Ensino

Ensino requer razão e emoção conectadas

Temática centralizou os debates do recente congresso do Sindicato do Ensino Privado do RS, que atraiu cerca de 1,6 mil educadores em palestras sobre cotidiano escolar, prática docente, ética, tecnologia e gestão educacional

Recortes com os principais momentos do  18° Congresso do Ensino Privado Gaúcho, como com o palestrante Guilherme, podem ser conferidos no portal do Sinepe/RS. E videocasts com especialistas também serão divulgados
Recortes com os principais momentos do 18° Congresso do Ensino Privado Gaúcho, como com o palestrante Guilherme, podem ser conferidos no portal do Sinepe/RS. E videocasts com especialistas também serão divulgados Foto : Mauro Schaefer

Como conectar razão e emoção para promover uma aprendizagem cada vez mais significativa e atenta às mudanças foi desafio proposto pelo 18° Congresso do Ensino Privado Gaúcho, realizado neste final de julho (23 a 25/7), no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre. Em plenas férias, o já tradicional encontro de educadores, que acontece em anos alternados, sempre mobiliza temáticas contemporâneas, em debates qualificados, que envolvem palestrantes nacionais e internacionais.

A abertura dos trabalhos teve conferência do psicoterapeuta e professor Leo Fraiman, que, com humor e empatia, propôs uma reflexão sobre rotinas escolares, relações e potência do professor inspirador. Entre outras questões, assinalou que ser feliz envolve saber lidar com tristezas, desafios e frustrações, com sabedoria. No campo intelectual, citou que a curiosidade constante nos permite maior abertura para o novo. Nas relações, falou sobre afetos reais e a necessidade de humanizar os espaços escolares. “Temos professores piradores e professores inspiradores. E todos nós já conhecemos os dois. A escola precisa ser um lugar que acolhe, que inspira, que cuida dos seus. Onde não seja permitido dar uma aula ruim, porque uma aula ruim também machuca”, considerou. E ao encerrar a palestra, o especialista defendeu: “que possamos sair deste congresso não apenas com mais conhecimento, mas com mais alma. Porque é isso que faz da Educação uma das formas mais bonitas de tocar o mundo”.

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IA no Ensino

Outro tema em discussão foi a Inteligência Artificial (IA) no ensino. Assim, o professor Idelfrânio Moreira instigou o público a reimaginar o papel do professor diante das inovações tecnológicas e pedagógicas. Com base em dados atuais e casos internacionais, Idelfrânio apresentou o conceito de IA aumentada, em que humanos e máquinas formam uma dupla colaborativa. “Já fomos a espécie mais inteligente da Terra. Agora temos outra inteligência batendo no nosso ombro. E o segredo está em trabalhar em conjunto”, afirmou. Segundo o professor, quem utiliza a IA somente para delegar tarefas e entregar resultados padronizados se torna o que ele chama de “professor central”. Já o “professor ciborgue” utiliza a IA para automatizar tarefas operacionais, mas mantém o olhar humano e pedagógico na adaptação dos conteúdos às necessidades de cada turma. “Ser ciborgue é isso: usar a IA como ferramenta e aplicar a sua inteligência humana onde ela é insubstituível”, explicou. Ele também fez um alerta: muitos estudantes vêm usando a IA para evitar o esforço cognitivo, recorrendo a ferramentas para resumir textos ou gerar respostas prontas, sem alcançar os níveis mais analíticos e criativos. “Estamos vendo uma geração que tem todas as oportunidades nas mãos. No entanto, muitas vezes está despreparada para elas. Mas educar ainda é isso: despertar propósito”, pontuou.

Outro assunto que mobilizou os cerca de 1,6 mil participantes no Congresso do Sinepe/RS foi apresentado pelo professor universitário Guilherme Nogueira. O pesquisador, com doutorado em Neurociência do Envelhecimento, tratou sobre “Contribuições neurocientíficas para os processos de aprendizagem e educação”. Ele argumentou sobre a influência dos sistemas neurais nos processos de aprendizado e comportamento. Relacionou os diversos fatores que compõem o cotidiano do estudante, como alimentação, sono, ambiente e motivação, com a capacidade cerebral deles em absorver e associar conteúdos. E, segundo o especialista, o vínculo afetivo entre o aluno e o professor é um dos pilares fundamentais para que se estabeleça uma Educação de qualidade. “A ciência orienta, o afeto transforma”, enfatizou. Em um dos momentos de reflexão que propôs, Guilherme acrescentou que o cérebro que melhor nos define, ao longo da vida, é mais influenciado por experiências vivenciadas do que por herança genética. Entretanto, ressaltou ser necessário haver equilíbrio, entre afetividade e disciplina.

Motivação e ética

No último dia, a palestra do professor Zeca de Mello, “Razão e Emoção: simbiose indispensável”, foi o tema. No debate, Zeca defendeu a necessidade de se repensar um sistema educacional tradicional calcado na memória e nos resultados, quando a paixão e a motivação pelo saber devem ganhar mais espaço. Também falou sobre as oportunidades que surgem a partir das crises institucionais e sociais.

Para o teólogo, a verdade transformadora é mais existencial do que puramente racional, evocando a necessidade da afetividade dentro dos espaços educativos. “Abrir um espaço de ressonância, onde as pessoas possam se deixar tocar e responder. É isso que transforma.” E completou, considerando que “a verdade sem amor é pedrada.”

O professor da Fundação Dom Cabral ainda refletiu sobre ética, dentro e fora da sala de aula. Citou o envolvimento da sensibilidade corporal, trabalhada em artes – como teatro e dança, por exemplo –, na construção de empatia e caráter. Também falou sobre a dificuldade de colocar valores individuais acima da conveniência coletiva em situações cotidianas, pois o desejo pela sensação de pertencimento sempre moveu o ser humano, e disse que ensaiar sobre esse tipo de adversidade também é função educacional.

A disputa pela atenção nas sociedades tecnológicas, onde a dificuldade de foco por tempo prolongado se tornou uma barreira para os estudantes, foi mais um ponto argumentado. “Atenção é a coisa mais revolucionária que alguém pode dar atualmente”, resumiu.