda muito amassado no ano. No lado oposto do dia, Azul (-5,67%), 3R Petroleum (-5,60%) e Gol (-4,81%).

Após a publicação da ata da mais recente reunião de política monetária do Federal Reserve, a ferramenta de monitoramento do CME Group mostrava, hoje à tarde, 90,3% de chance de elevação de 75 pontos-base nos juros dos Estados Unidos, na decisão a ser anunciada em 27 de julho.

"Não muito diferente do que se imaginava: para a próxima reunião entre 50 e 75 pontos-base (de alta nos juros). E entre dois e três aumentos, com o mercado precificando três. A mensagem é: inflação muito alta, e a maior preocupação é controlar a inflação. A grande tônica para o Fed no momento é tentar matar essa inflação antes que uma recessão chegue", observa em nota Andrey Nousi, CFA da Nousi Finance.

"Foi mais do mesmo: o risco de a atividade desacelerar com o aumento de juros e, obviamente, se a inflação não desacelerar, o BC americano vai precisar subir mais as taxas. A guerra (no Leste Europeu) ainda pode mudar muito o aperto dos juros americanos, pela pressão nas commodities", aponta Jansen Costa, sócio da Fatorial Investimentos.

"Mais provável que os juros de referência americanos fechem o ano praticamente a 3%. Pela leitura da ata, eles preferem acelerar, mesmo que depois tenham que cortar (em 2023), do que subir devagarzinho", diz Paulo Gala, economista-chefe do Banco Master, observando que o yield dos títulos de 2 anos dos Estados Unidos bateu perto de 3% com a ata (máxima do dia a 2,963%), com o "mercado já precificando bastante alta agora, no curto prazo" e "eventualmente cortes em 2023". "Comentários hoje mais para o 'hawkish" na ata, com o medo de que a inflação fique incrustada, indexando-se", acrescenta o economista.

Juros

Os juros futuros encerraram a sessão desta quarta-feira, 6, com viés de alta, em comportamento considerado benigno diante da forte reação da curva dos Treasuries à ata do Federal Reserve, com disparada dos rendimentos. O documento foi considerado hawkish, reforçando os riscos de aumento dos juros no curto prazo nos Estados Unidos. A queda nas cotações das commodities e o fato de as taxas locais já terem subido bastante nas últimas duas sessões ajudaram a amortecer o impacto negativo do exterior.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 13,76%, de 13,725% no ajuste de ontem. O janeiro 2024 subiu de 13,516% a 13,55%. O janeiro 2025 foi de 12,86% a 12,89%. E o janeiro 2027 passou de 12,815% a 12,85%.

Os negócios já eram pela manhã marcados pela falta de direção clara para as taxas, que ora iam para cima, ora para baixo. O movimento de devolução de prêmios adicionados no começo da semana esbarrou no clima de cautela no exterior que pressionou, além dos yields dos títulos do Tesouro americano, também o dólar contra moeda emergentes e principais. Aqui, a moeda subiu até a casa de R$ 5,46 nas máximas.

Após a ata do Fed, as taxas continuaram voláteis, mas oscilando já predominantemente em alta. No entanto, bem moderada diante do que se via nas taxas dos Treasuries - tanto o retorno da T-Note de dez anos quanto de 2 anos romperam novamente a marca de 2,90% e a curva destas duas referências voltou a se inverter. "As commodities em queda ajudam a mitigar a pressão de alta", explicou o economista-chefe da Greenbay Investimentos, Flávio Serrano. O petróleo estendeu as perdas de quase 10% ontem, com o barril do Brent hoje fechando na casa de US$ 100.

Na ata, dirigentes consideram uma elevação de juros de 50 ou 75 pontos-base como "apropriada" na próxima reunião. Na avaliação dos membros, o quadro econômico, com inflação bem acima da meta de 2%, exige uma "postura restrita" na política monetária.

Nesta quinta-feira, as atenções se voltam logo cedo à divulgação da ata da reunião do Banco Central Europeu (BCE), que parece ter um desafio ainda maior do que o Federal Reserve no combate à inflação, dadas as condições fragilizadas de várias economias da zona do euro. Também o Tesouro Nacional realiza seus primeiros leilões de títulos prefixados do terceiro trimestre.

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