A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou nesta quarta-feira (17) que o país ainda não está pronto para assinar o amplo acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Em discurso no Parlamento, Meloni declarou que a assinatura nos próximos dias seria prematura, uma vez que salvaguardas essenciais para proteger os agricultores italianos ainda não foram concluídas.
O posicionamento da Itália é visto como decisivo para o futuro do pacto. Diplomatas europeus apontam que Meloni detém as chaves para a aprovação ou o bloqueio do tratado, especialmente diante da forte resistência da França e da pressão da Alemanha pela assinatura imediata.
Parlamento Europeu reforça proteção ao campo
A declaração de Meloni ocorre um dia após o Parlamento Europeu aprovar, por larga maioria, medidas de proteção reforçada para os agricultores do bloco. O objetivo é criar mecanismos de supervisão sobre produtos considerados sensíveis, como carne bovina, aves e açúcar, permitindo a aplicação de tarifas caso o mercado europeu seja desestabilizado pelas importações sul-americanas.
Os eurodeputados estabeleceram critérios mais rígidos do que os sugeridos inicialmente pelos Estados-membros. Eles defendem que a Comissão Europeia intervenha se o preço de um produto vindo do Mercosul for pelo menos 5% inferior ao similar produzido na UE, ou se o volume de importações sem tarifas aumentar mais de 5%. A proposta original previa gatilhos apenas em caso de variações de 10%.
Divisões no Bloco
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mantém o plano de assinar o tratado durante a cúpula do Mercosul, marcada para o próximo sábado (20) em Foz do Iguaçu, no Brasil. No entanto, ela necessita do aval prévio dos governos nacionais. A França, principal opositora, solicitou o adiamento da votação para 2026, enquanto a Alemanha lidera o grupo que deseja selar o compromisso ainda esta semana.
O tratado é visto como uma via de mão dupla com ganhos e perdas setoriais claros. Por um lado, favorece exportações europeias de automóveis, máquinas e vinhos. Por outro, facilita a entrada de carne, açúcar, arroz e soja do Mercosul, o que gera oposição ferrenha dos sindicatos agrícolas europeus, que convocaram um grande protesto para esta quinta-feira em Bruxelas.
O impasse agora gira em torno da capacidade da Comissão Europeia de convencer a Itália a aceitar as novas cláusulas de proteção até sábado, evitando que o acordo, negociado há mais de duas décadas, sofra um novo e prolongado atraso.