Ensino

Copa coloca Educação em campo e estudantes no jogo

Escolas aproveitam o torneio mundial para motivar alunos e transformar o interesse pelo futebol em experiências de aprendizagem

Proposta da disciplina de artes conta com a colaboração das áreas de Linguagens e Ciências Humanas
Proposta da disciplina de artes conta com a colaboração das áreas de Linguagens e Ciências Humanas Foto : Martina Caldas / Especial / CP

Enquanto milhões de torcedores acompanham por meio de mídias os jogos da Copa do Mundo de Futebol 2026, ensinos público e privado aproveitam a fase para inspirar projetos e ampliar conhecimentos. Em Porto Alegre, uma das criativas propostas educativas vive o torneio de outra forma: estuda arte através das páginas do álbum de figurinhas. E outra ideia usa a coleção para explorar responsabilidade ambiental.

Meio ambiente em jogo

No Colégio Marista Champagnat, o álbum da Copa foi ponto de partida para discutir sustentabilidade. No pátio, foi instalado um espaço de coleta exclusivo para os papéis adesivos das figurinhas, conhecidos como “liners”. O motivo é que esse material, normalmente descartado em lixo comum, não é reciclado pelos processos convencionais.

A iniciativa tem origem no projeto “Rumo ao Lixo Zero”, desenvolvido pela instituição desde 2025, em parceria com startup vinculada à Tecnopuc: a Green Thinking. Ela recolhe os resíduos produzidos e encaminha-os ao Centro de Triagem da Vila Pinto, no bairro Bom Jesus.

Como os liners exigem um processo específico de reaproveitamento, após a triagem, o material é enviado para Guarulhos (SP), onde funciona a única empresa especializada na reciclagem de liners do Brasil e da América Latina: a Polpel Fibras. A necessidade desse descarte diferenciado foi descoberta após a mãe de um estudante levar a questão à direção da escola.

A conscientização ambiental também anima e mobiliza os alunos. Enrico Pramio Bonfiglio, de 10 anos, atua como “guardião ambiental” de sua turma, monitorando o descarte correto de resíduos e incentivando o engajamento dos colegas. “Além de mim, também tem dois representantes do lixo, e nós ficamos perguntando para os colegas se eles estão fazendo o descarte do jeito certo”, conta o estudante.

Na Escola, a Copa do Mundo acabou se tornando um importante elemento de engajamento para o projeto, aproximando a Educação Ambiental de experiência já vivida por todas as turmas, do ensino Fundamental ao Médio. A diretora Shirley Cardoso considera que essa conexão contribui para despertar o interesse dos alunos e fortalecer a conscientização sobre o descarte correto dos resíduos. “A Educação Ambiental ganha ainda mais significado quando se conecta com vivências reais. Ao promovermos a coleta de liners, mostramos que pequenas atitudes podem gerar impactos positivos e que todos têm papel importante na construção de sociedade mais sustentável”, destaca.

Os relatos dos estudantes refletem o trabalho de conscientização ambiental desenvolvido pela escola ao longo dos últimos anos. Segundo Shirley, a mobilização em torno da Copa ajudou a reforçar essa mensagem, ao conectar responsabilidade ambiental a um tema de interesse dos alunos. “Eles uniram essa motivação da Copa com uma corresponsabilidade. Não é porque eu vou vibrar com a Copa do Mundo, com os nossos jogadores, que eu vou fazer um descarte inadequado de materiais”, afirma.

A experiência demonstra que o interesse despertado pela Copa do Mundo pode ser transformado em oportunidade de aprendizagem. E que quando incorporado ao cotidiano escolar, o torneio deixa de ser apenas um evento esportivo e passa a estimular novas formas de ensinar, aprender e conviver.

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Copa da Arte

No Colégio Marista Rosário, a disputa pelas figurinhas ganhou novos significados. Inspirada pelo sucesso do álbum oficial da Copa do Mundo, a professora de Artes Micheli Filomena criou a “Copa da Arte Contemporânea”, que transforma o estudo sobre artistas, conceitos e movimentos da atualidade em dinâmica colaborativa de troca entre os alunos do Ensino Médio. Além de ampliar o engajamento com a disciplina, a proposta promoveu experiências interdisciplinares e fortaleceu a socialização entre os alunos do Terceirão.

O trabalho surgiu da percepção de que o último ano do Ensino Médio costuma ser marcado por pressão e desgaste emocional provocados pela preparação para processos seletivos, como Enem e vestibulares. Diante desse cenário, para tornar mais acessível o conteúdo, Micheli desenvolveu um álbum com 16 figurinhas sobre arte contemporânea brasileira e internacional. E a publicação foi intercalada com exercícios inspirados no Enem e em atividades feitas em sala.

A proposta também conta com a colaboração das áreas de Linguagens e Ciências Humanas. Os docentes envolvidos são responsáveis por mediar a obtenção de algumas figurinhas consideradas mais difíceis, que só podem ser conquistadas após a realização de atividades específicas. Com o sucesso do projeto, até mesmo figurinhas “lendárias” passaram a ser desenvolvidas por professores de outras disciplinas. Mais raras, elas exigem desafios extras para serem obtidas pelos estudantes.

“Como arte contemporânea é conteúdo bastante denso e, muitas vezes, difícil de trabalhar de maneira prática, pensei em transformar o aprendizado em algo mais próximo da realidade deles. O álbum ajuda os estudantes a fixarem os artistas contemporâneos, as linguagens utilizadas e os conceitos estudados, ao mesmo tempo em que promove envolvimento e interação entre as turmas”, explica a docente.

Junto aos escolares, a proposta também teve boa receptividade. O aluno Pedro Pereira Terra Silva afirma que a dinâmica facilitou a compreensão da disciplina e ampliou conhecimentos. “Nunca tive muita facilidade para entender a parte teórica da arte, mas, dessa forma, é mais fácil memorizar. Acho que aprimora nossa capacidade de síntese e ajuda a criar repertório, não só para as avaliações, mas também sobre nosso cotidiano”.

Já a aluna Luana Dull Verle explica que gostava da disciplina de Artes, "mas acho que, entre fazer um mapa mental ou realizar atividades do livro, prefiro essa proposta mais prática, ou até esse formato interdisciplinar que a professora criou ao colecionar figurinhas entre as diferentes disciplinas”. Segundo ela, até mesmo estudantes que normalmente demonstram pouco interesse pela disciplina passaram a enxergar no álbum uma forma de aprendizado aliada à diversão das tradicionais trocas de figurinhas.

Maior convivência e integração escolar é outra conquista do projeto. “É um incentivo a mais – com as outras turmas e dentro da própria sala – para conhecer colegas com quem não temos tanto contato”, avalia Pedro. E cursando o último ano na Escola, o jovem alega que o projeto ganha um significado especial, “porque são turmas que já estão formadas há bastante tempo e que, de certo modo, acabam não dialogando tanto”.

Micheli assinala que a experiência deve continuar nos próximos anos, mesmo sem estar vinculada à Copa. Argumenta que a melhor resposta que teve veio dos próprios alunos. “Eles sentaram no chão da sala, trocando figurinhas do álbum, e aquilo me deu um quentinho no coração de professora. Foi quando pensei: 'Bah, deu certo!”, relembra.

*Sob supervisão de Maria José Vasconcelos