Fórum de Energias Renováveis

Data Centers para IA devem impulsionar demanda por energia renovável no RS

Território gaúcho tem potencial em energia eólica para alcançar capacidade instalada de estados do Nordeste, apontam representantes do setor

Desafios do setor serão debatidos no 5º Fórum de Energias Renováveis em Porto Alegre, no dia 10 de junho
Desafios do setor serão debatidos no 5º Fórum de Energias Renováveis em Porto Alegre, no dia 10 de junho Foto : Mauro Schaefer / CP Memória


Empresários do setor elétrico têm apontado o Rio Grande do Sul como um estado promissor na área de energias renováveis. Em recente evento dedicado ao setor eólico em Porto Alegre, o deputado estadual Frederico Antunes, presidente da Frente Parlamentar Pró-Energias Renováveis, pontuou que investimentos em linhas de transmissão são o principal desafio do estado para atrair mais empreendimentos eólicos.

Segundo ele, com planejamento o RS tem chance de voltar a figurar entre os estados mais competitivos em potência eólica instalada no Brasil, alcançando patamares trabalhados nos estados nordestinos.

“A gente já tem projetado com o Sindienergia-RS a projeção de linhas de transmissão. Se ligarmos tudo que já está projetado com planejamento vamos voltar a uma situação igual a do Nordeste. Já estamos pensando ali na frente”, afirmou o parlamentar.

A presidente do Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do Rio Grande do Sul (Sindienergia-RS), Daniela Cardeal, ressaltou que a entidade já apresentou um estudo “para pavimentar a questão da transmissão” ao Comitê de Planejamento Energético do RS (Copergs).

“A gente precisa (solucionar o gargalo da transmissão) até 2028 sob pena de não ficarmos cobertos na região metropolitana. O setor de energia elétrica e de infraestrutura são setores regulares. O governo político é que incentiva a demanda”, salientou a presidente do sindicato.

Hoje, o Nordeste atrai os maiores empreendimentos na área, porque possui fundos constitucionais que incentivam as energias renováveis na região. A ferramenta foi criada pelo Governo Federal para promover equidade econômica aos estados da região em relação às demais unidades federativas.

O Rio Grande do Sul ocupa o 5º lugar no ranking nacional em capacidade de energia eólica instalada, com 1.835,89 MW, conforme dados de 2023 da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

Os Estados mais fortes são, respectivamente, Rio Grande do Norte (potência de geração 7.872,4 MW), Bahia (7.633,37 MW), Piauí (3.583,95 MW) e Ceará (2.568,34 MW).

Em termos gerais, o RS ainda é um grande importador de energia elétrica. Segundo o Plano Decenal de Energia para 2034 da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o Rio Grande do Sul planeja ampliar sua capacidade de importação de energia em até 4 GW nos próximos anos.

“Quando vamos pensar em potências associadas a eólicas, um projeto pequeno vai ter seus 100, 150 a 200 MW, um maior a gente está falando na casa de 1.000 MW (1GW), para um estado que ainda importa energia, esses números são muito significativos”, pontuou Daniela.

RS apresenta cenário positivo para eólicas

Segundo Alex Petter, diretor da Renobrax, uma das principais referências em projetos eólicos no Brasil, o Rio Grande do Sul tem apresentado cenários atrativos para investimento em energia eólica quando comparado a estados do Nordeste.

Alguns dados apresentados pelo diretor demonstram essa favorabilidade:

  • As projeções de TUST Geração para a região Sul em 2034 indicam um valor de apenas R$ 4,04/KW por mês. O valor é duas vezes menor do que o custo de conexão projetado para o Nordeste. (Dados: Plano Decenal de Energia da EPE 2034). Segundo o engenheiro, isso garante competitividade para os projetos no RS, até mesmo para os que não possuem outorga incentivada com redução de 50% de TUST.

*TUST (Tarifa de Uso do Sistema de Transmissão): taxa sobre uso das linhas de transmissão, que conectam grandes blocos de energia a longas distâncias.

  • O submercado SUL tem apresentado PLD Horário maior no início e no fim do dia comparado ao submercado NORDESTE. Segundo o engenheiro, isso eleva a atratividade do investimento no RS e favorece portfólios que possuem energia eólica no estado.

*PLD (Preço de Liquidação das Diferenças): é o preço pago pelo consumidor livre quanto este consome mais energia do que contratou, e precisa compensar essa falta.

*Curtailment: limitação ou corte da geração de energia, especialmente em usinas renováveis como eólicas e solares, quando há excesso de produção ou restrições na rede de transmissão.

Data Centers para IA podem impulsionar demanda por energia renovável no RS

A empresa Scala Data Center anunciou no final de 2023 a construção de um distrito industrial onde serão instalados mega data centers especializados em Inteligência Artificial na cidade de Eldorado do Sul (RS), a 17 km de Porto Alegre. A unidade gastará cerca de 60 MW na primeira fase, mas poderá chegar a 4.750 MW.

A previsão é que a primeira fase do projeto entre em operação em 2027. O complexo anunciado pela Scala Data Centers já é considerado o maior da América Latina e é inédito no Brasil. No paralelo, o governo federal ainda prepara um marco regulatório para Inteligência Artificial e Data Centers no país.

A empresa não divulgou de onde virá a energia necessária. Mas, segundo informações já divulgadas, o fornecimento energético para o empreendimento já foi garantido.

De qualquer forma, o governador Eduardo Leite anunciou recentemente um novo cabo submarino internacional que conectará o RS ao mundo. Com esse anúncio, a possibilidade de novos investimentos em data centers na região cresce, o que deve impulsionar a demanda por energias renováveis no RS nos próximos anos.

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Eólicas offshore

As eólicas offshore caracterizam um novo ramo de investimentos em energia eólica no Brasil. Ainda em fase de complementação regulamentória pelo governo federal, o setor já tem diversos projetos protocolados junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).

Grande parte dos projetos apresentados são no Rio Grande do Sul. Caso aprovados, os projetos têm potencial para elevar o estado ao patamar dos maiores produtores de energia eólica, uma vez que parques offshore podem gerar cerca de duas vezes mais energia que um parque eólico na terra.

“Sem dúvida alguma estamos falando de uma disponibilidade de energia que vai ser o carro chefe. Os hotspots (pontos quentes) de geração, não à toa, estão associados com os locais onde foram pedidos os licenciamentos, eles estão no Nordeste, Sudeste e Sul”, ressaltou Daniel Dias Loureiro, analista de Pesquisa Energética da EPE – Empresa de Pesquisa Energética.

Hoje a EPE realiza pesquisas para avaliar possíveis aproveitamentos de energia de ondas, marés e correntes em empreendimentos offshore. “Estamos desenvolvendo um estudo para definir se isso pode ter uma sinergia positiva quando se fala de offshore”, destacou Daniel.

Nesse contexto, o Planejamento Espacial Marinho Sul, que está em desenvolvimento sob coordenação da Marinha do Brasil, também deve trazer levantamentos importantes para o setor.

“Ainda temos algumas complementações regulamentórias importantes, que apontarão critérios adotados nos processos de licitações. O estudo de macro áreas por parte da EPE e outras instituições serão importantes para termos nosso primeiro leilão de áreas. Precisamos de critérios que possam garantir não só a competitividade, mas trazer industrialização para o Brasil, da indústria portuária, cabeamento, etc”, contextualiza Matheus Eurico, Head de Energia Eólica Offshore da ABEEólica.

A modernização dos portos gaúchos será de extrema importância para comportar a nova indústria offshore, que opera com peças de grande escala.

“As eólicas offshore começam nos portos. Além de atrair investimentos por si só, elas podem atrair outros tipos de investimentos. Para isso, o Brasil precisa de um planejamento, que foi o que países mais avançados nessa indústria fizeram nos últimos anos”, complementou Matheus Eurico.

5º Fórum de Energias Renováveis

Todas essas discussões estarão presentes no 5º Fórum de Energias Renováveis. O evento realizado pelo Correio do Povo e pelo Sindienergia-RS ocorrerá no dia 10 de junho, no Teatro CIEE-RS Banrisul, em Porto Alegre.

Com vagas limitadas, o evento é aberto ao público. As inscrições gratuitas estão abertas na plataforma Sympla.

O fórum contará com transmissão ao vivo no Youtube do Correio do Povo.