Em dia de forte volume de negócios, dólar fecha em alta, a R$ 4,28
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Em dia de forte volume de negócios, dólar fecha em alta, a R$ 4,28

Primeiros sinais de impacto do coronavírus na indústria brasileira também contribuíram para o aumento da moeda americana

Por
AE

Bolsa interrompe série positiva e termina dia em baixa de 0,72%, aos 115.189,97 pontos

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A valorização do dólar no exterior, um dia antes da divulgação do relatório de emprego de janeiro dos Estados Unidos, documento que baliza as decisões do Federal Reserve, contribuiu para pressionar o mercado de câmbio aqui. Os primeiros sinais concretos de impacto do coronavírus na indústria brasileira também contribuíram para estimular a busca por proteção no dólar, dia também marcado por saída de capital externo, seja por uma grande operação relatada por operadores, seja por capital deixando a Bolsa.

Em dia de forte volume de negócios, o dólar à vista fechou com valorização de 1,09%, a R$ 4,2852. A moeda americana fechou em nova máxima nominal desde a implantação do Plano Real, de acordo com as cotações do AE Dados. A anterior foi dia 31 de janeiro, quando o dólar terminou em R$ 4,2850. No mercado futuro, o dólar para março chegou na máxima a R$ 4,2910.

No exterior, a divisa americana subiu hoje após a China anunciar redução de tarifas para US$ 75 bilhões de produtos comprados dos Estados Unidos, movimento que tende a fortalecer a economia americana, e também no aguardo de um bom relatório de emprego (chamado de payroll), que será divulgado amanhã. O Morgan Stanley espera criação de 155 mil vagas em janeiro.

Aqui, o Comitê de Política Monetária (Copom) cortou os juros ontem e sinalizou que o ciclo de reduções chegou ao fim. Com isso, o diferencial de juros do Brasil com o exterior, já historicamente baixo, para de diminuir. Logo na abertura, o dólar registrou a mínima do dia, a R$ 4,20, refletindo o alívio pelo fim do ciclo, mas o movimento não durou muito e o real se alinhou a outras moedas emergentes. Para a analista de moedas do banco alemão Commerzbank, You-Na Park-Heger, se o Banco Central tivesse optado por "deixar as portas abertas" para novos cortes da Selic, o estrago no câmbio seria ainda maior. Hoje, a moeda emergente com pior desempenho ante o dólar foi o rand da África do Sul.

Para a economista-chefe da Veedha Investimentos, Camila Abdelmalack, não só o baixo diferencial de juros contribui para pressionar o câmbio, mas fatores domésticos hoje contribuíram para o clima de maior estresse. Entre eles, as declarações do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de que o caminho das reformas é longo, e a homologação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) da delação premiada do ex-governador do Rio, Sergio Cabral. Um dos temores é que possa envolver empresas listadas na Bolsa.

Operadores ressaltam ainda que preocupações do coronavírus voltaram ao radar após a divulgação de uma sondagem feita pela Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). Segundo o levantamento, 22% das empresas afirmam que há a possibilidade de paralisar a produção nas próximas semanas caso a situação persista. Houve ainda por 52% dos entrevistados de problemas no recebimento de materiais e insumos da China. "Podem começar a faltar peças e gerar um enfraquecimento geral", afirma o responsável pela a área de câmbio da Terra Investimentos, Vanei Nagem.

Ibovespa

Após três sessões em alta, o Ibovespa fechou nesta quinta-feira, 6, em baixa de 0,72%, a 115.189,97 pontos, em sessão de forte avanço da moeda americana, descolando o mercado brasileiro de um dia positivo no exterior, com ganhos nas bolsas da Ásia, Europa e EUA. Na mínima do dia, o principal índice da B3 perdeu a linha de 115 mil, aos 114.722,68 pontos, em baixa de 1,13%, chegando na máxima aos 117.381,83 pontos - uma variação de 2.659,15 pontos entre o piso e o pico do dia. O giro financeiro foi alto, totalizando R$ 28,3 bilhões. Na semana, o índice avança 1,26% e, no ano, perde 0,39%.

Nem mesmo o bom desempenho das ações da Petrobras, após precificação de venda a R$ 30 para o papel ON em poder do BNDES, foi o suficiente para segurar o Ibovespa na sessão - embora tenha contribuído para limitar as perdas do índice. Petrobras ON fechou em alta de 2,69% e a PN, de 2,78%, em dia de novo ajuste negativo, embora moderado, no barril do Brent (-0,63% no contrato para abril).

As razões para a forte variação do Ibovespa nesta quinta-feira - com perdas que se acentuaram por volta de 16h30, quando o índice perdeu a linha de 115 mil pontos - foram múltiplas, na visão de operadores e analistas: a fraqueza das ações de bancos; a pressão do dólar - que mesmo barateando as ações brasileiras, não tem atraído investidores estrangeiros para a B3 -; a queda sustentada do petróleo e do minério de ferro em meio a dúvidas sobre a demanda chinesa; e a porta fechada ontem pelo Copom para novos cortes de juros, em um contexto no qual dados econômicos, abaixo do esperado, já haviam acendido a luz amarela para o nível de preços das ações brasileiras.

Mesmo fatores um tanto exógenos - como o comentário do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, de que a Bolsa estaria cara - teriam pesado em algum grau na percepção dos investidores, assim como a homologação, pelo ministro Edson Fachin (STF), da delação premiada do ex-governador do Rio Sergio Cabral - o que poderia resultar em pressão sobre ações de construtoras. "Maia disse (ontem à noite, na Globonews) que o caminho das reformas será longo, o que não ajuda", aponta um operador. "A volatilidade que tivemos hoje é uma prévia do que teremos no vencimento de opções sobre o Ibovespa, na próxima quarta-feira (dia 12)", acrescenta.

Para além dos comentários e decisões, os fundamentos pesaram possivelmente mais. "O dólar está além da taxa de equilíbrio e mesmo assim não há reação das exportações, o que configura um cenário externo menos comprador, em um contexto no qual o mundo desenvolvido já vinha expressando cautela com os emergentes. Daí, o fluxo de saída de recursos", diz Renato Chain, estrategista da Arazul, acrescentando haver certo "esgotamento" da progressão do Ibovespa observada no ano passado, sustentada essencialmente pelo investidor doméstico.

O cenário externo, envolto em maior incerteza desde a eclosão do coronavírus, é uma variável que permanece na equação. "A Bolsa tem grande exposição a commodities e ainda não é possível quantificar o efeito que o surto terá na economia chinesa, grande cliente de nossas matérias-primas. Essa incerteza tem se refletido nos preços do petróleo, do minério de ferro e da soja. A reação do governo chinês até o momento foi mais financeira, resta conferir a economia real. A questão das tarifas foi um primeiro passo", diz Shin Lai, estrategista da Upside Investors Research, referindo-se a anúncio, pela China, da redução de tarifas sobre US$ 75 bilhões em produtos comprados dos Estados Unidos.

Apesar do surto de coronavírus que atinge a China desde meados de janeiro, o país asiático continuou sendo o principal destino de exportações brasileiras no primeiro mês de 2020. Entre os 10 principais compradores de produtos brasileiros, a China teve a menor queda na aquisição de bens no mês passado ante janeiro de 2019, segundo os números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia.

Juros

O ajuste ao comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) continuou pautando a curva de juros nos trechos curto e intermediário no período da tarde, sustentando as taxas em alta, com ajuda ainda da piora do câmbio na etapa vespertina. Como os diretores sinalizam claramente para o fim do atual ciclo de baixa da Selic, a curva "limpou" as apostas até ontem de que o texto pudesse sinalizar para mais um corte da Selic em março, que eram minoritárias, e já passa precificar 100% de chance de Selic estável na próxima reunião. Por isso, as taxas de curto prazo fecharam com viés de alta, enquanto nos vértices intermediários o avanço foi firme, com o mercado ampliando as fichas na possibilidade de um aperto monetário, principalmente a partir de 2021.

O volume de contratos negociados em função do Copom foi muito acima da média padrão. O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para abril de 2020, por exemplo, movimentando mais de 1 milhão. Este vencimento capta as apostas para o Copom de fevereiro e o de março e fechou com taxa de 4,156% (regular) e 4,155% (estendida), praticamente estável ante o ajuste anterior (4,164%), considerando ainda que a curva ontem tinha apostas residuais de que a Selic seria mantida nos 4,50%. O DI para janeiro de 2021 fechou a 4,33% e 4,34% (regular e estendida), de 4,29% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2023 subiu de 5,421% para 5,54% (regular) e 5,56% (estendida).

Nos longos, o comunicado do Copom deveria manter as taxas mais de lado, mas de todo modo subiram por causa do câmbio. O DI para janeiro de 2025 terminou com taxa de 6,14% (regular) e 6,17% (estendida), de 6,051%, e a do DI para janeiro de 2027 avançou de 6,391% para 6,47% (regular) e 6,49% (estendida).

Para Luis Felipe Laudisio, operador da Renascença, o ajuste mais significativo ao Copom se deu no vértice janeiro de 2022, que girou mais de 700 mil contratos, ante a média diária de 275 mil no último mês. Este DI fechou com taxa de 5,02% (regular e estendida), ante 4,891% ontem.

Segundo Flávio Serrano, economista-chefe do Haitong Banco de Investimentos, além da curva agora precificar 100% de chance de Selic estável em março (ontem era cerca de 70%), já há prêmio de risco para aperto da Selic a partir de junho, com 10% de chance de aumento de 0,25 ponto porcentual. Para o fim do ano, a curva aponta Selic entre 4,75% e 5%.

No comunicado, o Copom afirma que "entende que o atual estágio do ciclo econômico recomenda cautela na condução da política monetária". "Considerando os efeitos defasados do ciclo de afrouxamento iniciado em julho de 2019, o Comitê vê como adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária", diz o texto.

À tarde, o clima nos mercados locais ficou mais tenso, com o dólar acelerando a alta até bater nova máxima nominal histórica de fechamento, a R$ 4,2852, o que também pesou na curva, segundo Laudisio.