Como conectar razão e emoção para promover uma aprendizagem cada vez mais significativa e atenta às mudanças foi desafio proposto pelo 18° Congresso do Ensino Privado Gaúcho, realizado neste final de julho (23 a 25/7), no Centro de Eventos da PUCRS, em Porto Alegre. Em plenas férias, o já tradicional encontro de educadores, que acontece em anos alternados, sempre mobiliza temáticas contemporâneas, em debates qualificados, que envolvem palestrantes nacionais e internacionais.
A abertura dos trabalhos teve conferência do psicoterapeuta e professor Leo Fraiman, que, com humor e empatia, propôs uma reflexão sobre rotinas escolares, relações e potência do professor inspirador. Entre outras questões, assinalou que ser feliz envolve saber lidar com tristezas, desafios e frustrações, com sabedoria. No campo intelectual, citou que a curiosidade constante nos permite maior abertura para o novo. Nas relações, falou sobre afetos reais e a necessidade de humanizar os espaços escolares. “Temos professores piradores e professores inspiradores. E todos nós já conhecemos os dois. A escola precisa ser um lugar que acolhe, que inspira, que cuida dos seus. Onde não seja permitido dar uma aula ruim, porque uma aula ruim também machuca”, considerou. E ao encerrar a palestra, o especialista defendeu: “que possamos sair deste congresso não apenas com mais conhecimento, mas com mais alma. Porque é isso que faz da Educação uma das formas mais bonitas de tocar o mundo”.
IA no Ensino
Outro tema em discussão foi a Inteligência Artificial (IA) no ensino. Assim, o professor Idelfrânio Moreira instigou o público a reimaginar o papel do professor diante das inovações tecnológicas e pedagógicas. Com base em dados atuais e casos internacionais, Idelfrânio apresentou o conceito de IA aumentada, em que humanos e máquinas formam uma dupla colaborativa. “Já fomos a espécie mais inteligente da Terra. Agora temos outra inteligência batendo no nosso ombro. E o segredo está em trabalhar em conjunto”, afirmou. Segundo o professor, quem utiliza a IA somente para delegar tarefas e entregar resultados padronizados se torna o que ele chama de “professor central”. Já o “professor ciborgue” utiliza a IA para automatizar tarefas operacionais, mas mantém o olhar humano e pedagógico na adaptação dos conteúdos às necessidades de cada turma. “Ser ciborgue é isso: usar a IA como ferramenta e aplicar a sua inteligência humana onde ela é insubstituível”, explicou. Ele também fez um alerta: muitos estudantes vêm usando a IA para evitar o esforço cognitivo, recorrendo a ferramentas para resumir textos ou gerar respostas prontas, sem alcançar os níveis mais analíticos e criativos. “Estamos vendo uma geração que tem todas as oportunidades nas mãos. No entanto, muitas vezes está despreparada para elas. Mas educar ainda é isso: despertar propósito”, pontuou.
Outro assunto que mobilizou os cerca de 1,6 mil participantes no Congresso do Sinepe/RS foi apresentado pelo professor universitário Guilherme Nogueira. O pesquisador, com doutorado em Neurociência do Envelhecimento, tratou sobre “Contribuições neurocientíficas para os processos de aprendizagem e educação”. Ele argumentou sobre a influência dos sistemas neurais nos processos de aprendizado e comportamento. Relacionou os diversos fatores que compõem o cotidiano do estudante, como alimentação, sono, ambiente e motivação, com a capacidade cerebral deles em absorver e associar conteúdos. E, segundo o especialista, o vínculo afetivo entre o aluno e o professor é um dos pilares fundamentais para que se estabeleça uma Educação de qualidade. “A ciência orienta, o afeto transforma”, enfatizou. Em um dos momentos de reflexão que propôs, Guilherme acrescentou que o cérebro que melhor nos define, ao longo da vida, é mais influenciado por experiências vivenciadas do que por herança genética. Entretanto, ressaltou ser necessário haver equilíbrio, entre afetividade e disciplina.
Motivação e ética
No último dia, a palestra do professor Zeca de Mello, “Razão e Emoção: simbiose indispensável”, foi o tema. No debate, Zeca defendeu a necessidade de se repensar um sistema educacional tradicional calcado na memória e nos resultados, quando a paixão e a motivação pelo saber devem ganhar mais espaço. Também falou sobre as oportunidades que surgem a partir das crises institucionais e sociais.
Para o teólogo, a verdade transformadora é mais existencial do que puramente racional, evocando a necessidade da afetividade dentro dos espaços educativos. “Abrir um espaço de ressonância, onde as pessoas possam se deixar tocar e responder. É isso que transforma.” E completou, considerando que “a verdade sem amor é pedrada.”
O professor da Fundação Dom Cabral ainda refletiu sobre ética, dentro e fora da sala de aula. Citou o envolvimento da sensibilidade corporal, trabalhada em artes – como teatro e dança, por exemplo –, na construção de empatia e caráter. Também falou sobre a dificuldade de colocar valores individuais acima da conveniência coletiva em situações cotidianas, pois o desejo pela sensação de pertencimento sempre moveu o ser humano, e disse que ensaiar sobre esse tipo de adversidade também é função educacional.
A disputa pela atenção nas sociedades tecnológicas, onde a dificuldade de foco por tempo prolongado se tornou uma barreira para os estudantes, foi mais um ponto argumentado. “Atenção é a coisa mais revolucionária que alguém pode dar atualmente”, resumiu.