A manutenção das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros segue como uma das grandes ameaças à indústria gaúcha em 2026. O alerta foi reforçado pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Cláudio Bier, e pelo economista-chefe da entidade, Giovani Baggio, durante a apresentação do balanço econômico anual e das perspectivas para o próximo ano.
Segundo Baggio, o cenário tarifário já provocou forte retração nas vendas externas do Rio Grande do Sul para o mercado americano. No último quadrimestre, a indústria gaúcha perdeu mais de US$ 250 milhões em exportações para os EUA, atingindo setores como tabaco, metal, madeira e calçados. A projeção da Fiergs é que, mantido o atual patamar de taxas, o prejuízo em 2026 chegue ultrapasse os US$ 900 milhões.
Baggio explica que a perda de arrecadação registrada no quadrimestre é exclusiva ao mercado americano, sem possibilidade de compensação com abertura de outros mercados. O fato de que diversos produtos, em diferentes áreas, já haviam sido encomendados quando as tarifas foram impostas, foi colocado como um dos fatores de impacto para registro deste prejuízo. “O problema das tarifas deve persistir no próximo ano. A flexibilização recente foi muito mais pela ótica americana, pelo impacto na inflação deles. Os produtos que nós exportamos aqui entram num terreno mais difícil”, destacou.
O presidente Cláudio Bier foi ainda mais direto, quando questionado sobre a possibilidade de reversão das tarifas. “Nos mesmos patamares antigos eu acho muito difícil (que retorne). Mas se tiver uma tarifa mais educada, que permita ao nosso empresário baixar um pouco o preço e eles pagarem um pouco mais lá, podemos chegar a um denominador comum”, respondeu.
Bier afirmou que a Fiergs tem atuado com compradores dos EUA para pressionar o governo americano. “Estamos contratando lobistas para trabalhar junto aos compradores, para que eles pressionem o governo, como já aconteceu com a celulose, que fez o papel higiênico triplicar de preço e, com isso, os fornecedores gritaram muito”, disse. Mesmo assim, reconheceu que o impacto segue sendo um dos principais fatores negativos para a indústria no ano que vem.
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Baggio lembrou que, apesar da tensão global, marcada por conflitos e pela mudança de governo nos EUA, a economia mundial mantém crescimento estável, mas lento. No Brasil, o real valorizado e a inflação moderada ajudaram em 2025, mas o avanço da dívida pública deve limitar cortes de juros. “A dívida pode fechar este ano em 80% do PIB e chegar a 85% no próximo. Isso tira força do Banco Central para reduzir juros”, avaliou Baggio.
Para o RS, o cenário é misto, já que o PIB deve fechar 2025 com alta de 1,6% e acelerar para 2,9% em 2026, puxado por uma expectativa de boa safra na agricultura. A dependência do agronegócio, porém, mantém o Estado vulnerável ao clima. “Quando chove da forma adequada, a safra é boa; quando não chove, não é. Isso afeta toda a cadeia de máquinas, agroindústrias, serviços e transporte”, disse Baggio.
Bier reforçou a importância da agricultura para o bom desempenho da economia gaúcha. “É fundamental que tenhamos boa safra. O Estado é dependente da agricultura e é ela que traz indústria e comércio. Nessas últimas enchentes, o Estado perdeu R$ 65 bilhões.”
Na parte final, o presidente fez, ainda, um alerta sobre outro risco crescente, que é a entrada massiva de produtos chineses, citando o exemplo da construção civil. “Sem poder entrar nos Estados Unidos por este conflito, a China começou a se espalhar pelo mundo e está entrando no Brasil, simplesmente dizimando muitos setores nossos. Eles abriram um shopping de fábricas em São Paulo, que faz a construção civil comprar direto das fábricas da China. Isso vai destruir a nossa indústria”, comentou.
Bier explicou que, no primeiro momento, o mercado chinês conquistará seu espaço com valores mais baixos, embora com qualidade considerada discutível no comparativo com a brasileira. “Num segundo momento, depois que eles destruírem a indústria brasileira, eles vão botar o preço que quiserem no produto deles e nós vamos perder nossa mão de obra, nossa tecnologia e tudo que nós construímos em todos esses anos de trabalho”, concluiu.
Mesmo com os desafios, a Fiergs vê fatores positivos para 2026. Entre eles, o comércio exterior mais favorável com novos mercados asiáticos e possível avanço do acordo Mercosul-UE, o consumo aquecido por programas sociais, investimentos privados no Estado e as obras de reconstrução pós-enchente.