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Ibovespa sobe e dólar cai após definições na comissão da reforma da Previdência

Virada veio após o Rodrigo Maia anunciar os nomes de Marcelo Ramos e Samuel Moreira como presidente e relator da proposta

Por
AE

"Perspectiva é que o dólar ceda mais um pouco em relação ao real nos próximos dias", diz diretor da NGO

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O mercado brasileiro de ações voltou a se animar com o noticiário em torno da reforma da Previdência e levou o Índice Bovespa a uma alta significativa, reconquistando o patamar dos 96 mil pontos. Entre as principais referências desta quinta-feira, esteve a rápida instalação da comissão especial da reforma da Previdência na Câmara, com definição dos nomes do presidente e do relator da matéria. O aumento da projeção de impacto fiscal da proposta de reforma também repercutiu positivamente, bem como as sinalizações do presidente Jair Bolsonaro sobre a privatização de estatais.

Com isso, o principal índice de ações da B3 terminou o dia aos 96.552,03 pontos, na máxima do dia, com ganho de 1,59%. Os negócios somaram R$ 14,9 bilhões. O Ibovespa chegou a cair 0,88% pela manhã, ainda sob influência das incertezas quanto à capacidade de articulação do governo na reforma previdenciária e com o dólar superando a marca dos R$ 4,00.

A virada veio após o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), anunciar os nomes de Marcelo Ramos (PR-AM) e de Samuel Moreira (PSDB-SP) como presidente e relator da proposta do governo na comissão especial. No final da manhã, o Ministério da Economia anunciou que a economia com a proposta de reforma da Previdência subiu de R$ 1,072 trilhão para R$ 1,236 trilhão em dez anos.

Para Felipe Silveira, analista de investimentos da Coinvalores, a quinta-feira contou com alguma melhora na aversão ao risco no cenário externo e com a redução dos temores com a reforma por aqui, embora o ambiente de volatilidade ainda esteja presente no curto prazo. "A elevação do cálculo de economia com a reforma foi fator positivo por fornecer uma 'gordurinha' a mais para a desidratação que o mercado já espera. É um fator que acaba animando o investidor, pela possibilidade de o resultado final ficar mais em linha com o que se espera", afirmou Silveira.

O analista também ressaltou as sinalizações do presidente Jair Bolsonaro sobre a possibilidade de privatização da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT) e da Petrobras.

As altas do Ibovespa foram praticamente generalizadas entre as blue chips, com exceção de Vale ON (-0,06%), prejudicada pela queda do preço do minério. O setor financeiro reagiu com altas significativas, tendo à frente B3 ON (+3,79%) e Banco do Brasil ON (+1,64%). Ainda no grupo financeiro, destaque para as ações do Bradesco, depois que a instituição divulgou resultado financeiro trimestral acima das estimativas dos analistas. Bradesco PN fechou em alta de 1,18% e Bradesco ON passou por realização de lucros, com -0,03%.

Dólar

A percepção de que a tramitação da reforma da Previdência vai engrenar abriu espaço para uma recuperação expressiva do real na sessão desta quinta-feira. O dólar até abriu em alta e rompeu o teto de R$ 4 nos primeiros negócios, dando sequência ao movimento ascendente de quarta-feira com o ambiente externo, mas perdeu fôlego ainda pela manhã com o anúncio da formação da comissão especial da Previdência na Câmara e a divulgação dos dados que embasam a proposta do governo. Com máxima de R$ 4,006 e mínima de R$ 3,9499, o dólar encerrou os negócios cotado a R$ 3,9554, em queda de 0,78%. Apesar do alívio, a moeda americana ainda acumula alta de 0,65% na semana.

Segundo operadores, diante de sinais de que o governo tenta acertar os ponteiros da articulação política, com elogios mútuos entre o presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), investidores desmontaram posições compradas na moeda americana. A entrada de exportadores na ponta da venda quando o teto de R$ 4 foi superado também teria ajudado a derrubar a moeda americana.

Depois da caminhada tortuosa da PEC na Câmara, houve surpresa com rapidez da instalação da comissão especial, que já tem presidente - deputado Marcelo Ramos (PR-AM) - relator - deputado Samuel Moreira (PSDB-SP) - e até data para a primeira reunião para debater a proposta (7 de maio). Tanto Ramos quanto Moreira ressaltaram que vão trabalhar para aprovação da reforma no plenário da Câmara ainda no primeiro semestre, mas já adiantaram que pontos como alteração da aposentadoria rural e de professores, além do Benefício de Prestação Continuada (BPC) não devem vingar.

Dados divulgados pela equipe econômica elevaram a projeção para a economia proporcionada com a reforma em 10 anos - de R$ 1,072 trilhão para R$ 1,236 trilhão -, o que em tese traz uma espécie de "gordura" a mais para ser queimada em um previsível processo de diluição da proposta. Haveria menos risco, portanto, de que o valor final do impacto fiscal ficasse muito abaixo do R$ 1 trilhão almejado pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Pela manhã, Bolsonaro afirmou que Guedes até aceitaria um número menor, de R$ 800 bilhões, mas voltou atrás no fim da tarde e afirmou que "não existe um dado mínimo". 

Para Sidnei Nehme, diretor da NGO Corretora de Câmbio, com a ofensiva do governo pela Previdência, o mercado não teve alternativa a não ser desmontar posições compradas em dólar. "Não havia fundamento para o dólar a R$ 4, mesmo com a alta da moeda americana lá fora na quarta. A perspectiva é que o dólar ceda mais um pouco em relação ao real nos próximos dias", diz Nehme, acrescentando que parte do movimento especulativo contava com uma intervenção do Banco Central para encerrar operações com lucro. "Mas não há motivo para o BC intervir. Não há sinal de demanda por dólar, mas apenas uma especulação no mercado futuro".

Pela manhã, o diretor de política monetária do Banco Central, Bruno Serra, disse que o BC não persegue "nível ou tendência específicos para a taxa de câmbio, mas que pode atuar no mercado "caso identifique alguma anomalia em seu regular funcionamento".

Taxas de juros

A pressão de alta que marcou a etapa matutina dos negócios com juros começou a se esvair no início da tarde, abrindo espaço para que as taxas fechassem de lado, embora alguns contratos tenham preservado um viés de alta. O alívio se deu a partir da aceleração da queda do dólar e à repercussão positiva da instalação da comissão especial da Câmara para analisar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Previdência entre o fim da manhã e o começo da tarde. Tais fatores acabaram amenizando o efeito do IPCA-15 de abril acima da mediana das estimativas.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2020 fechou a jornada regular em 6,460%, mesmo patamar do ajuste de quarta; a do DI para janeiro de 2021 subiu de 7,042% para 7,08%. A taxa do DI para janeiro de 2023 passou de 8,222% para 8,23%. A taxa do DI para janeiro de 2025 terminou a 8,77%, de 8,762%.

Apesar do alívio nas taxas à tarde, os mercados de bolsa e câmbio "andaram" bem mais em relação aos juros, cuja melhora se deu com um certo atraso durante o dia. "Houve alguma realocação de risco, pois o pré vinha tendo desempenho melhor do que os demais nos últimos dias", disse um gestor. Essa resistência foi também foi atribuída ao fato de que as revisões de inflação para cima e a manutenção do câmbio acima de R$ 3,90 podem representar um entrave para um eventual afrouxamento da política monetária, ainda que, ao mesmo tempo, as expectativas para a atividade só façam piorar. O IPCA-15 subiu 0,72% em abril, sendo a taxa mais elevada para o mês desde 2015. O dado ficou acima da mediana das previsões dos analistas (0,67%). Após o dado, o JPMorgan elevou a projeção para IPCA de 2019 de 3,80% para 4,00%.

Além do avanço do dólar, outro fator a trazer cautela pela manhã foi a expectativa com os lotes de títulos prefixados que o Tesouro ofereceria no leilão tradicional. Porém, as ofertas - de 6,5 milhões de LTN e 450 mil NTN-F, vendidos integralmente - vieram abaixo das da semana passada (1,050 milhão de NTN-F e 7 milhões de LTN), tirando pressão das taxas.

Ainda, o investidor reagiu positivamente à instalação da comissão especial da reforma da Previdência, que já tem presidente, o deputado Marcelo Ramos (PR-AM), e relator, deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), eleitos, mas só começará a funcionar em 7 de maio.