Ibovespa cai 0,73% e dólar fecha o dia a R$ 4,16
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Ibovespa cai 0,73% e dólar fecha o dia a R$ 4,16

Negociações entre EUA e China e votação da reforma da Previdência geraram certa estabilidade na moeda

Por
AE

Ibovespa terminou dia nos 103.875,66 pontos

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O Ibovespa encerrou o segundo pregão consecutivo em queda nesta terça-feira retornando à marca 103 mil pontos, que não tocava desde o dia 16 de setembro. Sem novidades na cena interna para ajudar na tração, o principal índice da B3 seguiu o sinal de seus pares em Nova York, onde os investidores passaram a se mostrar ariscos a posições em ativos de risco diante das incertezas que envolveriam a apresentação de um pedido de afastamento do presidente americano Donald Trump. O início do processo para impeachment de Trump só foi anunciado no início da noite pela presidente da Câmara, Nancy Pelosi.

Domesticamente, aumentou a pressão vendedora que já era notada desde o início da manhã em empresas ligadas às commodities, que já seguiam a queda do petróleo e do minério de ferro no mercado internacional.

Por outro lado, companhias de carnes como JBS, Minerva e BRF se beneficiaram de perspectivas de maior exportação em um ambiente de continuidade da peste suína em países asiáticos. Já empresas do varejo avançaram movidas pelo noticiário corporativo.

Também pesou de forma negativa, mas relativamente, na primeira etapa da sessão de negócios o fato de a votação do relatório da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado ter sido adiada para a semana que vem.

Para Filipe Villegas, analista da Genial Investimentos, levando em consideração a conjuntura atual - com implicações gerais de uma guerra comercial em curso, mas um cenário interno de juros na mínima histórica e em sequência de queda, além de sinais mais claros de retomada, mesmo que lenta da atividade, a bolsa deveria estar mais perto da marca dos 105 mil pontos.

Sem volume significativo durante a sessão, o Ibovespa oscilou mais de mil pontos entre a máxima de 104.982,90 pontos e a mínima de 103.503,53 pontos. Fechou em queda de 0,73%, aos 103.875,66 pontos e giro de R$ 13,9 bilhões, pouco superior ao nível registrado na véspera.

Dólar

O adiamento da votação da reforma da Previdência no Senado desagradou aos investidores e impediu que o real se beneficiasse do movimento global de enfraquecimento da moeda americana nesta terça-feira. Afora uma queda no início do pregão, quando prevalecia certo otimismo com o andamento das negociações entre Estados Unidos e China, o dólar à vista operou entre estabilidade e leve alta ao longo do dia.

Com mínima de R$ 4,1535 e máxima de R$ 4,1840 - registrada no início da tarde -, o dólar fechou a R$ 4,1692 (-0,05%). O volume negociado foi reduzido tanto no mercado à vista (US$ 1 bilhão) quanto no futuro (US$ 15,3 bilhões) - o que, segundo operadores, mostra a falta de disposição para apostas mais contundentes.

A mínima do dólar se deu na esteira do otimismo provocado por declarações do secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, de que EUA e China retomariam negociações em duas semanas. O clima azedou um pouco em seguida, após o presidente americano, Donald Trump, em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), defender uma política protecionista e acusar a China de manipulação cambial.

O dólar começou a escalar em relação ao real quando saiu a notícia de que a votação da reforma da Previdência - programada para esta terça na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e no plenário no Senado em primeiro turno - foi adiada para a próxima semana. Segundo o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), a votação em segundo turno será realizada na primeira quinzena de outubro - ou seja, pode se estender para além do dia 10, como previa o calendário fechado com líderes.

O estrategista da Monte Bravo, Rodrigo Franchini, observa que, embora esteja mantida a perspectiva de aprovação da reforma sem grande desidratação, o adiamento provoca certo desconforto e coloca os investidores na defensiva. "O dólar caiu em relação aos emergentes e deveria ser um dia de queda aqui também. Mas essa questão da Previdência trouxe um pouco de aversão ao risco, porque parecia que estava tudo pronto para votar", afirma Franchini.

Lá fora, o dólar caiu em relação à maioria das divisas emergentes e de exportadores de commodities, à exceção do peso colombiano e do rublo. O índice DXY - que mede a variação da moeda americana em relação a seis divisas fortes - também recuou. As perdas globais do dólar são atribuídas a dados fracos da economia americana (como a queda do índice de confiança do consumidor em setembro) e à notícia de início de procedimentos no Congresso dos EUA para um processo de impeachment contra o presidente Donald Trump.

Por aqui, a ata do Copom reiterou o tom 'dovish' do comunicado da decisão da semana passada e reforçou a expectativa de que haverá nova redução da Selic em 0,50 ponto porcentual em outubro, para 5% ao ano. "A ata confirmou essa expectativa de mais corte da Selic, o que diminui ainda mais o diferencial de juros e acaba tirando força para o real", afirma Reginaldo Carvalho, gerente de câmbio da Treviso Corretora.

Pela manhã, o BC vendeu a ração diária de US$ 580 milhões com leilão à vista de dólares conjugado com swaps cambiais reversos (11.600) contratos com vencimento em 1º de novembro. Além disso, foi vendida a oferta total de US$ 1,8 bilhão em dois leilões de linha - US$ 1,250 bilhão para recompra em 3 de dezembro e US$ 550 milhões para recompra em 4 de fevereiro.

Taxas de juros

O mercado de juros deu nesta terça-feira sequência ao movimento de realização de lucros visto na segunda e as taxas longas fecharam com avanço moderado, refletindo o desconforto do mercado com o adiamento da votação da reforma da Previdência na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) para a próxima semana e o ambiente externo negativo. As taxas curtas encerraram perto da estabilidade, mas com viés de alta. A ata do Copom veio dentro do esperado, com poucas alterações em relação ao comunicado da reunião, mas, com o dólar persistindo nos últimos dias acima dos R$ 4,10, alguns profissionais acreditam que, pela leitura do cenário híbrido do Banco Central, uma Selic muito abaixo de 5% no fim do ciclo de afrouxamento pode ser uma aposta excessivamente otimista.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2021 fechou em 5,03%, de 5,009% na segunda no ajuste, e o DI para janeiro de 2023 passou de 6,13% para 6,15%. O DI para janeiro de 2025 fechou com taxa de 6,79%, de 6,741%.

Logo após a abertura, pautada pela ata do Copom, as taxas passaram a etapa inicial dos negócios oscilando em torno dos ajustes, mas no meio da manhã começaram a subir. Os investidores reagiram mal ao adiamento da votação da reforma na CCJ do Senado, que era esperada para esta terça mas ficou para a semana que vem, assim como a votação no plenário da Casa. A medida foi uma resposta à operação da Polícia Federal que teve o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), como alvo na semana passada. "Isso, juntamente, com o discurso de Trump atacando a China, acabou por favorecer a alta do dólar e pesou na curva, pela piora da percepção de risco", disse o estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rostagno.

A postergação da votação não abalou a confiança em torno da aprovação da proposta, mas trouxe um sinal de alerta de que a tramitação parece que não será tão simples quanto parecia logo depois que o texto passou na Câmara.

No exterior, a aversão ao risco foi crescendo ao longo o dia. A cautela veio de várias frentes, entre elas o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no qual voltou a atacar a China e, à tarde, a possibilidade de o Congresso norte-americano abrir um processo de impeachment contra Trump, o que se confirmou à noite. Internamente, a ata do Copom foi o destaque da agenda e reiterou a mensagem do comunicado de que a Selic deve ser reduzida em mais 0,5 ponto porcentual na próxima reunião e de que há espaço para ir abaixo de 5% no fim do ciclo de afrouxamento monetário. Porém, em função do cenário híbrido do BC, agora há maior reticência sobre as chances de ir a 4,50% por exemplo, se o dólar romper os R$ 4,20. O cenário híbrido, que considera Selic da pesquisa Focus de 5,0% e dólar constante a R$ 4,05, aponta IPCA de 3,8% em 2020, abaixo da meta de inflação de 4%.