Com uma hora de antecedência, Dionata, 7, filho de Juliana, a prima Cristina, 14, e a vizinha Tainara, 7, sobem no veículo tracionado por um cavalo e começam a seguir pelas ruelas da vila. No caminho, pegam outras filhas de moradores da região: Jenifer, 8, Stefani, 10, Pâmela, 7, e Cauani, 10. As meninas vão acomodando as mochilas cor de rosa na carroça, conduzida por Jussara, enquanto o equino come um pouco de grama. Juliana, que estudou mais do que a mãe, porém parou na sexta série, explica ir a pé é mais arriscado do que na carroça. As ruas têm muito fluxo de carros e são difíceis de atravessar até para chegar à parada de espera do coletivo, segundo ela. “Tem carros que não respeitam”, relata.
Ônibus não entra na vila, assim como energia elétrica e água encanada. Um sistema clandestino funciona em algumas das 300 casas. Até a metade da área, corre uma mangueira abastecendo os moradores. Porém, na parte onde vive a família de Jussara, os moradores dependem do caminhão pipa, que passa no local diariamente. Luz, somente como “gato”.
Situação preocupa MP
A Vila Santo André, onde famílias levam as crianças de carroça para a escola, fica em uma área do Departamento Autônomo de Estradas e Rodagem (Daer). As condições em que os moradores de lá vivem foram consideradas
precárias pelo Ministério Público, que realizou uma audiência pública, em agosto, para buscar uma solução jurídica para aquele território. A Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) concordou em instalar rede provisória e o Departamento Municipal de Águas e Esgotos (Dmae) se comprometeu em fornecer água potável. Já o Estado irá apresentar cronograma de regularização da área.
Comunidade reconhece esforço
A presidente da Associação Unidos da Vila Santo André, Lia Paim, afirma que a rotina é muito difícil para os 700 habitantes da região. Nos dias de chuva, prefere que o filho falte aula do que saia no barro. As ruas não têm calçamento e ficam cheias de lixo, já que a maioria dos moradores da vila trabalha com reciclagem. Ela estima que haja 50 carroças. Muitos desses proprietários transportam suas crianças nelas, assim como a família de Jussara.
O esforço dela e de Juliana é reconhecido pela comunidade escolar. A vice- diretor da Escola Antônio Giudice, Adriana Abech Branchelli, relata que as crianças não faltam a aula e são boas alunas. “Temos uma bela parceria com os pais, incluindo essa”, ressalta, informando que a instituição de ensino tem 1,2 mil alunos e o grupo que é levado de carroça participa, inclusive de atividades em um projeto de integral de estudo. Outro motivo para a catadora manter a frequência dos filhos é a cobrança para receber o benefício do Bolsa Família.
As meninas fazem questão de abrir os cadernos, protegidos por mochilas dos Ursinhos Carinhosos, e mostrar todos os deveres de casa feitos. Estudante da segunda série, Jenifer reconhece a importância da sua professora e
pretende seguir estudando para um dia ser como ela. Já Dionata tem dúvidas sobre a futura profissão. Depois de pensar bastante, diz que gostaria de ajudar o pai a recolher lixo nas ruas. “Ele trabalha como gari, mas até para isso tem que estudar”, lembra a avó. Mas quanto a esse critério, o menino tem cumprido a sua parte nos estudos. Na primeira série, já sabe escrever algumas palavras. Rato foi a primeira de muitas. No entanto, a criança ainda não consegue ajudar a avó a ler as placas. “Eu tenho que pedir para a minha filha e para as gurias para saber o que está escrito no ônibus”, conta. Ela incentiva que os netos e outros familiares não fiquem dependente de outras pessoas como ela, que aos 10 anos começou a trabalhar em casa de família e a escola servia apenas como refúgio para brincar.
Problema é comum no interior
A cena da família Coto, levando crianças em uma “carroça escolar” ao colégio expõe em problema muito frequente no interior do Estado. Na 3ª Marcha Gaúcha dos Prefeitos, uma das dificuldades apresentadas pelas prefeituras era a falta de recursos para a área. Entre as reivindicações, estavam o acréscimo de R$ 100 milhões no valor atual do repasse do transporte escolar e a conclusão das obras de acesso asfáltico.
Na Capital, existe uma lei que garante ônibus para os estudantes com baixa renda da rede municipal e que não conseguiram vagas em colégios próximos. A coordenadora adjunta do Bolsa Família / Vou à Escola, da Secretaria Municipal de Educação (Smed), Cláudia Cordeiro Rael, explica que a prioridade é matricular os estudantes na mesma região onde moram. Quando não é possível, um cartão com passagens de ônibus é cedido aos alunos, atendendo a uma distância mínima entre a residência e a instituição de ensino. Até 12 anos, o percurso máximo é de um quilômetro. A partir disso, as crianças têm o direito de receber o cartão. Entre 12 e 14, é um quilômetro e meio. Já de 14 a 24 anos, é de dois quilômetros no turno diurno e um no noturno. Para obter o benefício, basta solicitar à direção da escola e entregar documentos.
No caso da família Coto, Cláudia afirma que boa parte das crianças levadas na carroça já recebem as passagens. “Vamos avaliar o motivo de não estarem usando e procurar uma alternativa”, esclarece. Como somente os alunos têm o benefício, os pais precisam pagar o transporte para levá-los e essa é uma das razões para alguns não utilizarem. “Em muitos casos, também não há condução. Se for esse o caso, encaminharemos a demanda para a cidade”, declara. Atualmente, há 6,7 mil cartões ativos concedidos a alunos em Porto Alegre. Se eles tiverem menos 75% da frequência, sem justificativa, as passagens são bloqueadas.
Número de analfabetos cresce no Brasil
O número de analfabetos de 15 anos ou mais de idade no Brasil passou de 12,9 milhões para 13,2 milhões de pessoas entre 2011 e 2012, segundo Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) divulgado este ano. Em outra comparação, a taxa em Porto Alegre reduziu de 3.34% (2000) para 2.27% (2010), conforme dados do Atlas Brasil.
O percentual de pessoas de 25 anos ou mais de idade sem instrução ou com menos de um ano de estudo caiu de 15,1% para 11,9% no país, uma diminuição 3,4 milhões de pessoas entre 2011 e 2012. Já o percentual com nível superior completo passou de 11,4% em 2011 para 12,0% em 2012, um aumento de 6,5% (867 mil pessoas a mais), totalizando 14,2 milhões.
Na Vila Santo André, no bairro Humaitá, somente de carroça para chegar à escola / Foto: André Ávila