Economia

De olho em Brasília, Bolsa interrompe série positiva e fecha em baixa de 0,25%

Dólar teve a terceira sessão seguida marcada por forte volatilidade, estabilizando esta semana na casa dos R$ 5,40

Foto : Nelson Almeida / AFP / CP

O Ibovespa se acomodou um pouco abaixo da linha dos 105 mil pontos no fechamento desta quarta-feira em viés moderadamente negativo na sessão, colocando uma pausa em sequência positiva de seis pregões, a melhor desde os sete ganhos consecutivos colhidos na virada de maio para junho.

Com giro financeiro mais uma vez reforçado, em meio aos primeiros sinais de retomada do interesse do investidor estrangeiro pelos emergentes, o índice da B3 encerrou a sessão em baixa de 0,25%, a 104.808,83, tendo oscilado entre mínima de 104.143,47 e máxima de 105.462,33 pontos, com abertura a 105.066,96. O volume, que havia superado ontem R$ 51 bilhões, ficou hoje em R$ 35,5 bilhões, ainda alto para o padrão da B3. 

As ações de bancos e Petrobras, que haviam sido o principal dínamo para o Ibovespa nas últimas sessões, passaram por leve ajuste nesta quarta-feira, bem discreto se considerado o ganho acumulado pelos papéis neste começo de mês - ainda bem atrasados no ano e favorecidos agora por rotação em busca de ações com desconto, assim como, no caso da petrolífera, por recuperação nas cotações da commodity nos últimos dias. 

Nesta quarta-feira, Petrobras PN e ON fecharam respectivamente em baixa de 0,87% e 0,08%, com ganhos até aqui no mês a 20,80% e 24,32%. Entre os grandes bancos, as perdas se disseminaram moderadamente hoje, à exceção de Bradesco ON (+0,18%). Em novembro, os ganhos nas ações do setor estão agora entre 13,14% (Santander) e 22,03% (Itaú PN). No mês, o Ibovespa acumula até aqui alta de 11,56%, com avanço de 3,85% na semana - em 2020, cede 9,37%. 

O cenário de fundo desde a definição da eleição americana, no sábado, e o anúncio, anteontem, de eficácia acima de 90% em teste clínico de fase 3 na vacina desenvolvida por Pfizer e BioNTech permanece positivo, não apenas para as maiores economias, mas também para as emergentes, o que se reflete na regressão do dólar e no apetite por ativos de risco. Aqui, contudo, o mercado continua atento a sinais sobre a situação fiscal e o que será endereçado para 2021, de forma a melhorar a percepção sobre as contas públicas. Nas próximas semanas, enquanto se realizam as eleições municipais, a alternativa é seguir monitorando os sinais que chegam de Brasília - e os mais recentes não ajudaram. 

"O que volta agora é o maldito ruído, a sensação de que o governo parece perdido. O governo não tem dado os sinais que se esperam e o mercado começa então a questionar, especialmente quando autoridades passam a falar em inflação", observa Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset. "É preciso chegar a 2021 com tudo bem encaminhado, e não temos nem mesmo Orçamento definido, o que falar de achar fonte para fazer o Renda Cidadã. Daqui até lá teremos um período muito difícil, uma vez esfriado este entusiasmo natural que vemos agora, passada a eleição americana e o sinal sobre vacina."

Neste contexto ainda muito positivo, os investidores estrangeiros ingressaram com R$ 4,502 bilhões na B3 na última segunda-feira, o maior aporte em um único dia em termos nominais - sem correção inflacionária - desde 2007, ano em que se inicia a série de dados diários compilados pelo Broadcast. 

A vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais americanas e os resultados animadores sobre a vacina da Pfizer contra o coronavírus provocaram um rali nos ativos de mercados emergentes que ainda tem "muito espaço" para prosseguir neste final de ano, até o começo de 2021, avalia o Morgan Stanley nesta quarta-feira. O banco americano afirma prosseguir "bullish" (otimista) com estes mercados. Por sua vez, o Goldman Sachs elevou sua projeção para o nível em que o S&P 500 estará no fim de 2020, de 3.600 para 3.700 pontos, destacando a perspectiva de uma vacina para Covid-19 em breve.

"Apesar do cenário que se mantém positivo lá fora, à medida que o tempo passa, o investidor volta a ficar atento a outras coisas, como a nossa situação fiscal e os ruídos políticos. Uma pena o que aconteceu, é preciso que o presidente (Bolsonaro) tenha mais atenção à linguagem, e não trate o coronavírus como algo já superado - não fosse isso, teríamos visto mais uma alta hoje", aponta Jefferson Laatus, estrategista-chefe do grupo Laatus.

Palavras como "pólvora" e "hiperinflação" - esta proferida por Paulo Guedes, ministro da Economia - ingressaram ontem subitamente no vocabulário oficial, o que na terça-feira acabou sendo colocado em segundo plano pelo mercado, em dia no qual a B3 ainda reagia à proximidade da vacina e a recuperação que, uma vez disponível, proporcionará às economias, inclusive emergentes.

Na ponta do Ibovespa nesta quarta-feira, Via Varejo fechou em alta de 5,61%, à frente de BTG Pactual (+5,32%), Marfrig (+3,03%) e B3 (+2,40%). No lado oposto, Ultrapar cedeu 6,82%, seguida por Braskem (-6,57%), Hering (-4,32%) e Cogna (-3,88%).

Dólar

O dólar teve a terceira sessão seguida marcada por forte volatilidade, mas após idas e vindas vem se estabilizando esta semana na casa dos R$ 5,40. O Brasil tem recebido fluxo importante de capital externo pelo canal financeiro, que somou US$ 1,255 bilhão só este mês, até o dia 6, de acordo com o Banco Central. É um movimento que foi descrito hoje pelo Morgan Stanley como o de investidores procurando tudo o que conseguem comprar de mercados emergentes após a definição da eleição americana e resultados positivos da vacina contra o coronavírus da Pfizer. Mas, após ajuste inicial, o real tem resistido a mostrar apreciação maior, por conta dos riscos fiscais do Brasil, relatam profissionais das mesas de câmbio.

O dólar à vista, após altas e baixas ao longo do pregão, encerrou a quarta-feira com valorização de 0,43%, aos R$ 5,4164. No mercado futuro, o dólar com vencimento em dezembro fechou em baixa de 0,48%, em R$ 5,3940.

Após um período de escassez de recursos externos pelo canal financeiro, o Brasil voltou a receber aportes nos últimos dias. Em outubro, o fluxo mostrou saídas líquidas de US$ 560 milhões por esse canal, que no ano já superam US$ 50 bilhões. Mas com aportes na Bolsa, participação em ofertas de ações - como a da Aeris, fabricante de pás para aerogeradores de energia eólica - e captações externas - como a da CSN - este fluxo virou nos últimos dias. 

Para os estrategistas do banco americano Morgan Stanley, com a forte liquidez externa e a redução da incerteza em dois fronts importantes - as eleições americanas e a vacina sobre o coronavírus -, o rali nos ativos de emergentes deve continuar até ao menos o primeiro trimestre de 2021, especialmente na América Latina. Na região, o banco está comprado, ou seja, apostando na valorização de uma cesta de moedas formada pelo real, peso mexicano e peso colombiano contra o euro e o dólar.

Mas até que saiam mais detalhes da agenda fiscal e o Orçamento do governo para 2021, o que não deve ocorrer este mês, por conta das eleições municipais, a tendência é de real mais depreciado e câmbio volátil. O estrategista-chefe da gestora TAG Investimentos, Dan Kawa, reafirma estar convicto de que o mercado "não mais dará o benefício da dúvida" ao País. Assim, na ausência de reformas, os ativos locais irão operar com mais prêmio e não terão capacidade de seguir as tendências mais positivas globais. Ontem no final da tarde, o presidente Jair Bolsonaro sinalizou que pode querer prorrogar o auxílio emergencial, o que ajudou o dólar para dezembro acelerar a alta. Hoje, devolveu um pouco dos ganhos. 

Juros

Em sequência ao movimento de ontem, os juros continuaram subindo nesta quarta-feira pressionados pelo aumento dos ruídos políticos e dos riscos fiscais, que atingiu sobretudo os vencimentos longos. As taxas a partir de 2027 fecharam com avanço de mais de 20 pontos-base, com reforço na inclinação da curva, e, somando ao que tinham subido na véspera, já devolveram quase todo o prêmio perdido entre quarta da semana passada e segunda-feira. 

O dia reuniu uma série de fatores a justificar a cautela, desde a falta de avanço da agenda liberal, a postura agressiva do presidente Jair Bolsonaro ao comentar as ameaças do novo governo americano à atual política ambiental do Brasil e declarações levantando a hipótese de extensão do auxílio emergencial em 2021, até ajustes de posições antes do leilão de prefixados amanhã e aumento nos preços da gasolina. Nem mesmo as vendas do varejo abaixo da mediana estimada conseguiram segurar a curva, tampouco o bom humor dos mercados internacionais. 

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2022 encerrou a sessão estendida em 3,39% e a regular em 3,41%, de 3,305% ontem no ajuste. O DI para janeiro de 2023 terminou com taxas de 4,95% (regular e estendida), de 4,826% no ajuste de ontem. A taxa do DI para janeiro de 2025 encerrou a estendida em 6,67% (de 6,69% na regular e 6,505% no ajuste) e a do DI para janeiro de 2027, em 7,46% (7,48% na regular e ajuste de ontem a 7,244%).

"Mesmo com tudo favorável lá fora, o governo aqui consegue a proeza de gerar crises, com guerra da vacina e até da pólvora", disse o estrategista de Mercados da Harrison Investimentos Renan Sujii. Ontem, Bolsonaro disse que "apenas com diplomacia não dá" e defendeu que se tenha "pólvora" "depois que acabar a saliva", em meio à ameaça do presidente eleito dos Estados Unidos, Joe Biden, de aplicar sanções econômicas ao Brasil caso não haja atuação mais firme contra o desmatamento e as queimadas na Amazônia. Mais cedo, após a Anvisa suspender testes da vacina Coronavac, fruto da disputa política com o governador de São Paulo, João Doria, Bolsonaro escreveu no Twitter "mais uma que Jair Bolsonaro ganha". 

Além disso, o mercado vai colocando no preço o risco de haver extensão do auxílio emergencial para o próximo ano, mesmo que a equipe econômica tenha descartado essa hipótese, após o presidente questionar como vão ficar "os 40 milhões de invisíveis depois que o auxílio acabar?". "Prorrogar o auxílio é sinônimo de estender o estado de calamidade pública, em si um movimento que preconiza o desrespeito à âncora fiscal, pressiona os juros de longo prazo, acelera a depreciação da taxa de câmbio e induz um avanço preocupante das expectativas de inflação", disseram os economistas da Guide. 

Por outro lado, é consenso o papel importante que o auxilio vem exercendo para amparar a recuperação da economia e a perspectiva de redução do benefício para R$ 300 a partir de outubro, e de extinção no ano que vem, pode ser uma explicação para a desaceleração das vendas do varejo em setembro, mas com impacto limitado pelo aumento da flexibilização do isolamento social. Na margem, as vendas do varejo restrito subiram 0,6%, menos que a metade da mediana estimada (1,40%), e as do varejo ampliado avançaram 1,2% (mediana de 1,75%).

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