Economia

Mercosul e União Europeia assinam acordo histórico após 26 anos de negociações

Acordo estabelece a eliminação gradual de tarifas para mais de 90% do comércio bilateral

Mercosul e a União Europeia formalizaram acordo em Assunção
Mercosul e a União Europeia formalizaram acordo em Assunção Foto : Luis Robayo / AFP / CP

O Mercosul e a União Europeia (UE) formalizaram, neste sábado, em Assunção, a criação de uma das maiores zonas de livre comércio do planeta. O tratado, negociado desde 1999, integrará um mercado de 720 milhões de consumidores, representando cerca de 30% do PIB mundial.

A cerimônia ocorreu no Banco Central do Paraguai, local simbólico onde o Mercosul foi fundado em 1991, e marca o fim da fase técnica de tratativas sob a sombra do crescente protecionismo global.

O evento contou com a presença da cúpula europeia, liderada por Ursula von der Leyen (Comissão Europeia) e António Costa (Conselho Europeu), além dos presidentes Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai), Yamandú Orsi (Uruguai) e Rodrigo Paz (Bolívia).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu por questões de agenda, sendo representado pelo chanceler Mauro Vieira. Apesar da ausência, Lula e Ursula reuniram-se na véspera, no Rio de Janeiro, onde o brasileiro classificou o pacto como essencial para o multilateralismo e o fortalecimento da democracia.

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Impacto comercial e redução de tarifas

O acordo estabelece a eliminação gradual de tarifas para mais de 90% do comércio bilateral. O Mercosul zerará impostos sobre 91% dos bens europeus — como automóveis, máquinas e vinhos — em até 15 anos. Em contrapartida, a UE eliminará tarifas sobre 95% dos produtos sul-americanos em até 12 anos. Setores sensíveis do agronegócio, como carne bovina, aves, açúcar e etanol, operarão sob um sistema de cotas de importação para evitar desestabilizações abruptas no mercado europeu.

Alinhado ao Acordo de Paris, o texto inclui cláusulas ambientais obrigatórias: produtos beneficiados não podem estar vinculados ao desmatamento ilegal. Essa exigência visa mitigar as críticas de ambientalistas e acalmar produtores rurais europeus, que realizam protestos em massa na França, Polônia e Bélgica por temerem a concorrência sul-americana. Para garantir a segurança alimentar, a UE manterá rigorosos padrões sanitários e fitossanitários para todos os itens importados.

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Próximos passos e vigência

A assinatura formal encerra o ciclo de negociações, mas a implementação depende da ratificação pelo Parlamento Europeu e pelos congressos nacionais de cada país do Mercosul. O vice-presidente brasileiro, Geraldo Alckmin, projeta que o acordo possa entrar em vigor ainda no segundo semestre de 2026.

A ApexBrasil estima que o tratado pode ampliar as exportações brasileiras em US$ 7 bilhões, diversificando a pauta comercial e integrando a indústria nacional às cadeias globais de valor.

Confira os principais pontos do acordo:

1. Eliminação de tarifas alfandegárias

Redução gradual de tarifas sobre a maior parte dos bens e serviços;

  • Mercosul: zerará tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos;
  • União Europeia: eliminará tarifas sobre 95% dos bens do Mercosul em até 12 anos.

2. Ganhos imediatos para a indústria

  • Tarifa zero desde o início para diversos produtos industriais.

>> Setores beneficiados:

  • Máquinas e equipamentos;
  • Automóveis e autopeças;
  • Produtos químicos;
  • Aeronaves e equipamentos de transporte.

3. Acesso ampliado ao mercado europeu

  • Empresas do Mercosul ganham preferência em um mercado de alto poder aquisitivo;
  • UE tem PIB estimado em US$ 22 trilhões;
  • Comércio tende a ser mais previsível e com menos barreiras técnicas.

4. Cotas para produtos agrícolas sensíveis

  • Produtos como carne bovina, frango, arroz, mel, açúcar e etanol terão cotas de importação;
  • Acima dessas cotas, é cobrada tarifa;
  • Cotas crescem ao longo do tempo, com tarifas reduzidas, em vez de liberar entrada sem restrições;
  • Mecanismo busca evitar impactos abruptos sobre agricultores europeus;
  • Na UE, as cotas equivalem a 3% dos bens ou 5% do valor importado do Brasil;
  • No mercado brasileiro, chegam a 9% dos bens ou 8% do valor.

5. Salvaguardas agrícolas

>> UE poderá reintroduzir tarifas temporariamente se:

  • Importações crescerem acima de limites definidos;
  • Preços ficarem muito abaixo do mercado europeu;
  • Medida vale para cadeias consideradas sensíveis.

6. Compromissos ambientais obrigatórios

  • Produtos beneficiados pelo acordo não poderão estar ligados a desmatamento ilegal;
  • Cláusulas ambientais são vinculantes;
  • Possibilidade de suspensão do acordo em caso de violação do Acordo de Paris.

7. Regras sanitárias continuam rigorosas

  • UE não flexibiliza padrões sanitários e fitossanitários.
  • Produtos importados seguirão regras rígidas de segurança alimentar.

8. Comércio de serviços e investimentos

>> Redução de discriminação regulatória a investidores estrangeiros.

>> Avanços em setores como:

  • Serviços financeiros;
  • Telecomunicações;
  • Transporte;
  • Serviços empresariais.

9. Compras públicas

  • Empresas do Mercosul poderão disputar licitações públicas na UE;
  • Regras mais transparentes e previsíveis.

10. Proteção à propriedade intelectual

  • Reconhecimento de cerca de 350 indicações geográficas europeias;
  • Regras claras sobre marcas, patentes e direitos autorais.

11. Pequenas e médias empresas (PMEs)

  • Capítulo específico para PMEs;
  • Medidas de facilitação aduaneira e acesso à informação;
  • Redução de custos e burocracia para pequenos exportadores.

12. Impacto para o Brasil

  • Potencial de aumento das exportações, especialmente do agro e da indústria;
  • Maior integração a cadeias globais de valor;
  • Possível atração de investimentos estrangeiros no médio e longo prazo.

13. Próximos passos

  • Aprovação pelo Parlamento Europeu;
  • Ratificação nos Congressos do Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai;
  • Entrada em vigor apenas após conclusão de todos os trâmites;
  • Acordos que extrapolam política comercial precisam ser aprovados pelos parlamentos de cada país.

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