Economia

Setor de habitação avança, mas é desigual

Maior parte dos empreendimentos segue concentrada em segmentos de médio e alto padrão, onde há um menor risco de inadimplência

O mercado imobiliário formal mantém indicadores robustos
O mercado imobiliário formal mantém indicadores robustos Foto : Alina Souza / CP Memória

O déficit habitacional brasileiro ainda é um dos entraves para o desenvolvimento econômico do país, ao mesmo tempo em que o mercado imobiliário mantém ritmo de expansão em diferentes frentes. A dificuldade de acesso à moradia, especialmente entre famílias de baixa renda, convive com um setor aquecido, impulsionado por crédito e demanda persistente. Dados atualizados do Ministério das Cidades, com base em estudos da Fundação João Pinheiro, instituição de pesquisa e ensino, mostram que o déficit habitacional atingiu 5,77 milhões de moradias em 2024, o equivalente a 7,4% dos domicílios do país. Apesar de leve redução recente, o número ainda reflete uma dificuldade concentrada principalmente nas faixas de menor renda. Na leitura anterior o resultado era ligeiramente maior, de 5,97 milhões. O principal componente dessa dificuldade continua sendo o ônus com aluguel.

Famílias comprometem mais de 30% da renda mensal com moradia, o que reduz capacidade de consumo e atividade econômica. Com menor espaço no orçamento há retração em gastos com bens e serviços, o que afeta o comércio e a circulação de renda. No Rio Grande do Sul, o cenário reflete tanto a dimensão da demanda quanto o volume de investimentos recentes. Entre 2023 e 2025 foram contratadas 146,8 mil unidades habitacionais por meio do programa federal Minha Casa, Minha Vida, com investimento de R$ 22,7 bilhões no Estado.

Ainda que dificuldades como gastos com aluguel pressionem a aquisição do imóvel na baixa renda, o mercado imobiliário formal mantém indicadores robustos. Em 2021 o crédito imobiliário superou R$ 255 bilhões, segundo o Banco Central. Em 2022 o volume permaneceu elevado, próximo de R$ 241 bilhões, consolidando o financiamento habitacional como uma das principais engrenagens de crédito de longo prazo no país.

Esse fluxo sustenta a atividade da construção civil, setor com efeito multiplicador. Estimativas da Câmara Brasileira da Indústria da Construção indicam que cada R$ 1 milhão investidos podem gerar entre 15 e 25 empregos diretos e indiretos, além de estimular cadeias produtivas como material, transporte e serviços. Apesar dos números positivos, a expansão do setor é desigual. A maior parte dos empreendimentos é concentrada no médio e alto padrão, onde há maior retorno financeiro e menor risco de inadimplência.

Programas ampliam as faixas de renda

Mudanças no programa Minha Casa, Minha Vida passaram a valer no último dia 22. Aumentaram limites de renda das famílias atendidas e valores de imóveis financiados. A expectativa é beneficiar 6 milhões de famílias no país. Com a elevação dos tetos e limites de renda, há migração para as faixas de menor renda. No Rio Grande do Sul, atualmente, são quase 1,5 mil unidades disponíveis, sendo que 66% do estoque estão nas faixas 1 e 2. Segundo Andressa de Freitas Machado, arquiteta especialista em engenharia de edificação, o comportamento do setor está ancorado em fatores estruturais. “O mercado imobiliário responde à demanda por moradia, ao crédito disponível e à renda. Esses fatores têm mais peso do que eventos pontuais”, afirma. A busca por imóveis como investimento, observa, também contribui para sustentar a atividade, sobretudo entre famílias de maior renda.

Localização tem peso na escolha

Levantamento da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) aponta que mais de 60% dos compradores consideram localização e segurança fatores decisivos, o que contribui para a valorização de áreas mais estruturadas e pressiona o preço dos imóveis. Paralelamente, o país observa mudanças no perfil da demanda, com expansão de empreendimentos para fora dos grandes centros urbanos. A busca por qualidade de vida e a consolidação de novas formas de trabalho têm impulsionado o crescimento de cidades do entorno das capitais, gerando novos polos de valorização imobiliária e redistribuição de investimentos. Enquanto isso, nas áreas urbanas mais densas o déficit habitacional segue associado à informalidade, à precariedade construtiva e à dificuldade de acesso ao crédito formal. Nessas regiões a moradia permanece como um dos fatores de pressão sobre a renda das famílias e sobre a dinâmica econômica local.

Demanda

  • Somente em 2024, o Rio Grande do Sul registrou mais de 84 mil contratações de moradias que estavam distribuídas em 442 municípios.
  • Os números apurados têm relação com as enchentes ocorridas naquele ano, cenário que aumentou a demanda por habitação.

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