Os desdobramentos da Operação Lava Jato, os leilões de linha (venda de dólares com compromisso de recompra) realizados pelo Banco Central e o recuo da moeda americana no exterior determinaram nesta quarta-feira a queda firme do dólar ante o real. A moeda americana à vista cedeu 1,04%, aos R$ 3,6991, o menor valor em mais de seis meses, desde 1º de setembro de 2015. Por trás do movimento, seguiu a percepção de que o impeachment de Dilma Rousseff tem grande chance de avançar.
A maior cotação para o dia foi vista logo na abertura, às 9h02 (R$ 3,7492, +0,30%). Mas em menos de 10 minutos de negociação o dólar à vista já havia migrado para o território negativo, em sintonia com o exterior, onde o avanço do petróleo colocava a moeda americana em queda ante várias divisas de exportadores.
As notícias mais recentes da Operação Lava Jato também continuavam a influenciar o apetite vendedor dos players. Profissionais ouvidos pelo Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, pontuavam que, desde a semana passada, quando vazou a delação do senador Delcídio Amaral e o ex-presidente Lula foi conduzido coercitivamente para depor, a situação do governo Dilma Rousseff não melhorou.
Para completar, os leilões de linha de até US$ 2 bilhões, programados para a tarde de hoje, também eram apontados como motivo para o dólar continuar caindo ante o real.
No início da tarde, o dólar amplificou um pouco as perdas e chegou a ser cotado abaixo dos R$ 3,70, algo que havia sido visto na sexta-feira, quando Lula foi conduzido para depoimento pela Polícia Federal. Na mínima de hoje, às 12h31, o dólar à vista marcou R$ 3,6861 (-1,39%). Da máxima vista logo cedo para esta mínima, a moeda americana oscilou -1,68%, o que sugere forte volatilidade. Depois, a divisa se recuperou um pouco, mas voltou para abaixo de R$ 3,70 antes do fechamento.
No início da tarde, os dados do fluxo cambial divulgados pelo BC não chegaram a influenciar de forma duradoura as cotações. Mas chamou a atenção o fato de, em fevereiro, o País ter registrado saída líquida de US$ 9,294 bilhões, sendo US$ 11,231 bilhões pela via financeira, enquanto a comercial acusou entradas de US$ 1,936 bilhão. Foi a maior saída mensal desde dezembro de 2014 e a maior para meses de fevereiro desde o início da série histórica. Em março, até o dia 4, o fluxo total está positivo em US$ 994 milhões (+US$ 1,715 bilhão pelo financeiro e -US$ 721 milhões pelo comercial). No acumulado do ano, até dia 4, o fluxo está negativo em US$ 6,825 bilhões.
Bovespa
A Bovespa fechou em queda nesta quarta-feira pelo segundo dia consecutivo com investidores vendo espaço para realizar lucros. A maior pressão baixista veio da Vale e de grandes bancos, que empurraram o Ibovespa para os 48.665,09 pontos em uma queda de 0,89%. Na máxima, o indicador marcou 50.001 pontos em alta de 1,83%. Na mínima, caiu 0,98% aos 48.623 pontos.
Na avaliação de analistas e operadores, o recuo do Ibovespa acontece porque investidores entendem que chegou a hora de embolsar lucros depois da sequência de seis fechamentos em alta. Nesse rali, encerrado na segunda-feira (7/3), o Ibovespa valorizou-se 18,4%.Como mostra o ranking das corretoras no movimento intraday, a maioria das casas na ponta vendedora era estrangeira. Na ponta compradora, a maioria era brasileira.
A Bovespa totalizou um giro financeiro maior que a média diária dos últimos meses. O volume chegou a R$ 9,94 bilhões. Na média diária de fevereiro e de março do ano passado, o giro ficava em torno dos R$ 6 bilhões.
Apesar de ter fechado em queda de 4,53% e de 3,32%, as PNs do Bradesco e do Itaú Unibanco, respectivamente, sustentam ainda uma alta de 17,71% e de 21,53% no mês. O mesmo pode ser dito da ON e da PNA da Vale. A ação ordinária da mineradora encerrou em queda de 3,53%, mantendo-se em alta de 22,78% no mês. A preferencial caiu 3,20% hoje e sustentou uma valorização de 27,10% no mês. Além de refletir uma realização de lucros, a desvalorização da mineradora hoje é influenciada pelo recuo no preço do minério de ferro (-5,8%) e pela renovação de temores sobre a economia chinesa.
Impedindo uma queda maior do Ibovespa, a PN da Petrobras encerrou o dia em alta, seguindo o movimento dos contratos futuros de petróleo, que fecharam em alta. A PN subiu 1,74%. Já a ON encerrou o pregão em queda de 0,93%. Na ICE, em Londres, o petróleo Brent para maio fechou em alta de 3,58% aos US$ 41,07 por barril. Na Nymex, em Nova York, o petróleo WTI para abril fechou em alta de 4,90% a US$ 38,29 por barril.
Taxas de juros
O mercado de juros renovou o fôlego de queda nas taxas nesta quarta-feira. A percepção de que a presidente Dilma está se enfraquecendo continuou sendo o principal vetor a conduzir os negócios, com o reforço do IPCA de fevereiro, de 0,90%, abaixo do piso das previsões, fazendo emergir o debate sobre um corte da Selic em abril. Ao término da negociação regular, o DI julho de 2016 estava em 14,075%, de 14,115% no ajuste de ontem. O DI janeiro de 2018 fechou em 13,95%, de 14,22%. O DI janeiro de 2021 cedeu de 14,64% para 14,39%.
As taxas futuras mostraram recuo firme desde a abertura dos negócios, em linha com o dólar e sob o impacto do IPCA de 0,90% em fevereiro, ante 1,27% em janeiro. O índice ficou aquém do piso das estimativas, que iam de 0,92% a 1,12%, e desacelerou no acumulado em 12 meses, de 10,71% para 10,36%. Somado ao IGP-DI de fevereiro (0,79%) divulgado ontem, o IPCA alimentou a discussão sobre o início do afrouxamento monetário já no mês que vem. Ainda, o expressivo recuo do dólar acaba exercendo um efeito psicológico importante sobre o cenário de inflação de curto prazo.
No entanto, a abertura de posições vendidas mais agressivas continua no trecho longo e respaldada principalmente no cenário político. Houve muita especulação em torno da possibilidade do ex-presidente Lula assumir um ministério. Além disso, em encontro com senadores pela manhã, incluindo o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), Lula pediu uma reação dos senadores após ter sido alvo de uma condução coercitiva na última sexta-feira, determinada pela 24ª fase da Operação Lava Jato. "Estão querendo me incluir de todo o jeito. Estão forçando a barra", reclamou o petista, conforme relatos obtidos pelo Broadcast Político. Vale lembrar que Calheiros é um dos investigados na operação da Polícia Federal.
Dólar vai abaixo dos R$ 3,70 com cenário político e leilões
Moeda americana à vista cedeu 1,04%, aos R$ 3,6991, o menor valor em mais de seis meses