Um importante espaço de acolhimento a alunos e servidores vítimas de assédio na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) pode perder sua sede. Desde outubro de 2025 a Ocupação Sarah Domingues, organizada por movimentos sociais e estudantes, utiliza uma sala no Campus do Vale, em Porto Alegre, onde realiza atendimentos e oferece suporte emocional às vítimas. A reitoria, no entanto, pretende retomar o local com o objetivo de instalar uma farmácia.
Segundo Macliciana Donida, coordenadora estadual do Movimento de Mulheres Olga Benário, que integra a ocupação, a Universidade não ofereceu outro espaço para a continuidade do trabalho realizado pelos universitários. Para evitar o despejo, estudantes mantêm vigília 24 horas por dia no local desde 15 de fevereiro e prometem permanecer até que a reitoria apresente uma alternativa. “Um novo local ou um serviço institucional que ofereça escuta, assistência e proteção às vítimas”, resume Macliciana.
De acordo com integrantes da Ocupação, pelo menos 200 denúncias de assédio foram recebidas desde o início das atividades. Os movimento informa que todos os casos foram encaminhados à reitoria.
Nota da Universidade
Em nota, a Administração Central da Ufrgs informou que a sala ocupada abrigava originalmente uma farmácia, fechada durante a pandemia de Covid-19, e que o uso do espaço pelos estudantes ocorre sem autorização formal. A Universidade afirma que há uma licitação em andamento para reinstalar a farmácia, com capacidade para atender cerca de 15 mil pessoas que circulam diariamente pelo Campus do Vale.
Sobre os casos de assédio mencionados pelo coletivo, a Ufrgs afirma ter promovido cursos de capacitação sobre o tema para diretores e gerentes no último ano, além de ter estruturado uma corregedoria específica para tratar denúncias. A instituição acrescenta que “ações de acolhimento desconectadas das instâncias que já acompanham as denúncias geram dificuldades para o monitoramento e a resolutividade”. A reitoria diz ainda ter convidado os integrantes da ocupação a participar de uma comissão vinculada ao Fórum dos Serviços de Atendimento e Prevenção ao Assédio e Outras Violências nas Relações de Trabalho da Ufrgs. “Salientamos que o combate ao assédio é prioridade desta administração desde seu início”, complementa o texto.
Reações
O Sindicato dos Técnico-Administrativos da Ufrgs, UFCSPA e IFRS (Assufrgs) classifica as medidas de combate ao assédio adotadas pela Universidade como “insuficientes diante do aumento dos casos e da impunidade dos agressores” e repudiou o ato, que classifica como “despejo”. “A construção e manutenção desse espaço são vitais para o enfrentamento à violência de gênero na Ufrgs, especialmente no Campus do Vale”, destacou a entidade.
O Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa) também se manifestou sobre o caso, defendendo que “as instituições atuem em conjunto com os movimentos sociais para enfrentar a violência de gênero e garantir um espaço físico para que as mulheres sejam escutadas e acolhidas”.