Apesar da comparação entre investimento e desempenho na educação chamar atenção no estudo do projeto Gestão Pública Eficaz, do Sescon/RS, nem sempre ela guarda uma lógica exata. É o que explica o especialista em financiamento da Educação e professor convidado da Escola de Gestão da Associação das Federações de Municípios do Rio Grande do Sul (Famurs), Carlos Sanches. Ele lembra que os recursos aplicados pelos municípios se dão, principalmente, a partir do Fundeb, mecanismo que distribui os recursos para financiar as matrículas da Educação Básica no Brasil. “A lógica do financiamento tem que ser analisada a partir da realidade da estrutura e da organização de cada rede de Ensino.”
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Sobre as avaliações, diz que o resultado leva em conta apenas a lógica de “quanto tempo alguns alunos levaram para aprender algumas coisas”. O professor entende que o Ideb não consegue medir se uma rede de ensino é melhor ou pior, pois considera apenas alunos no final do 5º e do 9º ano (no caso, do Ensino Fundamental). Consiste, portanto, em uma medição pontual. “Não é um processo de avaliação que contempla o cotidiano da sala de aula e do processo de aprendizagem.” Além disso, comenta que o tempo de cada estudante aprende varia e que a realidade socioeconômica é fator que influencia muito.
Para comparar Porto Alegre com Ijuí, por exemplo, não basta olhar para a verba aplicada e o resultado final do Ideb. Conforme Sanches, entre estes números, há uma série de elementos a serem considerados, como nível de formação dos professores, situação da vida funcional, tamanho e estrutura das escolas, onde tem mais professores contratados e concursados e, entre os concursados, quais têm uma vida e uma carreira mais estável.
As soluções para a educação, conforme o especialista, passam por quatro pontos. O principal deles seria a valorização profissional, com carreira, salários e formação adequada aos professores, garantindo o equilíbrio da rede e uma boa gestão de recursos humanos. Em seguida, afirma ser importante investir em recursos pedagógicos, como livros didáticos, jogos e brinquedos que auxiliem no aprendizado. A infraestrutura adequada seria o terceiro aspecto, com as escolas tendo espaço físico de acordo com o que a legislação determina, ou seja, exigências do Corpo de Bombeiros e da Vigilância Sanitária cumpridas, assim como mobiliário urbano e iluminação adequadas. O último ponto diz respeito à gestão de processos, pedagógica, financeira e administrativa da rede e das unidades escolares. “Se a gente conseguir atacar esses quatro pontos, eu acho que consegue otimizar o investimento em Educação.”
A realidade do dia a dia
Como o processo de ensino e aprendizagem pode ser efetivo em um ambiente que reúne alunos que convivem diariamente com a violência, o frio e a fome? Esta é a pergunta que fazem professoras e diretoras da rede pública de ensino ao analisar qualquer dado referente ao desempenho escolar. Este cenário, que antecede a sala de aula, só se agrava ao encontrar uma estrutura que tem sido precarizada ao longo dos anos, com falta de professores e valorização profissional, escassez de materiais e deterioração de espaços físicos adequados.
“Pode se investir o dobro, mas se não investir na vida cotidiana, isso vai vir para cá”, comenta a pedagoga e professora Adriane Rodolpho, que há 17 anos trabalha na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Chico Mendes. Localizada no bairro Mário Quintana, na zona Norte da Capital, a instituição, de acordo com Adriane, é cercada por violência. Nos últimos anos, homicídios até mesmo envolvendo esquartejamentos foram registrados nas imediações.
A realidade da região se reflete na vida dos alunos, que acabam trazendo os problemas físicos e psicológicos vividos fora da escola para dentro dela. Conforme a professora, relatos envolvem casas destelhadas, falta de roupas e cobertas, fome e até abuso sexual. Também são rotineiras as histórias de crianças que veem os pais em momentos de intimidade e que começam a consumir bebidas alcoólicas desde cedo, muitas vezes na faixa dos 10 anos de idade.
Para tentar ajudar, a própria comunidade escolar costuma se mobilizar, mas o auxílio termina no empenho dos educadores. Isso porque, para piorar este quadro, a rede municipal de Educação não tem sido capaz de oferecer realidade muito melhor. São salas de aula consideradas inadequadas, biblioteca defasada e uma sala de informática ultrapassada, com as letras dos teclados já apagadas, que fazem parte da rotina de quem tenta ensinar e de quem tenta aprender na Capital. Emocionada, Adriane lembra que, quando começou a lecionar na Chico Mendes, a situação era oposta. Lembra, inclusive, que a escola era considerada referência e que recebia pesquisadores internacionais para seminários da área da Educação. “Vou terminar minha carreira de forma humilhante”, diz, decepcionada, a professora que se aposenta em cinco anos.
Além de entenderem que, mesmo estando entre os mais altos das capitais, os salários dos professores não sejam adequados – eles afirmam não ter aumento e ter reposição parcelada – e que não há valorização profissional, os professores tendem a discordar como um todo da maneira como a gestão do prefeito Nelson Marchezan Júnior tem olhado para a Educação. De acordo com a diretora da Emef Chico Mendes, Aline Soares, a nova rotina escolar tem sido tumultuada. Como o horário de almoço não pode mais ser dentro do período de aula, as filas da cantina aumentaram após o horário de saída dos alunos da manhã, que ainda estão dentro da escola quando os da tarde chegam. O papel dos diretores, segundo Aline, também tem sido burocratizado e afastado da parte pedagógica.
Na rede estadual, os problemas mudam de competência, mas parecem ser muito semelhantes. Todas as tardes, assim que chega à Escola Estadual Ensino Médio Cristóvão Colombo, no bairro Sarandi, a diretora Samantha Cândido vai até os banheiros dos alunos somente para tocar as descargas dos vasos sanitários, metade deles sem os assentos. As paredes, por sua vez, estão quase todas pichadas, o que ajuda a revelar aquele que, para a educadora, é o principal problema enfrentado na escola: a falta de infraestrutura familiar.
Com isso, ela quer dizer que, na família, os estudantes não encontram a base necessária para ter uma educação mínima. Muitas vezes, é na escola que eles vão aprender atitudes básicas para o convívio social, além de, para alguns, ser o local onde têm a principal refeição do dia. Por outro lado, a pouca importância dada para o ensino dentro de casa, conforme Samantha, leva à falta de ambição e, consequentemente, à evasão escolar.
A violência do entorno da escola também é problema frequente. Segundo a diretora, recentemente as aulas do turno da tarde foram interrompidas mais cedo devido ao toque de recolher estabelecido por facções criminosas do bairro da zona Norte da Capital. No turno da noite, o problema é ainda mais recorrente e agravado pelo tráfico de drogas que acontece até mesmo dentro da instituição. Samantha, que é também professora de Biologia da Cristóvão Colombo há 17 anos, diz que sente a queda de recursos vindos do Estado ao longo do tempo, por exemplo, para implementação de alguma sala ou laboratório e para livros voltados ao vestibular.
Por trás dos números, a realidade do dia a dia dos estudantes
Especialista aponta soluções na educação passam por pelo menos quatro pontos